Analu
O choro veio com a força de um rio transbordando. Deitei na cama, afundando o rosto no meu travesseiro.
Covarde.
A palavra que eu tinha cuspido nele ecoava na minha mente, mas o som mais alto era o do choro do filho dele. O menino, com seus olhos iguais aos do pai, aqueles olhos castanhos que viam um herói onde eu agora via um mentiroso.
Três dias.
Setenta e duas horas de um silêncio que doía mais do que qualquer gritaria. Meu telefone estava ali, na mesa de cabeceira, um objeto inofensivo que se transformara num instrumento de tortura. Eu pegava, olhava a tela preta, colocava de volta. Repetia o ritual a cada meia hora, como uma doida.
Meu pai, é claro, notou.
— Você está diferente, Analu. Está comendo pouco.
Diferente.
Era um jeito polido de dizer "se acabando por um motoboy que não presta". Minha mãe, mais sutil, apenas me observava com aqueles olhos que sempre sabiam demais. O condomínio era uma redoma, mas minha mente era uma cela – e o único prisioneiro era eu.
Minha mente