Mundo de ficçãoIniciar sessão
Aurora sempre fez o possível para estar à altura do que esperavam dela.
Na cozinha pequena do apartamento, o cheiro de café recém-passado se misturava ao som baixo do rádio. João ajeitava a camisa já gasta diante do espelho da sala, enquanto Eda dobrava um pano de prato com o cuidado de quem sempre tentou manter tudo em ordem. — Não esquece o casaco. Vai esfriar mais tarde. Aurora prendeu o cabelo em um coque baixo e assentiu. No reflexo do espelho, viu a imagem que conhecia bem: postura firme, olhar atento, roupas simples demais para o endereço que pisaria dali a pouco. — Hoje você começa naquele escritório enorme, né? — perguntou o pai. —Se tudo der certo, após ser aprovada no Exame da Ordem, eles poderão me efetivar como advogada. O sorriso de João foi discreto, mas carregado de orgulho. — Sua avó ficaria muito feliz. Aurora engoliu em seco. Pegou a bolsa, beijou os dois no rosto e saiu antes que o peso daquela frase se tornasse visível. O elevador antigo demorou a descer. Tempo suficiente para ela lembrar que nada do que conquistara tinha sido fácil. O prédio da Lancaster Global Law, a maior empresa de advocacia do país, não precisava ostentar. O luxo estava nos detalhes silenciosos, no mármore claro, na recepção impecável, nas pessoas que se moviam com segurança, sem pressa aparente. A família Lancaster era conhecida exatamente por isso: nunca precisou provar nada em voz alta. O sobrenome atravessava gerações como um selo de autoridade, associado a decisões que moldaram leis, contratos e impérios inteiros. Feritz Lancaster construíra a reputação definitiva da empresa, transformando o escritório em uma potência internacional, respeitada não apenas pelo dinheiro, mas pela influência real que exercia nos bastidores do poder. Ser um Lancaster significava herdar mais do que fortuna. Significava carregar expectativas, disciplina e um tipo específico de frieza estratégica. Aurora passou o crachá na catraca e respirou fundo. — Bom dia. Recebeu um aceno automático da recepcionista e seguiu em frente. O setor jurídico funcionava em um ritmo próprio. Teclados discretos, passos firmes, conversas baixas. Ninguém parecia precisar se apresentar. Todos ali sabiam exatamente quem eram ou quem precisavam parecer ser. Ela se acomodou à mesa, ligou o computador e abriu a lista de tarefas. Organização de documentos, conferência de prazos, apoio jurídico. Nada era simples naquele lugar. Tudo era observado. — Você deve ser a nova assistente. A voz feminina era segura, sem ser dura. Aurora levantou o olhar. A mulher à sua frente vestia-se com elegância discreta. A postura impecável e o olhar atento denunciavam alguém acostumada a ser ouvida. Filha mais nova de Feritz, Júlia cuidava da contabilidade da empresa como quem entende que herdar um império também significa sustentá-lo. — Sou. Aurora. — Júlia. O aperto de mão foi firme, confiante. Havia autoridade ali, mas sem arrogância. — Seja bem-vinda. Se precisar de algo, me procure. — Obrigada. Júlia fez uma breve pausa, observando o ambiente ao redor antes de continuar. — Essa semana tende a ser intensa. Temos reuniões importantes. Aurora percebeu que aquilo significava mais do que parecia. — Algum motivo específico? — Mudanças — respondeu Júlia, de forma direta. — Sempre exigem adaptação. Antes que Aurora perguntasse mais, um homem passou apressado pelo corredor, falando ao telefone em tom baixo, mas incisivo. — O doutor Henrique ainda não chegou — comentou alguém próximo, quase em sussurro. O nome atravessou o ambiente com peso imediato. Não houve comentários extras, apenas expectativa contida. Aurora voltou a atenção para a tela, mas o pensamento já não estava ali. Henrique Lancaster. O herdeiro. O nome que parecia ocupar espaço mesmo na ausência. Ela não o conhecia. Ainda. Mas já entendia o efeito que causava. Ao longo da manhã, revisou contratos, identificou inconsistências que passariam despercebidas por olhos menos atentos. Anotou tudo com cuidado, consciente de que cada detalhe importava. Sentiu olhares se voltarem para ela em mais de um momento. Avaliação silenciosa. Curiosidade contida. Aurora manteve a postura. Não havia chegado até ali para parecer menor do que era. Durante a tarde, enquanto organizava os documentos, ouviu novamente o nome sendo mencionado. Agora acompanhado de impaciência. — O senhor Feritz não gosta de atrasos. E o filho dele tem esse péssimo hábito. Aurora respirou fundo. Se aquele homem acreditava que pontualidade era opcional, cedo ou tarde aprenderia o custo disso.






