Mundo ficciónIniciar sesiónAurora estranhou o tom do convite antes mesmo de abrir o e-mail.
Passe na minha sala. Sem assinatura. Sem cordialidade. Com uma urgência fabricada. Ela chegou exatamente no horário. Henrique estava sentado à mesa, celular em mãos, pés levemente afastados — ocupando mais espaço do que precisava. — Fecha a porta — disse, sem levantar os olhos. Aurora obedeceu. — Senta aí… Aurora Boreal. Ela franziu o cenho. — Meu nome é Aurora. Henrique finalmente ergueu o olhar, o divertimento contido demais para ser casual. — Eu sei. — Fez uma pausa breve. — Mas Boreal combina mais. — Combina com o quê, exatamente? — Com esse silêncio organizado — respondeu ele, recostando-se na cadeira. — Com essa necessidade quase teimosa de colocar tudo no lugar certo, mesmo quando ninguém pediu. Aurora manteve o tom neutro. — O senhor me chamou para trabalhar ou para comentar meu comportamento? Henrique sorriu de lado. — Viu só? Sempre correta. Ele deslizou um contrato pela mesa. — Quero que revise isso. Aurora pegou o documento. — Prazo? Henrique olhou o relógio, teatral. — Uma hora. Ela levantou os olhos. — Isso não é razoável. — Eu não costumo ser razoável — respondeu ele. — Costumo ser o chefe. Aurora respirou fundo. — Esse contrato envolve risco internacional. Uma hora não cobre nem uma leitura técnica adequada. Henrique inclinou a cabeça, observando-a como quem mede resistência. — Impressionante como você discorda sem levantar a voz. — Fez uma pausa. — Vai ser interessante te testar. — Isso é um teste? — perguntou ela. — Aqui, tudo é — respondeu ele. — Principalmente você. Aurora assentiu. — Então farei do jeito certo. Henrique a observou por um instante a mais do que o necessário. — Claro que vai — disse. — A Aurora Boreal nunca faz de outro jeito. Quando ela voltou, menos de uma hora depois, Henrique ergueu a sobrancelha. — Já? — Já. — Ou você é um gênio… — começou ele — …ou fez tudo errado. Aurora colocou o contrato sobre a mesa, coberto de marcações. — O contrato é ruim. Henrique soltou uma risada curta. — Direto assim? — O senhor pediu correção, não aprovação. — Gosto disso — disse ele, embora o olhar denunciasse irritação. — Continue. Aurora explicou cada ponto com precisão cirúrgica. Não floreou. Não pediu licença. Henrique ouviu tudo balançando levemente a cadeira, fingindo tédio. Mas não estava. Quando ela terminou, ele permaneceu em silêncio por alguns segundos. — Você sabe que acabou de contrariar metade do jurídico, não sabe? — Sei — respondeu ela. — Mas evitei um problema maior. — Sempre salvando o mundo… — comentou ele. — Bem típico da Aurora Boreal. Ela sustentou o olhar. — O senhor me chamou para trabalhar ou para ironizar? Henrique se levantou devagar. — Para observar. Aproximou-se da mesa. — Sabe qual é o problema de gente como você? — Imagino que vá me dizer. — Vocês acham que competência protege — disse ele. — Aqui, ela só chama atenção. Aurora não hesitou. — Então talvez o problema não seja a competência. Henrique sorriu. Dessa vez, sem qualquer traço de humor. — Você passou. — Ótimo. — Não se empolgue — completou ele. — Agora eu sei exatamente onde você pode atrapalhar. Aurora recolheu os documentos. — Alguma outra tentativa de intimidação ou posso voltar a trabalhar? Henrique inclinou levemente a cabeça. — Vá, Aurora Boreal. Ela parou na porta. — Doutor Henrique? — Hm? — Pode me chamar como quiser. — Fez uma pausa curta. — Desde que leia o que assina. Ela saiu antes que ele respondesse. Henrique ficou parado. O apelido, pensado para reduzi-la, agora tinha outro peso. Porque a Aurora Boreal não recuava. Não pedia licença. Não tinha medo. E isso era perigosamente interessante.






