Cayo
Tem dias aqui que o tempo para. A noite desce nesse lugar e fica pesada em cima da gente. O corpo cansa de ficar deitado nessa cama de concreto, a mente cansa de pensar.
E eu, eu já me cansei de lembrar.
A Gabi veio de novo.
Trouxe mais um desenho do Zyon, um pacote de biscoito. Ela tá tentando, eu vejo. Tá com umas olheiras fundas, a roupa do lanchonete ainda com cheiro de gordura. Ela fica do outro lado da mesa de concreto, tentando puxar assunto, falando do nosso menino, da minha mãe, do trampo, de qualquer coisa que não seja essa merda toda.
Mas eu não consigo.
As palavras travam na garganta.
Ela pergunta se tô bem, se tô comendo, e eu só balanço a cabeça, olhando pra mesa entre a gente, marcada de nomes e desespero.
— Cayo, fala comigo, pelo amor de Deus — a voz dela tá cheia de uma preocupação que me dói mais que o silêncio.
Eu levanto os olhos.
Encontro os dela. E falo, devagar, como se cada palavra fosse uma pedra que tô tirando do peito.
— Ela escolheu o outro, Gabi