Cayo
O ar condicionado do shopping soprava um friozinho artificial, daqueles que faz você esquecer o inferno que tá lá fora. Minha mão estava em cima da coxa da Analu, debaixo da mesa, sentindo aquele calor que sempre vinha dela, como se o corpo da patricinha tivesse um sol próprio escondido sob a pele.
A gente tava comendo aquela porção de frango passarinho mixuruca, dessas que custam uma fortuna e vem uma dúzia de pedacinhos, e ela ria de alguma bobeira que eu tinha falado.
Cada risada dela era uma faca no meu peito, mas do jeito bom. Do jeito que doía e eu queria mais. Porque eu sabia que não merecia. Merecia um tiro, talvez. Mas não aquela mulher, naquela mesa, naquela vida que não era minha.
— Você tá quieto. — ela falou, os olhos azul-acinzentados me escaneando como sempre.
A patricinha sempre me lendo, sempre tentando decifrar o enigma barato que eu era.
— Tô só te olhando. — eu disse, e era verdade.
Gostava de ver ela nesses lugares, como se fosse natural. Como se eu fosse nat