O documento estava ali havia horas.
Camila o encarava como se fosse um corpo estranho sobre a mesa da sala — uma presença que não se mexia, mas respirava. As folhas amareladas pelo tempo carregavam mais do que palavras jurídicas. Carregavam decisões que nunca foram dela.
Ricardo foi quem o trouxe.
— Eu devia ter te mostrado isso antes — disse, com a voz baixa. — Muito antes.
Camila levantou os olhos devagar. — O que é isso, Ricardo?
Ele respirou fundo, como quem se prepara para atravessar algo sem saber se haverá volta.
— O contrato original.
O silêncio se instalou entre eles, pesado.
Camila tocou o papel com cuidado, como se pudesse se queimar.
— Original? — repetiu. — Você disse que aquele contrato era simples. Que eu sabia de tudo.
Ricardo fechou os olhos por um instante. — Eu achei que sabia.
Ela começou a ler.
As primeiras páginas eram frias, técnicas, impessoais. Termos médicos, obrigações financeiras, cláusulas de confidencialidade. Camila reconheceu partes — lembrava-se de ter