CAYO
Não tô acreditando até agora.
Até essa moto rugir debaixo da gente e a gente sumir nas ruas, eu não acreditei. A princesa realmente fugiu com o diabo.
A Analu, tão delicada e com cheiro de perfume de gente rica, tá aqui na minha garupa, os braços grudados na minha cintura como se eu fosse a tábua de salvação dela. E o mais doido? Eu sou. Eu sou o naufrágio e a salvação dela ao mesmo tempo.
A adrenalina tá correndo nas minhas veias que nem gasolina pura. Mal sinto o vento batendo na cara. Só sinto o calor dela nas minhas costas, a respiração rápida dela no meu pescoço. Cada rua que a gente passa, cada luz que a gente deixa pra trás, é um prego no caixão da vida perfeita que ela devia ter. E eu tô guiando esse prego com as duas mãos, com um sorriso de idiota no rosto que não some nem a pau.
Quando a gente chegar na minha rua, na minha quebrada, eu espero que ela mude de ideia. Que o cheiro de feijão e de roupa no varal faça ela acordar do delírio.
Mas ela me surpreendeu, desceu