Mundo ficciónIniciar sesiónNARRAÇÃO DE BELA...
Apesar de nunca ter gostado das primeiras horas de aula, tudo mudou quando me aproximei dos herdeiros. Pela primeira vez, senti-me popular — mesmo falando pouco, mesmo percebendo os olhares enviesados das outras garotas, como se fossem uma ameaça silenciosa. Ao ver Lucas me esperando próximo ao portão da escola, soube que precisaria mentir. A preocupação estampada no rosto dele praticamente gritava. — Bela! Onde você estava?! Quer me matar de vez?! — disparou assim que me viu. — Tio Brady me mandou mensagem perguntando como você estava se saindo. Precisei mentir, dizer que estava ótima, mas ocupada em aula. Forcei um sorriso. Principalmente porque aquela mentira tinha me salvado. — Eu… fiquei com cólicas. Você sabe… coisas de mulher… — murmurei. Respirei aliviada quando ele bufou ao sair em direção ao carro. Ele acreditou. — Só não suma do meu campo de visão, pelo amor de Deus. Se meu tio pedir uma foto sua, vou ter que mandar. — Então tira fotos reservas! — resmunguei, entrando no carro. — Ah, papai é tão exagerado… Durante o caminho para casa, perdi-me em lembranças perigosas: eu na garupa da moto, segurando a cintura dele; nós dois sozinhos na praia; a conversa; o momento em que o salvei. Meu Deus… eu salvei o inimigo do papai. Fiz exatamente tudo o que ele pediu para eu não fazer. Respirei fundo, contendo o riso da travessura. Não era Halloween, mas eu já estava aprontando. Coloquei o punho diante da boca para esconder o sorriso e virei o rosto para a janela quando percebi Lucas me observando pelo retrovisor. — Por que está rindo? — perguntou, desconfiado. — Eu não estou rindo. — Estava. — Desde quando você virou fiscal de risos? Eu não posso rir? — Pode… mas estava com cara de boba. Bufei e o ignorei até chegarmos à mansão. Meu semblante caiu assim que vi meu pai e minha mãe na varanda. Ele estava parado, impecável como sempre, mãos nos bolsos, postura rígida. Engoli em seco, disfarçando a tensão. Saí do carro e forcei um sorriso, que morreu no instante em que ouvi Lucas atender o celular, confirmando presença em uma festa. Eu quero ir à festa. Lucas seria obrigado a me levar, mas, por enquanto, eu precisava parecer confiável. Caminhei até meus pais, sentindo o olhar atento do meu pai estudar cada detalhe do meu rosto. — Eu amei! — disparei rápido. — É maravilhoso estudar naquela escola. Por mim, iria até sábado e domingo! Minha mãe riu e me abraçou com ternura. Já meu pai permaneceu imóvel, desconfiado. Ele me conhecia demais. — Não vai me parabenizar pelo primeiro dia de aula, papai? — perguntei, abandonando o sorriso. — Parabéns… — respondeu, seco. Assim que Lucas se aproximou da varanda, meu pai voltou-se para ele. — Lucas, como foi lá? Lucas encerrou a ligação, franziu os lábios como um adolescente pouco disposto a dar detalhes. — Tranquilo. A Bela é esperta. Sorri, orgulhosa. Lucas podia ser irritante, mas era parceiro. Meu melhor amigo homem. Júlia, por outro lado, era minha irmã e minha melhor amiga. Pensei nela e me apressei. — Filha, o almoço já está na mesa! — avisou minha mãe. — Tá bom. Vou chamar a Júlia. Corri até o quarto dela. Júlia estava deitada na cama, lendo — como sempre. Pulei em cima dela e arranquei o livro de suas mãos. Ela sorriu, curiosa. — Me conta tudo! Suspirei e me joguei de costas na cama, deixando a cabeça pender para fora. Observei o quarto de cabeça para baixo, segurando o riso. — É emocionante! Eles são bonitos… um pouco mesquinhos, mas bonitos. Nem consegui prestar atenção na aula. Endireitei-me para encará-la melhor. — O herdeiro da Yakuza é uma delícia! Júlia arregalou os olhos e tampou minha boca na mesma hora. Olhou para a porta antes de sussurrar: — Cuidado com o que fala! As paredes têm ouvidos! Afastei a mão dela. — Tá. Vou dizer que ele é ela. Então… ela é discreta, bonita, anda de moto, tem gominhos na barriga e uma tatuagem. Júlia gargalhou, mas o riso morreu quando Lucas abriu a porta, entediado. — Estão chamando vocês para o almoço. Levantei-me depressa e fui até ele. — Lucas, eu quero ir a essa festa! — Não começa, Bela. Tio Brady não vai deixar… — Não é festa — dei de ombros. — É um trabalho escolar, na casa de uma colega. Sorri. Ele me olhou preocupado. Sabia que teria de mentir para o meu pai. À mesa, enquanto almoçava, preparei-me para a encenação. Era por uma boa causa. Nunca tinha ido a uma festa com jovens da minha idade. Larguei o garfo antes mesmo de começar. — Papai, hoje tivemos aula de História. A professora formou grupos para um trabalho. Eu pedi para ficar com o Lucas, afinal, não conheço ninguém. Combinamos de fazer o trabalho na casa de uma colega do grupo. Meu pai franziu o cenho. Lucas chegou a parar de mastigar. — Por que não fazem aqui? — Porque… combinamos de fazer na casa dela… — E quem é ela? Pensa rápido, Bela… — Emma, herdeira da Croácia. No fundo, o Lucas quis que fosse lá porque está a fim dela. Lucas engasgou com o suco e me chutou debaixo da mesa. Meu pai respirou fundo, quase em negação, passando a mão pela cabeça. Meu tio Estefan riu, orgulhoso, satisfeito ao saber que o filho gostava de mulheres. — Que horas? — perguntou meu pai. Olhei para Lucas. — Que horas, Lucas? — Oito da noite. Voltamos no máximo às dez. — Acho tarde — meu pai cortou, seco. — Deixa eles irem, amor — interveio minha mãe, sorrindo para mim. — Nossa filha precisa fazer amigos novos, e o Lucas estará com ela. Ela voltou-se para mim. — Pode ir, filha. Sorri, vitoriosa. Meu pai pode ser assustador para os outros, mas com a mamãe… é só um cachorrinho obediente.






