Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 3: O Toque que Não Deveria Acontecer
Laura Eu ainda sentia o calor da mãozinha de Enzo na minha quando Rafael estendeu a dele para mim. Não era um gesto comum. Era como se ele estivesse testando algo ou me desafiando a aceitar. Aceitei. Os dedos dele envolveram os meus com firmeza, mas não apertaram. Só seguraram. O choque elétrico de novo, dessa vez mais lento, subindo pelo braço até o peito. Eu puxei a mão de volta rápido demais, fingindo que era para ajudar Enzo a se levantar. — Vamos, pequeno. Banho e jantar, como o papai disse. Enzo não resistiu. Ele se levantou, ainda segurando meu dedo mindinho com o dele, como se eu fosse a âncora que o mantinha no chão. Rafael observou cada movimento. Seus olhos não piscavam. — Elena vai preparar o jantar — ele disse, voz neutra. — Você pode jantar com ele hoje. Para... facilitar a transição. Era uma ordem disfarçada de sugestão. Eu assenti. O quarto de Enzo era um sonho de criança rica: cama em formato de nave espacial, paredes com estrelas que brilhavam no escuro, um armário maior que o meu antigo quarto inteiro. Mas o menino se movia por ali como se fosse um estranho na própria casa. Ele deixou que eu o ajudasse a tirar a roupa, mas quando cheguei na banheira, ele parou. — Eu mesmo faço — murmurou. — Tudo bem. Eu fico aqui fora, na porta, se precisar de mim. Ele entrou na água quente sem mais palavras. Eu me sentei no chão, encostada na parede, ouvindo a água espirrar devagar. De vez em quando, ele olhava para mim pela porta entreaberta, como se quisesse confirmar que eu ainda estava ali. Quando saiu enrolado na toalha enorme, os cabelos molhados pingando, ele veio direto para mim. Estendeu os braços. — Me veste? Meu coração derreteu. Eu o levantei com cuidado, ele era leve demais para seis anos, e o vesti com pijama de dinossauros. Enquanto passava a escova nos cachos pretos, ele falou de novo, quase um segredo: — Minha mãe nunca fez isso. Ela morreu quando eu nasci. Eu congelei por um segundo. A escova parou no ar. As fotos no corredor... a mulher grávida, sorridente. E depois, só Rafael com o bebê. Fazia sentido agora, mas ouvir da boca dele era como um soco. — Ah, Enzo... Eu sinto muito. Deve ser tão difícil não ter lembranças dela. Ele deu de ombros, mas os olhos ficaram úmidos. — Todo mundo vai embora. As babás. Minha mamãe. Até o papai vai embora todo dia. Eu me abaixei até ficar na altura dele. — Eu não vou embora, lembra? Prometi. Ele me olhou por um longo tempo. Depois, encostou a testa na minha, bem devagar. Foi o abraço mais silencioso e mais pesado que já recebi. Quando saímos do quarto, Rafael estava no corredor. Braços cruzados, encostado na parede, como se tivesse ouvido tudo. — Ele nunca deixa ninguém tocar no cabelo dele — disse ele, baixo. Não era acusação. Era... surpresa. — Ele só precisava de alguém que ficasse parada tempo suficiente para ele confiar — respondi, tentando soar casual. Rafael não respondeu. Só observou enquanto eu levava Enzo para a mesa, na sala de jantar privativa uma mesa longa o suficiente para dez pessoas, mas posta só para três. Enzo sentou ao meu lado. Rafael, na cabeceira. O silêncio era ensurdecedor. A Senhora Elena trouxe a comida: salmão grelhado, legumes no vapor, arroz integral. Tudo perfeito, sem cor, sem graça. Enzo cutucava o prato. — Não gosta? — perguntei baixinho. Ele balançou a cabeça. Rafael ergueu uma sobrancelha. — Ele come o que tem na frente. Eu olhei para Enzo. Depois para Rafael. — Posso tentar uma coisa? Sem esperar resposta, levantei e fui até a cozinha. A Senhora Elena me olhou surpresa, mas deixou. Peguei queijo ralado, um pouco de ketchup e um punhado de ervilhas que vi na geladeira. Voltei e misturei tudo no prato de Enzo, fazendo uma carinha sorridente com o arroz. — Olha só. Um monstrinho feliz. Quem come ele primeiro? Enzo piscou. Depois, deu uma risadinha baixa, quase inaudível. Mas foi o suficiente para fazer Rafael congelar com o garfo no ar. Ele comeu. Todo o prato. Sem reclamar. Quando terminamos, Enzo bocejou. Eu o levei para o quarto, li uma história curta que inventei na hora (sobre um carrinho que voava até as estrelas), e ele adormeceu com a mão na minha. Saí do quarto na ponta dos pés. Rafael estava na sala principal, olhando pela janela para as luzes da cidade. Uma taça de uísque na mão. — Você é boa com ele — disse ele, sem se virar. — Ele só precisa de atenção de verdade. Não de coisas. Rafael virou devagar. Os olhos dele pareciam mais escuros sob a luz baixa. — Eu dou tudo que ele precisa. — Nem tudo — respondi, antes que pudesse me conter. O ar entre nós ficou elétrico. Ele deu um passo à frente. Depois outro. Parou perto demais. Perto o suficiente para eu sentir o cheiro dele: madeira, couro, algo amargo e masculino. — Cuidado com o que diz, Laura. Meu nome na boca dele soou como uma ameaça. E como uma promessa. — Eu só quero ajudar o Enzo, senhor Monteiro. — E se eu quiser mais do que isso? As palavras pairaram no ar. Meu coração parou. Ele se aproximou ainda mais. A mão dele subiu devagar, como se fosse tocar meu rosto. Eu prendi a respiração. Mas então ele parou. A mão caiu. — Boa noite, senhorita Mendes. Ele se virou e saiu da sala. Eu fiquei ali, sozinha, o corpo tremendo. E uma pergunta queimando na minha mente: O que diabos eu acabei de começar?






