Mundo de ficçãoIniciar sessão— Senhora, seu cartão foi recusado novamente.
Olívia fechou os olhos por um segundo.
Só um.
Porque se respirasse fundo demais naquele momento, provavelmente acabaria chorando no meio da farmácia.
E ela estava cansada demais para passar mais uma vergonha.
— Tenta outra vez, por favor — pediu, forçando um sorriso pequeno.
A atendente assentiu sem graça.
Olívia apertou os dedos contra a alça da bolsa enquanto observava o visor da maquininha processar o pagamento pela segunda vez.
Negado.
De novo.
O constrangimento queimou seu rosto imediatamente.
Atrás dela, algumas pessoas começaram a resmungar pela demora.
Uma mulher soltou um suspiro irritado.
Um homem olhou para o relógio como se ela estivesse desperdiçando preciosos minutos da vida dele.Perfeito.
Exatamente o tipo de noite que ela precisava.
— Acho que o sistema travou — mentiu rápido, pegando os remédios da bancada antes que a atendente pudesse recolhê-los. — Vou tentar outra forma.
A mulher concordou educadamente.
Olívia desbloqueou o celular tentando ignorar as notificações acumuladas na tela.
Três cobranças.
Dois e-mails atrasados. Uma mensagem da proprietária do apartamento.“Precisamos conversar sobre o aluguel.”
Seu estômago afundou imediatamente.
Não agora.
Definitivamente não agora.
Ela terminou o pagamento alguns segundos depois e saiu da farmácia sentindo a garoa fria atingir seu rosto imediatamente.
Londres parecia ainda mais melancólica à noite.
Os ônibus vermelhos cruzavam as ruas molhadas enquanto luzes douradas refletiam no asfalto encharcado pela chuva fina.
Pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas usando casacos escuros, completamente mergulhadas na própria rotina.
Olívia puxou o casaco contra o corpo enquanto começava a caminhar.
O vento gelado atravessava o tecido fino da roupa. Ela ainda não tinha se acostumado completamente com aquilo. Fazia quase três anos desde que saiu do Brasil.
Três anos desde que chegou em Londres acreditando que finalmente teria uma vida melhor.
E agora estava ali:
com o cartão recusado, aluguel atrasado e completamente perdida sobre o que fazer da própria vida.O salto baixo machucava seus pés depois de doze horas trabalhando.
Doze.
Ela soltou uma risada fraca sozinha. Doze horas de trabalho para continuar contando moedas no fim do mês.
Incrível.
Seu corpo inteiro parecia pesado.
Os ombros tensionados.
A cabeça doendo. Os pés queimando a cada passo.O pior era saber que no dia seguinte tudo começaria outra vez.
Acordar cedo.
Enfrentar o metrô lotado. Sorrir para clientes arrogantes. Resolver problemas que nem eram dela.E ainda fingir que estava tudo bem.
O celular vibrou novamente.
Dessa vez, era Camila.
Olívia atendeu enquanto esperava o sinal fechar para atravessar a rua.
— Me diz que você já tá indo pra casa — a amiga falou imediatamente.
Só ouvir português depois de um dia inteiro falando inglês parecia aliviar um pouco o cansaço dela.
— Quase.
— Você tá com uma voz horrível.
Olívia soltou um suspiro cansado.
— Meu cartão foi recusado na farmácia.
Houve silêncio do outro lado.
— Lívia…
— E antes que você ofereça dinheiro, eu vou desligar.
Camila bufou irritada.
— Você é a pessoa mais teimosa que eu conheço.
— Obrigada.
— Isso não foi um elogio.
Olívia finalmente atravessou a rua desviando de algumas pessoas apressadas. As luzes da cidade refletiam nas vitrines luxuosas das lojas fechadas.
Londres era bonita.
Bonita de um jeito elegante e distante.
Às vezes parecia cenário de filme.
Outras vezes parecia o lugar mais solitário do mundo.
— Eu só preciso organizar as coisas — murmurou.
— Você vive falando isso.
Porque era verdade.
Ela repetia aquilo para si mesma quase todos os dias.
Só mais um mês.
Só mais um pagamento. Só mais uma conta atrasada.Mas os problemas nunca diminuíam.
Parecia que quanto mais ela tentava manter a vida em pé, mais tudo desmoronava.
Talvez o problema tivesse começado muito antes das dívidas.
Talvez tivesse começado quando passou anos tentando salvar alguém que nunca faria o mesmo por ela.
Gustavo.
Só pensar no nome dele trouxe uma sensação amarga ao peito.
Foi por causa dele que ela veio para Londres. Os dois tinham planos. Sonhos.
Promessas idiotas sobre recomeçar juntos longe do Brasil.Olívia acreditou em tudo.
Ajudou Gustavo quando ele ficou desempregado.
Trabalhou dobrado quando ele quis abrir um negócio. Assumiu contas sozinha inúmeras vezes acreditando que as coisas melhorariam.E melhoraram.
Mas apenas para ele.
No final, Gustavo cresceu profissionalmente, conheceu pessoas novas e simplesmente decidiu que não queria mais aquela vida ao lado dela.
Olívia ficou apenas com dívidas, noites mal dormidas e a sensação humilhante de nunca ter sido suficiente para alguém permanecer.
— Você ainda tá aí? — Camila perguntou.
Olívia piscou algumas vezes, afastando as lembranças.
— Tô.
— Você devia sair amanhã.
— Camila…
— Vai ter um evento enorme no hotel Lancaster. Minha prima conseguiu convites pela empresa.
Olívia quase riu.
— Evento empresarial parece meu pior pesadelo no momento.
— Mas tem comida cara, música boa e homens ricos emocionalmente destruídos. Você adora observar tragédia humana.
Aquilo arrancou um sorriso verdadeiro dela pela primeira vez no dia.
— Idiota.
— Vai ou não?
Olívia hesitou.
A verdade?
Ela não queria pensar em boletos, aluguel atrasado ou contas médicas por uma noite.
Só queria respirar sem sentir o peso do mundo esmagando seus ombros.
— Talvez eu apareça depois do trabalho.
— Isso foi praticamente um sim.
Camila comemorou dramaticamente antes de desligar.
Olívia guardou o celular na bolsa enquanto continuava caminhando.
Seu apartamento ficava em um prédio antigo no East London.
Pequeno.
Apertado. Com infiltrações perto da cozinha e aquecimento ruim no inverno.Mas ainda era o único lugar que parecia seguro ultimamente.
Quando entrou no prédio, cumprimentou rapidamente o homem da recepção antes de subir as escadas até o terceiro andar.
O elevador estava quebrado. De novo.
Cada degrau parecia mais pesado naquela noite. Ela procurava as chaves dentro da bolsa distraidamente quando percebeu algo preso na porta.
Um envelope. Seu coração apertou imediatamente. Não precisava abrir para saber o que era.
Aviso final.
Aluguel atrasado.
Olívia ficou parada por alguns segundos encarando o papel.
O corredor silencioso parecia ainda mais sufocante agora.
Ela arrancou o envelope da porta com força demais.
As mãos tremiam levemente.
Aquilo estava começando a assustar de verdade.
As contas.
A pressão. O medo constante de perder tudo outra vez.Por um instante, Olívia encostou a testa na madeira fria da porta e fechou os olhos.
Ela odiava aquela sensação.
A de estar sempre correndo atrás da própria vida enquanto o mundo parecia seguir normalmente sem esperar por ela.
Respirou fundo antes de finalmente entrar no apartamento.
O silêncio foi imediato.
Pequeno.
Escuro. Quieto demais.Olívia deixou a bolsa sobre o sofá e caminhou lentamente até a cozinha.
A pia ainda tinha louça do café da manhã.
Algumas contas estavam espalhadas sobre a bancada. E a luz fraca deixava o apartamento ainda mais melancólico.Ela abriu a geladeira.
Quase vazia.
Ótimo.
Passou a mão cansada pelo rosto e se apoiou na bancada por alguns segundos. Talvez estivesse realmente chegando no limite. O pior não era a falta de dinheiro. Era o cansaço emocional.
O tipo de cansaço que fazia até levantar da cama parecer difícil às vezes.Olívia respirou fundo outra vez e pegou uma das contas sobre a bancada.
Vencida.
Mais uma.
Ela sentiu vontade de chorar.
Mas não chorou.
Porque nos últimos meses tinha aprendido que a vida não parava para pessoas cansadas.
E talvez fosse exatamente isso que mais doía.
A sensação constante de precisar continuar mesmo quando já não tinha forças.
Sem imaginar que, naquele mesmo instante, em outra parte de Londres…
o homem que estava prestes a virar sua vida completamente de cabeça para baixo acabava de aceitar procurar uma esposa por contrato.







