Capítulo 03

Capítulo 3 — A Escolha Impossível

— Não.

A resposta saiu seca, acompanhada apenas pelo som discreto da caneta de Roman deslizando sobre os documentos espalhados pela mesa de vidro.

Do outro lado do escritório, Henrique soltou um suspiro cansado, claramente perdendo a paciência. Já fazia quase quarenta minutos que tentava convencer Roman a ao menos considerar as opções separadas pela assessoria, mas aquilo parecia tão impossível quanto convencer o inverno londrino a ter sol.

Roman continuou assinando contratos sem sequer erguer os olhos.

O escritório da cobertura da Villar Group permanecia impecavelmente organizado, silencioso e frio, exatamente como ele gostava. As enormes janelas de vidro revelavam parte de Londres coberta pela garoa típica do fim da manhã. Lá embaixo, a cidade seguia elegante e movimentada enquanto, dentro daquela sala, o ambiente parecia cada vez mais sufocante.

— Você ao menos olhou os perfis? — Henrique insistiu.

Roman fechou a última pasta lentamente antes de finalmente erguer os olhos.

— Eu não vou escolher uma esposa como quem escolhe funcionários.

Henrique cruzou os braços.

— Tecnicamente, você costuma ser menos exigente com funcionários.

Roman sustentou o olhar dele em silêncio.

Frio.

Controlado.

Perigosamente paciente.

Qualquer outra pessoa teria recuado naquele instante. Henrique, no entanto, trabalhava com Roman havia mais de dez anos. Advogado da empresa, braço direito e provavelmente a única pessoa naquele prédio inteiro que ainda tinha coragem de enfrentá-lo sem tremer.

— Sua reputação continua piorando — disse ele, agora mais sério. — As ações caíram outra vez essa manhã.

Roman desviou o olhar lentamente para a janela.

Aquilo o irritava profundamente.

Passou anos construindo a Villar Group praticamente sozinho. Transformou uma empresa pequena em um império bilionário antes dos trinta e cinco anos. Sempre acreditou que resultados eram suficientes para manter respeito e poder.

Mas agora o mercado parecia mais interessado em sua vida pessoal do que nos bilhões que movimentava todos os meses.

Ridículo.

— O contrato com os japoneses está próximo — Henrique continuou. — E eles continuam preocupados com sua imagem.

Roman soltou uma risada baixa, sem humor algum.

— Minha imagem nunca foi um problema antes.

— Antes você não estampava manchetes semanais dizendo que é emocionalmente incapaz de manter relações humanas básicas.

O maxilar dele travou discretamente.

Henrique percebeu.

E mesmo assim continuou.

— Você precisa controlar isso antes que os acionistas comecem a pressionar oficialmente sua permanência na presidência.

Aquilo fez o silêncio pesar no escritório.

Roman permaneceu imóvel por alguns segundos, observando a chuva fina escorrer pelos vidros enormes da cobertura.

Perder o controle da própria empresa não era uma opção.

Nunca seria.

Por isso aquela situação inteira o irritava tanto.

Porque pela primeira vez em muitos anos ele sentia que as coisas começavam a escapar de suas mãos.

Henrique então deslizou algumas pastas sobre a mesa.

— A assessoria separou alguns perfis compatíveis.

Roman sequer olhou.

— Mulheres discretas, elegantes, sem histórico problemático. Algumas já trabalham no meio empresarial, outras têm boa imagem pública. Precisamos de alguém que convença o mercado de que você é estável.

Roman voltou lentamente para a mesa.

— Eu não preciso convencer ninguém de nada.

— Precisa sim. Porque no momento metade de Londres acredita que você é incapaz de criar qualquer vínculo emocional sem destruir alguém no processo.

Os olhos dele se estreitaram perigosamente.

— Você gosta de testar minha paciência.

Henrique apenas deu de ombros.

— Faz parte do meu trabalho.

Roman abriu uma das pastas sem interesse real. Fotos impecáveis. Mulheres perfeitamente produzidas. Sorrisos artificiais. Currículos impressionantes demais para parecerem humanos.

Parecia uma seleção corporativa disfarçada de relacionamento.

Patético.

Ele fechou a pasta imediatamente.

— Não.

— Roman—

— Todas parecem desesperadas demais para estar perto do meu dinheiro.

Henrique respirou fundo, claramente cansado daquela discussão.

— Então o que exatamente você quer?

Roman caminhou até o pequeno bar sofisticado no canto do escritório e serviu whisky no copo com movimentos calmos. O líquido âmbar refletiu a luz cinzenta da manhã enquanto ele observava Londres silenciosamente.

Nem ele sabia responder aquilo.

Talvez porque o problema nunca tivesse sido encontrar uma mulher bonita ou adequada socialmente. Roman conhecia dezenas delas.

O problema era outro.

Ele não confiava em ninguém.

As pessoas sempre queriam alguma coisa dele.

Dinheiro.

Status.

Influência.

E aquilo se tornava cansativo com o tempo.

— Você está tratando isso como um negócio comum — Henrique comentou. — Mas um casamento falso precisa parecer real.

Roman tomou um gole da bebida.

— Continua sendo um negócio.

Henrique observou ele por alguns segundos antes de dizer:

— Talvez esse seja exatamente o problema.

Roman não respondeu.

Porque no fundo sabia que Henrique tinha razão.

Mas sentimentos nunca foram prioridade na vida dele. Não existia espaço para isso enquanto construía um império inteiro praticamente sozinho.

Seu celular vibrou sobre a mesa naquele instante.

Uma mensagem da assessoria informando sobre o evento empresarial que aconteceria naquela noite no hotel Lancaster.

Roman fechou os olhos rapidamente.

Mais um evento.

Mais investidores.

Mais gente fingindo simpatia enquanto tentava tirar alguma vantagem dele.

Cansativo.

— Você vai precisar aparecer hoje à noite — Henrique comentou ao perceber a notificação. — Os japoneses estarão lá.

Roman apenas assentiu em silêncio.


O hotel Lancaster estava absurdamente cheio naquela noite.

Luzes douradas iluminavam o salão elegante enquanto empresários, investidores e socialites circulavam pelo ambiente segurando taças de champagne e conversando sobre negócios milionários como se aquilo fosse absolutamente normal.

Roman odiava aquele tipo de evento.

Odiava os sorrisos falsos.

As conversas vazias.

As pessoas tentando impressioná-lo o tempo inteiro.

Ele caminhava pelo salão acompanhado de Henrique enquanto cumprimentava investidores importantes com educação impecável e emocionalmente vazia.

Tudo parecia automático.

Treinado.

Calculado.

Frio.

Foi então que aconteceu.

Nada grandioso.

Nenhuma cena cinematográfica.

Na verdade, Roman quase não percebeu no primeiro instante.

Ele apenas estava atravessando parte do salão quando viu uma mulher discutindo calmamente com um dos funcionários próximos à recepção secundária do evento. O homem parecia nervoso enquanto tentava explicar algum erro na organização, mas ela mantinha a postura tranquila apesar da pressão evidente.

Cabelos ruivos presos de maneira simples.

Vestido preto discreto.

Expressão cansada.

Ela parecia completamente deslocada daquele ambiente sofisticado.

E ainda assim… estranhamente real no meio de tanta artificialidade.

Roman diminuiu levemente o passo sem perceber.

— O problema é que trocaram os nomes das mesas dos investidores japoneses — ela explicava calmamente ao funcionário. — Se reorganizarmos antes deles entrarem no salão principal, ninguém vai perceber o erro.

Sem drama.

Sem arrogância.

Sem tentativa de jogar culpa nos outros.

Apenas resolvendo o problema.

Henrique percebeu imediatamente a leve mudança na atenção de Roman.

Porque aquilo raramente acontecia.

Roman normalmente ignorava pessoas.

Mas naquele instante, permaneceu observando a mulher por alguns segundos a mais do que deveria.

Então ela ergueu os olhos.

O olhar dos dois se encontrou rapidamente.

E diferente da maioria das pessoas, ela não pareceu impressionada.

Na verdade, parecia apenas cansada demais para se importar com quem ele era.

Aquilo causou uma sensação estranha nele.

Curiosidade.

Mas durou pouco.

Um dos investidores japoneses surgiu ao lado deles no instante seguinte, obrigando Roman a voltar imediatamente para a conversa.

E quando olhou outra vez na direção da mulher…

ela já havia desaparecido no meio do salão.


Na manhã seguinte, Henrique entrou no escritório carregando uma pasta fina nas mãos.

Roman continuava revisando documentos atrás da mesa quando ele parou à frente dele.

— Acho que encontrei alguém.

Roman sequer ergueu os olhos.

— Não estou interessado.

Henrique ignorou completamente.

— A ruiva do evento de ontem.

Aquilo fez Roman levantar o olhar lentamente pela primeira vez.

Henrique quase sorriu ao perceber.

— Então você reparou nela.

Roman fechou a pasta que analisava com calma irritante.

— Eu reparei numa funcionária resolvendo um problema.

— Claro.

Henrique colocou a pasta sobre a mesa.

— Mesmo assim, fui atrás dela.

Roman observou a pasta por alguns segundos sem tocar.

— Você perdeu seu limite profissional faz tempo.

— E você ficou olhando pra ela tempo suficiente pra eu perceber.

Silêncio.

Roman odiava quando Henrique acertava alguma coisa sobre ele.

Principalmente porque isso acontecia raramente.

Henrique então abriu a pasta devagar.

— Olívia Becker. Vinte e seis anos. Brasileira. Trabalha numa empresa de eventos corporativos em Londres.

Roman desviou os olhos lentamente para a fotografia anexada ao relatório.

Era ela.

Os mesmos cabelos ruivos.

Os mesmos olhos castanhos cansados.

A mesma expressão séria.

Ela parecia exatamente igual ao que lembrava.

Discreta.

Reservada.

Real demais para aquele mundo.

— Não parece o tipo de mulher que aceitaria esse acordo — comentou friamente.

Henrique apoiou as mãos sobre a mesa.

— Talvez seja exatamente por isso que funcione.

Roman permaneceu em silêncio enquanto observava novamente a fotografia.

Aquilo era ridículo.

Era apenas uma mulher.

Mesmo assim, alguma coisa naquela expressão cansada parecia estranhamente difícil de ignorar.

E Roman Villar começava a suspeitar que aquilo poderia acabar se tornando um problema.

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