Mundo de ficçãoIniciar sessão
— Refaça.
A única palavra foi suficiente para transformar o silêncio da sala em algo quase sufocante.
Ninguém ousou responder imediatamente.
Os olhos de Roman Villar permaneceram fixos nos documentos espalhados sobre a mesa de vidro enquanto o diretor financeiro tentava disfarçar o nervosismo do outro lado da sala.
Já passava das oito da noite, mas a cobertura da Villar Group continuava iluminada como se o expediente estivesse apenas começando. O prédio inteiro parecia funcionar no ritmo de Roman: frio, exigente e incapaz de desacelerar.
Ele fechou a pasta lentamente.
— Senhor Villar… os números já foram revisados três vezes — o homem tentou explicar.
Roman finalmente ergueu os olhos.
E aquilo bastou.
O diretor engoliu seco imediatamente.
Roman tinha aquele efeito nas pessoas. Não precisava elevar o tom de voz, bater na mesa ou demonstrar irritação exagerada. O simples jeito como olhava alguém era suficiente para deixar o ambiente inteiro desconfortável.
— Então revise uma quarta — respondeu calmamente. — Porque eu não vou apresentar esse lixo numa reunião com investidores.
O silêncio voltou a dominar a sala.
Ao redor da mesa, executivos evitavam contato visual direto com ele. Alguns fingiam revisar documentos, outros apenas mantinham a postura rígida enquanto aguardavam o fim da reunião.
Roman se levantou devagar.
O terno escuro perfeitamente alinhado, os movimentos controlados e a expressão fria faziam parecer impossível imaginar aquele homem perdendo o controle em qualquer situação.
Mas quem trabalhava próximo dele sabia.
O problema de Roman Villar nunca foi perder o controle.
Era precisar dele para absolutamente tudo.
— Se vocês querem mediocridade, estão na empresa errada — declarou antes de caminhar em direção à porta.
Ninguém tentou impedir sua saída.
Quando ele deixou a sala de reuniões, Clara praticamente correu atrás dele pelos corredores silenciosos da empresa.
— Senhor Villar…
Roman afrouxou discretamente a gravata enquanto continuava andando.
— O que foi agora?
Clara hesitou por um segundo curto.
Péssimo sinal.
Ela trabalhava com Roman havia quatro anos e sabia exatamente quando algo tinha potencial para irritá-lo.
— Sua assessoria está esperando na cobertura.
— Remarca.
— Acho que o senhor vai querer ver isso agora.
Roman parou.
Clara estendeu o tablet cuidadosamente.
E pela primeira vez naquela noite, algo em sua expressão mudou.
Não surpresa.
Irritação.
Na tela, sua fotografia ocupava a capa de um dos maiores portais financeiros de Londres.
“O CEO FRIO E CALCULISTA QUE ESTÁ DESTRUINDO A PRÓPRIA REPUTAÇÃO.”
Abaixo do título, várias imagens dele em eventos, reuniões e manchetes antigas apareciam em sequência.
“Roman Villar acumula relacionamentos fracassados.”
“Investidores questionam estabilidade emocional do CEO da Villar Group.”
“As ações da empresa sofrem nova queda após polêmicas envolvendo o empresário.”
O maxilar dele travou discretamente.
— Quem autorizou essa matéria?
— O artigo viralizou há menos de uma hora — Clara respondeu com cautela. — Já está em todos os portais.
Roman continuou observando a tela em silêncio.
Frio por fora.
Mas Clara conhecia os sinais.
Os dedos apertando o tablet com força excessiva.
O olhar imóvel demais. O silêncio perigosamente controlado.— Reúna a assessoria — ele devolveu o aparelho. — Agora.
Vinte minutos depois, a maior sala de conferências da cobertura estava ocupada.
Advogados.
Equipe de marketing. Assessoria de imagem. Investidores.Todos tensos.
Roman permaneceu de pé diante das enormes janelas de vidro enquanto observava Londres coberta pela chuva fina daquela noite.
Canary Wharf brilhava ao longe entre prédios iluminados e ruas molhadas. A cidade inteira parecia elegante, fria e distante.
Exatamente como ele.
— As ações caíram quase quatro por cento desde a publicação da matéria — informou um dos assessores. — E os comentários continuam aumentando.
Roman permaneceu imóvel.
— Então controlem isso.
— Não é tão simples dessa vez.
Ele virou lentamente.
O homem respirou fundo antes de continuar.
— Sua imagem começou a afetar diretamente a empresa.
Roman soltou uma risada baixa, sem humor algum.
— Minha imagem construiu essa empresa.
— E agora pode prejudicar o contrato com os japoneses.
Aquilo fez o ambiente inteiro ficar ainda mais silencioso.
Porque todos sabiam da importância daquele acordo.
A parceria com o grupo Takahashi definiria a expansão internacional definitiva da Villar Group na Ásia. Meses de negociação. Bilhões envolvidos.
Roman sustentou o olhar do advogado por alguns segundos.
— Eles estão questionando minha competência?
— Não — respondeu uma mulher da equipe de marketing. — Estão questionando estabilidade.
O silêncio voltou a pesar.
Roman desviou o olhar para a cidade outra vez enquanto a chuva escorria lentamente pelos vidros enormes da cobertura.
— O mercado está começando a enxergar você como alguém emocionalmente instável — ela continuou. — Frio demais. Inacessível demais. Impulsivo demais.
— Desde quando investidores se importam com sentimentos?
— Desde que sua vida pessoal começou a virar manchete semanal.
Aquilo o irritou mais do que deveria.
Roman passou anos construindo a própria reputação em cima de controle absoluto. Nunca precisou que gostassem dele. Precisavam apenas respeitá-lo.
E respeitavam.
Mas agora parecia que o mercado inteiro havia decidido analisar sua vida emocional como se aquilo fosse mais importante do que os bilhões que movimentava todos os meses.
Ridículo.
Foi então que um dos assessores respirou fundo antes de falar:
— Existe uma forma de controlar isso.
Roman fechou os olhos rapidamente.
Já irritado.
— Fala logo.
O homem trocou olhares rápidos com o restante da equipe antes de responder:
— Um casamento ajudaria.
A sala inteira ficou em silêncio absoluto.
Roman virou devagar.
O olhar dele foi suficiente para fazer dois executivos abaixarem os olhos imediatamente.
— Repete.
— Um relacionamento estável mudaria sua imagem pública — explicou a mulher do marketing. — O mercado responde bem à ideia de estabilidade. Família. Controle emocional.
Roman riu baixo.
Frio.
— Vocês enlouqueceram.
— Não precisa ser um casamento real — outro homem explicou rapidamente. — Apenas um acordo estratégico. Aparições públicas. Eventos. Uma imagem sólida.
Roman passou a mão lentamente pela mandíbula.
Aquilo parecia absurdo até para ele.
— Eu prefiro perder dinheiro.
— Você não perderia apenas dinheiro.
Agora o tom havia mudado.
Mais sério.
Mais perigoso.
— Se esse contrato cair, os acionistas vão começar a questionar oficialmente sua permanência na presidência da empresa.
E ali…
pela primeira vez naquela noite…
Roman permaneceu em silêncio de verdade.
Porque podia aceitar muitas coisas.
Menos perder controle da própria empresa.
Os olhos dele voltaram lentamente para os rostos espalhados pela sala.
Calculando.
Frio. Perigosamente racional.— Então encontrem alguém — disse por fim. — Alguém discreta. Inteligente. Que saiba ficar calada.
A tensão diminuiu imediatamente na sala.
Mas Roman continuou:
— E deixem uma coisa clara.
A voz saiu baixa.
Cortante.— Isso será apenas um contrato.
Roman sustentou o olhar de todos por mais alguns segundos antes de voltar a observar Londres iluminada do outro lado da janela.
Um casamento.
A ideia parecia absurda.
Ridícula.
Roman Villar passou anos construindo uma vida baseada em controle, poder e distância emocional. Nunca precisou de ninguém ao lado dele para conquistar tudo o que tinha.
E agora estavam sugerindo que colocasse uma mulher dentro da própria vida como parte de uma estratégia empresarial.
Aquilo o irritava profundamente.
Porque pela primeira vez em muitos anos, Roman começava a sentir que talvez estivesse perdendo o controle das coisas ao seu redor.
E Roman Villar odiava perder controle.







