Aurora percebeu que aquela noite seria longa quando Henrique jogou a pasta sobre a mesa com força desnecessária.
— Vamos terminar isso hoje — disse ele. — Não quero ver esse assunto amanhã.
Ela levantou os olhos do notebook.
— Se tivesse organizado melhor o cronograma, não estaríamos aqui agora.
Henrique riu, curto, sem humor.
— Você sempre fala como se estivesse no controle.
— Não — corrigiu ela. — Eu falo como quem entrega resultado. Controle é vaidade.
O silêncio que se seguiu não foi confortável. Parecia carregar faíscas.
Henrique tirou o paletó e o largou na cadeira, como se o tecido o incomodasse tanto quanto a presença dela. Aurora continuou digitando, focada, ignorando deliberadamente cada movimento dele.
O relógio marcava mais do que horas avançadas. Marcava decisões.
Ela fechou um arquivo, abriu outro, então pegou o celular e se levantou.
— Um minuto.
Henrique arqueou a sobrancelha, impaciente.
— Agora?
— Agora — respondeu ela, já caminhando para fora da sala.
No corredor silencioso, ligou para casa.
— Oi, mãe. Vou chegar mais tarde hoje.
— De novo? — a voz veio carregada de preocupação.
— É trabalho. Está tudo bem.
Ouviu o pai ao fundo, perguntando se ela queria que fossem buscá-la.
— Não precisa. Eu me viro.
Desligou antes que a conversa se alongasse demais. Não queria explicações. Nem consolo.
Quando voltou, Henrique a observou por um segundo a mais do que deveria.
— Você faz isso de propósito — comentou ele.
— Isso o quê?
— Age como se eu não existisse.
— É um mecanismo de sobrevivência — respondeu ela, retomando o lugar. — Funciona bem.
Henrique se inclinou para frente.
— Não se engane, Aurora Boreal. Você só está aqui porque meu pai mandou.
Ela fechou o notebook devagar.
— E o senhor só está nessa cadeira porque nasceu no lugar certo.
O olhar dele escureceu.
— Cuidado.
— Realidade — respondeu ela. — Às vezes pode doer.
Voltaram ao trabalho sem pedir desculpas. Não havia espaço para isso.
O relógio avançava. Os documentos diminuíam. O clima piorava.
Henrique quebrou o silêncio novamente.
— Você é insuportável.
Aurora respirou fundo.
— Concordo — respondeu. — Ficar ao seu lado exige paciência e uma dose preocupante de autocontrole.
Ele soltou uma risada incrédula.
— Pelo menos somos honestos.
— Eu sempre fui — disse ela. — O senhor só é quando convém.
Henrique levantou-se abruptamente e começou a andar pela sala.
— Você tem ideia do quanto me irrita? — perguntou. — Essa postura moral, esse ar de quem está sempre certa.
Aurora levantou-se também.
— E o senhor tem ideia do quanto é difícil trabalhar com alguém que confunde poder com competência?
Ficaram frente a frente. Próximos demais.
O silêncio entre eles não era vazio. Era carregado de algo que nenhum dos dois nomearia.
Henrique foi o primeiro a recuar, irritado consigo mesmo.
— Não pense que isso é pessoal.
— É exatamente isso que é — respondeu Aurora. — Só que o senhor não gosta de admitir quando perde o controle.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Eu não perco controle.
— Perde sim — disse ela. — Sempre que percebe que eu estou certa.
Henrique soltou um riso curto, duro.
— Eu detesto trabalhar com você.
— O sentimento é mútuo — respondeu Aurora. — É exaustivo dividir o mesmo espaço com alguém tão convencido.
E ainda assim, voltaram para a mesa.
Não porque queriam.
Porque funcionavam.
⸻
Pouco depois da meia-noite, a porta do andar se abriu.
Nicolas entrou sem pressa, observando a cena como quem chega exatamente onde queria.
— Que clima agradável — comentou. — Dá pra sentir a harmonia daqui do corredor.
Henrique se virou imediatamente.
— O que você quer, Nicolas?
— Ver se meu primo sobreviveu à nova dinâmica — respondeu ele, sorrindo. — E conhecer a famosa Aurora Boreal.
O olhar de Nicolas percorreu Aurora com interesse calculado.
— Inteligente — disse ele. — Sempre perigoso.
— Ela está trabalhando — cortou Henrique.
— Claro — respondeu Nicolas. — Trabalhando duro… juntos.
Aurora cruzou os braços.
— Se tem algo a dizer, diga logo.
Nicolas sorriu, satisfeito.
— Só um conselho. Aqui dentro, eficiência chama atenção. Atenção vira alvo.
— Isso é uma ameaça? — perguntou Henrique.
— É um aviso — respondeu Nicolas. — Para os dois.
Ele se virou para sair.
— Boa noite, Aurora Boreal. — Fez uma pausa. — Fenômenos intensos costumam queimar rápido.
A porta se fechou.
Aurora soltou o ar lentamente.
Henrique observou
⸻
Quando finalmente terminaram, já passava da uma da manhã.
Caminharam juntos até o elevador sem trocar uma palavra.
Antes das portas se fecharem, Henrique falou:
— Não pense que trabalhar juntos vai nos aproximar.
Aurora respondeu, sem olhar para ele:
— Fique tranquilo. Eu não suportaria.
As portas se fecharam.
O ódio estava declarado.
O desprezo, verbalizado.
E, por baixo de tudo isso, algo que nenhum dos dois estava disposto a enfrentar ainda.