Mundo de ficçãoIniciar sessãoHenrique não se atrasava por descuido.
Atrasava porque acreditava que o mundo se ajustava a ele. Quando atravessou a porta de vidro do andar executivo, o efeito foi imediato. Conversas cessaram, cadeiras se ajustaram, corpos assumiram posturas mais formais. Não havia anúncio. A presença bastava. Ele vestia o terno como quem nunca precisou aprender a usá-lo. Caminhava com tranquilidade excessiva para alguém que carregava o futuro da empresa no sobrenome. — Bom dia, doutor — disseram quase em uníssono. Henrique respondeu com um aceno breve e seguiu direto para a sala de reuniões. Nicolas já o esperava, apoiado na mesa. — Achei que você não viria — comentou. — Eu sempre apareço — respondeu Henrique, ajustando o relógio. — Só não gosto de correr atrás de expectativas alheias. Sentou-se à cabeceira sem pedir licença. Ninguém questionou. A reunião começou. Números, cláusulas, estratégias. Henrique ouvia com atenção seletiva, interrompendo quando queria, descartando o que julgava óbvio demais para ser discutido. Foi então que a porta se abriu discretamente. Aurora entrou com uma pasta fina nas mãos. Não olhou para ninguém além do necessário. Aproximou-se da mesa para entregar os documentos ao diretor responsável. Henrique bateu os olhos no papel e franziu levemente a testa. — Isso aqui está errado. A frase foi curta. Definitiva. Aurora parou. — Não está — respondeu, firme, antes que o silêncio a fizesse recuar. Todos olharam para ela. Henrique ergueu o rosto devagar, como quem identifica um ruído inesperado. — Perdão? — perguntou, com a voz baixa. — A cláusula que o senhor quer retirar protege a empresa em litígios internacionais — explicou Aurora. — Sem ela, o risco jurídico aumenta significativamente. Henrique inclinou a cabeça, analisando-a com curiosidade fria. — Quem é você? — Aurora. Assistente jurídica. — Aurora. - ele repetiu o nome e riu. Não foi alto. Não foi longo. Foi o tipo de riso que não pede permissão nem explicação. — O que há de errado com meu nome, senhor? O riso desapareceu. — Assistentes não opinam — disse ele. — Executam. Aurora sentiu o coração acelerar, mas manteve o olhar firme. — Então o senhor deveria ler antes de mandar executar. O silêncio foi absoluto. Nicolas desviou o olhar. Um dos diretores pigarreou. Júlia observava tudo com atenção controlada. Henrique levantou-se lentamente e deu alguns passos em direção a Aurora. — Você sabe com quem está falando? — Sei — respondeu ela. — E por isso fiz meu trabalho corretamente. Henrique a encarou por alguns segundos. Não havia medo ali. Nem submissão. Apenas convicção. — Pode se retirar — disse, por fim. — Depois conversamos sobre limites. Aurora assentiu, virou-se e saiu da sala com passos firmes, recusando-se a demonstrar qualquer hesitação. Quando a porta se fechou, Henrique voltou à mesa. — Mais alguém deseja questionar minhas decisões? Ninguém respondeu. Júlia quebrou o silêncio com voz calma. — A cláusula está correta. Henrique lançou-lhe um olhar rápido, surpreso por um instante quase imperceptível. — Verifico depois — respondeu. Mas não esqueceu. O restante da reunião seguiu, mas Henrique já não acompanhava como antes. A imagem da assistente permanecia nítida demais. Inteligente demais. Desobediente demais. Quando os diretores começaram a sair, um deles permaneceu sentado. Nicolas. Primo. Advogado brilhante. Ambicioso na medida exata para nunca parecer apressado. — Você exagerou — disse, casual, enquanto organizava os próprios papéis. Henrique não respondeu de imediato. — Ela foi insolente — disse por fim. Nicolas ergueu o olhar, avaliando-o com interesse contido. — Ela foi competente. Henrique fechou a pasta com um estalo seco. — Competência sem noção de hierarquia vira problema. — Ou vira ameaça — respondeu Nicolas, sem alterar o tom. O silêncio entre os dois foi denso. Henrique caminhou até a janela de vidro, observando o movimento da rua lá embaixo. — Meu tio confia em você — continuou Nicolas, casual. — Mas confiança não é a mesma coisa que convicção. Henrique não se virou. — Quer que eu cuide disso? — perguntou Nicolas. — Da assistente. Henrique respirou fundo antes de responder. — Não. — Isso é meu. Nicolas sorriu de leve. Não era um sorriso de concordância. Era de expectativa. Aurora passou o resto do expediente sob tensão silenciosa. Ninguém comentou o ocorrido, mas os olhares diziam tudo. Alguns curiosos. Outros claramente críticos. No fim da tarde, Júlia se aproximou. — Pode vir comigo um instante? Entraram em uma sala menor. Júlia fechou a porta com calma. — Você foi imprudente — disse, direta. — Me Desculpa. Não tive a intenção. — Eu sei. E você estava certa. Aurora ergueu o olhar, surpresa. — Aqui, razão não basta — continuou Júlia. — Hierarquia importa. Timing também. — Então eu deveria ter me calado? — Não — respondeu Júlia. — Mas deveria estar preparada para as consequências. — Quais? Júlia sustentou o olhar. — Henrique não esquece. Aurora respirou fundo. — E o que acha que devo fazer agora? Houve um breve silêncio antes da resposta. — Continue fazendo bem o seu trabalho — disse Júlia. — E tenha cuidado. Quando ficou sozinha, Aurora sentiu algo inesperado. Não arrependimento. Clareza. Ela não havia errado. E não pediria desculpas por isso. Do outro lado do prédio, Henrique permanecia parado diante da janela. Ela não o temera. Não o bajulara. Não recuara. Ele apertou a mandíbula. Aquilo não era apenas desrespeito. Era um desafio. E desafios, Henrique sempre fazia questão de vencer.






