Ordem Superior

Henrique não gostava de ser chamado à sala do pai sem aviso.

Gostava ainda menos quando isso acontecia logo após uma sequência de reuniões bem-sucedidas. Para ele, sucesso deveria encerrar qualquer questionamento.

Feritz estava em pé quando Henrique entrou. Sem pressa. Sem telefone. Sem assessores.

— Senta — disse, direto.

Henrique obedeceu, ainda que o maxilar estivesse tenso.

— Soube do episódio na reunião internacional — continuou Feritz, caminhando lentamente até a janela. — E do contrato que quase passou com uma brecha grave.

Henrique cruzou os braços.

— Já foi resolvido.

— Foi evitado — corrigiu o pai. — Por uma assistente.

O silêncio se instalou.

— Ela extrapolou — respondeu Henrique. — Não respeitou hierarquia.

Feritz virou-se.

— Ela fez exatamente o que espero de alguém que trabalha comigo.

Henrique sustentou o olhar do pai, desconfortável.

— Desde quando assistentes corrigem a presidência?

— Desde quando a presidência erra — respondeu Feritz, sem elevar a voz.

Henrique não respondeu.

— A assistente se chama Aurora — continuou Feritz. — E você vai precisar dela.

— Eu não preciso de uma sombra— rebateu Henrique.

— Não — disse Feritz. — Precisa de alguém que pense.

Fez uma pausa breve.

— A partir de hoje, Aurora será sua assistente direta.

Henrique arregalou levemente os olhos.

— Como é?

— Ela vai acompanhá-lo em todas as reuniões estratégicas — completou Feritz. — Internas e externas.

— Isso é um absurdo.

— É uma ordem.

Henrique levantou-se.

— Você está minando minha autoridade.

Feritz permaneceu impassível.

— Estou protegendo a empresa.

O silêncio pesou.

— E mais uma coisa — acrescentou Feritz. — Quero relatórios conjuntos. Tudo o que passar por você, passa por ela.

Henrique apertou a mandíbula.

— Você confia mais nela do que em mim?

Feritz o encarou com firmeza.

— Confio em resultados.

Henrique saiu da sala sem responder.

Aurora recebeu a notícia de Júlia minutos depois.

— Você tem um instante? — perguntou ela, já se levantando.

Entraram na mesma sala reservada das conversas difíceis.

— Meu pai decidiu algo — disse Júlia, com expressão séria. — E não costuma voltar atrás.

Aurora sentiu o estômago apertar.

— O que foi?

— Você será assistente direta do Henrique.

O coração de Aurora acelerou.

— Isso não é uma boa ideia.

— Não — concordou Júlia. — Mas é uma decisão estratégica.

— Eu não estava preparada para isso.

— Eu sei — respondeu Júlia. — Mas depois do que aconteceu na reunião, ele achou que seria conveniente.

Aurora respirou fundo.

— Vou acompanhá-lo em quê, exatamente?

— Tudo — disse Júlia. — Reuniões, análises, decisões importantes.

— Ele vai odiar.

Júlia esboçou um leve sorriso.

— Ele já odeia.

Aurora assentiu. Não havia escolha.

— Quando começa?

— Agora.

Henrique entrou na sala de reuniões minutos depois. Aurora já estava sentada, com um bloco de anotações à frente. Postura impecável. Olhar atento.

Ele parou ao vê-la.

— O que você está fazendo aqui?

Aurora levantou-se.

— Fui designada para acompanhá-lo.

Henrique soltou uma risada incrédula.

— Você só pode estar brincando.

— Não estou.

— Meu pai mandou você?

— Sim.

Henrique passou a mão pelo cabelo, visivelmente irritado.

— Isso é ridículo.

— Não é uma escolha minha — respondeu Aurora. — Mas farei meu trabalho.

Henrique se aproximou lentamente.

— Escuta bem, Aurora Boreal — disse, com deboche contido. — Não confunda essa ordem com confiança.

Aurora sustentou o olhar.

— Não confunda competência com afronta.

O silêncio entre eles foi denso.

A porta da sala se abriu. Diretores começaram a entrar.

Henrique respirou fundo e se virou para a mesa.

— Senta — disse, seco.

Aurora obedeceu.

A reunião começou.

Ela anotava tudo. Observava. Corrigia mentalmente. Não interferia sem necessidade.

Henrique percebeu.

Aquilo não era submissão.

Era estratégia.

E, pela primeira vez desde que assumira aquela posição, sentiu algo que detestava.

Ele não estava mais sozinho no controle.

E Aurora, sentada ao seu lado, sabia.

A aproximação não fora escolha de nenhum dos dois.

Mas agora era inevitável.

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