Cayo
O dia amanheceu igual a todos os outros aqui dentro: com o barulho de metal rangendo, a luz fraca entrando pela grade da janela minúscula e aquele vazio no peito que já virou meu maior companheiro.
Mas hoje, eu acordei com uma decisão firme na cabeça.
Chega Cayo.
Chega de ficar me remoendo por uma mulher que claramente me esqueceu. A Analu seguiu a vida dela, e eu também preciso seguir a minha.
Ou pelo menos, fingir que tô seguindo.
A primeira coisa que fiz foi pedir pro Rafael, um cara que manja dos cortes, passar a máquina na minha cabeça. Não um corte de presidiário, nada disso. Só tirei o excesso, afinei as laterais, deixei mais limpo. Ainda sou eu, o motoqueiro roqueiro, só que uma versão que tá tentando não se afogar no próprio veneno.
Depois, peguei a lâmina e caprichei na barba, deixando ela mais definida. É incrível como umas mudanças bestas no visual podem dar uma sensação de controle, mesmo quando você não tem controle de porra nenhuma da sua vida.
Mas aí