Mundo de ficçãoIniciar sessãoNo dia seguinte, Aurora percebeu a mudança antes que alguém dissesse qualquer coisa.
Não foi um aviso formal. Nem um comentário direto. Foi o silêncio. Projetos que antes passavam por sua mesa deixaram de chegar. Reuniões às quais era convocada desapareceram da agenda. Seu nome deixou de ser mencionado.Ela continuava ali. Presente. Invisível. No início da manhã, revisou o e-mail pela terceira vez. Nenhuma nova tarefa relevante. Apenas pedidos operacionais, sem importância estratégica. Arquivar. Conferir. Encaminhar. Um rebaixamento silencioso. Malu, que a conhecia desde a infância e reconhecia seus silêncios melhor do que qualquer pessoa, percebeu na primeira ligação do dia. — Você está com aquela voz — disse do outro lado da linha. — Que voz? — A de quem está fingindo que está tudo bem. Aurora fechou os olhos por um segundo. — Eu enfrentei o herdeiro da empresa ontem. Houve um breve silêncio, seguido de uma risada incredulamente nervosa. — Você o quê? — Corrigi. Em público. — Aurora… — Malu respirou fundo. — Você tem noção do que isso significa? — Tenho. — Acha que vão te demitir? Aurora hesitou. — Não sei. Malu suspirou. — Qualquer coisa, me chama. Aurora desligou com um frio na barriga. Precisava fazer algo. Ainda não sabia o quê No corredor, ouviu dois advogados conversando em tom baixo. — Ele mandou tirar o nome dela do projeto internacional. — Sério? — Diretamente. Aurora não diminuiu o passo. Fingiu não ouvir. Mas ouviu. Henrique não gritava. Ele apagava. Horas depois, Júlia a chamou novamente. — Sente-se — disse, apontando para a cadeira à frente da mesa. Aurora obedeceu. — O que aconteceu ontem teve efeito imediato — explicou Júlia, com a calma de quem entende o jogo. — Henrique retirou você de algumas frentes. — Eu imaginei. — Isso não significa que você esteja errada — continuou Júlia. — Significa que ele se sentiu afrontado. — E isso é suficiente para prejudicar o trabalho? Júlia cruzou as mãos sobre a mesa. — Aqui, poder e trabalho raramente caminham separados. Aurora assentiu. Já aprendera isso cedo demais. — Há algo que eu deva fazer? — perguntou. — Sim — respondeu Júlia. — Não dê a ele o que espera. — E o que ele espera? — Que você reaja. Que erre. Que se exponha. Aurora respirou fundo. — Certo, não farei isso. Júlia a observou por alguns segundos, avaliando-a com atenção silenciosa. — Continue seu trabalho — disse, por fim. — Mas seja impecável. Do outro lado do prédio, Henrique analisava relatórios em sua sala envidraçada. Nicolas estava sentado à sua frente, confortável demais para alguém que, embora fosse parte da diretoria da empresa, não ocupava oficialmente a presidência. — Ela teve coragem — comentou Nicolas, quase casual. — Poucos fariam o que ela fez naquela reunião. Henrique não levantou os olhos. — Coragem ou pretensão? — Depende de quem avalia — respondeu Nicolas. — Mas uma assistente te corrigir na frente de diretores… isso não pega bem. Henrique fechou o relatório. — Já cuidei disso. — Tirando-a dos projetos? — Sim. Nicolas inclinou-se levemente para frente. — Você acha que isso resolve? Henrique ergueu o olhar, desconfiado. — O que está sugerindo? — Que gente assim não recua fácil — disse Nicolas, com falsa preocupação. — E pode virar problema se alguém começar a perceber que ela… pensa. Henrique manteve o rosto impassível, mas registrou cada palavra. — Não me diga como administrar minha equipe. — Claro que não — respondeu Nicolas, sorrindo. — Só estou zelando pelo nome da família. Henrique voltou a atenção para os papéis. Mas a semente estava plantada. No fim do expediente, Aurora deixou o prédio com a sensação de carregar algo invisível nos ombros. Não derrota. Vigilância. O celular vibrou. Jonas. — A gente precisa conversar — disse ele, sem rodeios. — Hoje não é um bom dia. — Nunca é, ultimamente. Aurora suspirou. — O que foi? — Recebi um convite — disse ele. — Um jantar. Com pessoas importantes. Ela já sabia onde aquilo daria. — E? Houve uma breve pausa. — Pensei que talvez fosse melhor eu ir sozinho — disse Jonas, com cuidado excessivo. — É um ambiente… específico. Aurora parou de andar. — Específico como? — Formal. Engessado. — Ele forçou um tom leve. — E você anda com tanta coisa na cabeça… Ela entendeu antes que ele concluísse. — Você fica mais à vontade se eu não for. O silêncio do outro lado não negou. — A gente conversa depois — disse ela, encerrando a chamada. Naquela noite, Aurora entendeu duas coisas com uma clareza desconfortável. Henrique não seria um obstáculo passageiro. E Jonas não estaria ao seu lado quando as coisas ficassem difíceis. Ela estava sozinha naquele jogo. E, estranhamente, isso não a enfraqueceu. Apenas a deixou mais atenta.






