Capítulo 2: O Menino que Não Sorria

Capítulo 2: O Menino que Não Sorria

Laura

Acordei antes do sol nascer, o estômago embrulhado de ansiedade. O pequeno apartamento que dividia com minha mãe no Queens parecia ainda menor naquela manhã. Eu me arrumei rápido: calça jeans escura, blusa branca simples, cabelo preso num rabo de cavalo baixo. Nada chamativo. Nada que gritasse “estou desesperada por esse emprego”. Mas por dentro eu estava.

Peguei o metrô até o Upper East Side, uma viagem de quase uma hora que me deixou com os nervos à flor da pele. Quando saí na rua, o ar frio de fevereiro me acertou como um tapa. Prédios altíssimos, porteiros uniformizados, carros pretos brilhantes parados na calçada. Eu não pertencia àquele mundo. Mas precisava entrar nele.

O endereço era um prédio residencial de luxo, daqueles que têm nome próprio em vez de número. “The Carlisle”. O porteiro me olhou de cima a baixo antes de liberar a entrada.

— Senhorita Mendes? O senhor Monteiro avisou. Penthouse 47. Elevador privativo à direita.

Subi sozinha. O elevador era espelhado, e eu evitei olhar meu reflexo. Não queria ver o medo nos meus olhos.

Quando as portas se abriram, entrei direto numa sala enorme. Paredes brancas, móveis minimalistas, janelas do chão ao teto com vista para o Central Park coberto de neve fina. Tudo impecável. Tudo frio.

Uma mulher de uns cinquenta anos, uniforme discreto, veio ao meu encontro.

— Sou a Elena, governanta. O senhor Monteiro já saiu para o escritório. Enzo está na sala de brinquedos. Venha.

Ela me guiou por um corredor largo. Passamos por fotos emolduradas: um Rafael mais jovem, sorridente, ao lado de uma mulher linda de cabelos castanhos. Grávida. Depois, só ele e um bebê recém-nascido. Nenhuma foto depois disso. Meu peito apertou sem eu saber por quê.

A sala de brinquedos era maior que meu apartamento inteiro. Brinquedos caros empilhados em prateleiras: carrinhos de controle remoto, Lego gigantes, um piano de cauda miniatura. No meio da bagunça organizada, um menino pequeno sentado no chão, de costas para mim. Cabelos pretos cacheados, ombros encolhidos. Ele segurava um carrinho, mas não brincava. Só olhava.

— Enzo — chamou a Senhora Elena com voz suave. — A nova babá chegou. Laura.

Ele não se virou. Nem um movimento.

Ela suspirou baixinho e me olhou.

— Ele é assim com todo mundo novo. Não force. Vou deixar vocês sozinhos. Se precisar, é só chamar.

Ela saiu. Fiquei ali, parada na porta, sem saber o que fazer.

Respirei fundo e me aproximei devagar, agachando ao lado dele sem tocar.

— Oi, Enzo. Meu nome é Laura. Posso sentar aqui com você?

Silêncio.

Ele continuou olhando o carrinho. Mas percebi que os dedinhos dele tremiam levemente.

— Sabe… eu também tinha um carrinho favorito quando era pequena. Era vermelho. Eu fingia que ele voava. — Fiz uma pausa. — O seu voa também?

Nada.

Tentei de novo, mais baixo.

— Eu trouxe uma coisa. — Tirei do bolso da calça um pacotinho simples que tinha comprado no caminho: um pacotinho de balas de hortelã. Nada caro. — Minha mãe sempre dava uma quando eu ficava nervosa. Quer experimentar?

Ele virou o rosto devagar. Olhos grandes, cinza como os do pai, mas cheios de uma tristeza que não combinava com uma criança de seis anos. Ele me olhou por uns segundos longos. Depois, estendeu a mãozinha aberta.

Coloquei uma bala na palma dele. Ele não sorriu. Mas guardou a bala no bolso da calça, como se fosse um tesouro.

— Obrigado — murmurou, voz tão baixa que quase não ouvi.

Meu coração deu um salto. Foi a primeira palavra que ele disse.

— De nada — respondi, sorrindo devagar. — Posso ficar aqui com você um pouquinho? Sem forçar nada. Só… companhia.

Ele não respondeu com palavras. Mas se arrastou um pouquinho para o lado, abrindo espaço no tapete.

Sentei ao lado dele. Ficamos em silêncio por um tempo. Ele voltou a olhar o carrinho. Eu olhei para ele.

E então, sem aviso, ele falou de novo, ainda mais baixo:

— Você vai embora também?

A pergunta me acertou como um soco. Cinco babás. Cinco abandonos.

Olhei direto nos olhos dele.

— Não, Enzo. Eu não vou embora.

Ele me encarou por mais tempo dessa vez. Como se estivesse testando se eu estava mentindo.

Então, ele pegou outro carrinho do chão e empurrou na minha direção.

— Esse aqui voa mais alto — disse, quase um sussurro.

Eu peguei o carrinho. Fiz barulho de motor, depois de avião. Ele não riu. Mas os ombros relaxaram um pouquinho. E, pela primeira vez, vi o canto da boca dele subir. Não era um sorriso completo. Mas era um começo.

O dia passou assim: devagar, silencioso, mas juntos.

Quando o sol começou a se pôr, ouvi passos no corredor. Rafael Monteiro entrou na sala.

Ele parou na porta, nos olhando. Eu estava sentada no chão, Enzo encostado no meu braço, segurando o carrinho que “voava”.

Rafael não disse nada no começo. Só observou. Seus olhos foram de mim para o filho, e de volta para mim. Algo mudou na expressão dele, uma sombra que eu não conseguia decifrar.

— Ele falou com você — disse ele, por fim. Não era pergunta. Era constatação.

— Um pouco — respondi, tentando não soar orgulhosa demais.

Rafael se aproximou. Agachou ao lado do filho.

— Enzo. Hora do banho e jantar.

Enzo se encolheu um pouco. Mas não se afastou de mim.

Rafael estendeu a mão para ele. Enzo hesitou… e pegou minha mão em vez da do pai.

O ar ficou pesado de repente.

Rafael olhou para nossas mãos unidas. Depois para mim. Seus olhos cinza escureceram ainda mais.

— Parece que ele já escolheu — murmurou ele, voz baixa, quase perigosa.

Eu senti um frio na espinha. Não era raiva. Era algo mais profundo. Algo que me fez pensar que, talvez, eu tivesse entrado num território que não entendia.

E quando ele se levantou, estendendo a mão para mim dessa vez , não para Enzo, senti o mesmo choque elétrico de ontem.

Mas agora era mais forte.

E mais perigoso.

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