Mundo ficciónIniciar sesiónNARRAÇÃO DE KAITO...
O que ela tem de bonita, tem de geniosa. Nada surpreendente. Sempre ouvi falar da fama do pai dela. Uma coisa eu sei: ele odeia a minha família. E, sinceramente, nunca fiz questão de entender o motivo à fundo. A princípio, estava decidido a manter distância. Mas bastaram poucas palavras trocadas para Bela despertar algo em mim. Nada profundo, nada sério — apenas o gosto pela provocação. Talvez porque o pai dela deteste meu pai. Talvez porque ele a mantenha presa, como se fosse propriedade sua. Eu sempre gostei de cutucar casas de vespas. E Brady Dawson se tornou a minha nova. Levá-la para matar aula foi quase um impulso. Bela é curiosa demais, observadora demais — e, definitivamente, uma péssima espiã. Eu não precisava sequer olhar para trás para saber que ela me seguia. Bastava encarar a tela do celular. O reflexo dela surgia em cada corredor, os cabelos longos e lisos denunciando sua presença. Aquilo me divertiu. Gostei do jeito peculiar dela. Ela não se parece em nada com as garotas que forçam risadas e conversas vazias para chamar minha atenção. Bela é… Bela. Geniosa, curiosa, aventureira. Na praia, vi algo diferente. Livre. Quando abriu os braços, deixando o vento do mar atravessá-la, seus cabelos dançando, eu me peguei observando além do permitido. Então a asma atacou. O ar desaparece, o peito queima, e o desespero se instala. Minha mochila estava na moto, longe demais. A pressa drenou minhas forças antes que eu pudesse alcançá-la. Achei que perderia os sentidos — até Bela surgir ao meu lado, revirando a mochila e encontrando exatamente o que eu precisava. Quando recobrei a consciência por completo, estava estendido na areia, tentando recuperar o fôlego. Só então percebi: minha cabeça repousava nas pernas dela. Seus polegares deslizavam com cuidado pelos meus cabelos e pela minha testa. Abri os olhos ainda fraco, e ali estava ela — bonita de um jeito quase irreal. Delicada como porcelana, mas forte onde importava. Ela segurou minha mão durante a crise, ajudou a controlar minha respiração. O carinho era silencioso, sincero. Fechei os olhos, sem qualquer vontade de sair dali. Mas durou pouco. As risadas dos meus amigos se aproximaram, quebrando o momento. Sentei-me de imediato, disfarçando um clima que nem eu mesmo sabia explicar. As garotas se calaram. Billy franziu o cenho. De longe, a cena podia facilmente ser confundida com algo mais. Levantei, respirando fundo. — Eu passei mal… a maldita asma. — Mostrei a bombinha. As garotas se entreolharam. Kelly, visivelmente interessada em mim, se aproximou preocupada e tocou minha testa. Afastei a mão dela com cuidado. Bela se levantou em silêncio. Nossos olhares se encontraram, e tudo o que eu sentia estava ali: gratidão. Ela me salvou. — Como você está agora? — Kelly insistiu, tentando me tocar outra vez. — Estou bem. Vamos voltar antes que o sinal toque. Precisamos estar na escola. Os rapazes concordaram. As garotas passaram por mim. Vi Bela seguir em direção ao carro de um dos meus amigos. — Bela… eu te levo — chamei. Ela se virou, os cabelos escuros girando com o movimento. — Prefiro não. Não gostei de andar de moto… fiquei com medo. Billy sorriu ao abrir a porta para ela, orgulhoso demais para o meu gosto. Aquilo me incomodou, embora eu não entendesse por quê. Kelly pulou nas minhas costas logo em seguida, risonha — um incômodo imediato. — Me leva! Eu adoro andar de moto… Ignorei a tentativa óbvia de sedução. Fiz o que ela pediu, pilotei em silêncio, sentindo suas mãos vagarem pelo meu corpo de forma invasiva. Aquilo não me despertava nada além de tédio. Já houve algo entre nós, uma noite sem importância, consequência de álcool e escolhas ruins. Ela queria repetir. Eu, não. De volta à escola, ninguém sentiu nossa falta. Fugir das regras era quase um hábito entre herdeiros. Afinal, após as aulas, sempre havia seguranças à espera. Bela mal se despediu. Pegou a mochila e seguiu ao lado de um garoto chamado Lucas. Caminharam apressados, e eu fiquei ali, parado, observando-a partir sem olhar para trás. Meus pensamentos foram interrompidos quando meus amigos me sacudiram, empolgados. — Hoje tem social na casa do Kelvin! — Billy riu. — E anda com essa porcaria da bombinha no bolso. Ele olhou na mesma direção que eu: Bela saindo da escola. — Eu quero ela. Adoro carne nova. Apertei o capacete com mais força. — Ela não é qualquer garota. É a herdeira da Máfia Americana. Billy sorriu de lado, provocador. — Melhor ainda. Revirei os olhos e segui adiante. No fim do dia, voltei para a mansão da minha família. Mas, durante todo o trajeto, Bela ocupou meus pensamentos. O jeito como cuidou de mim na praia. Como me salvou. Talvez eu devesse impedir que Billy tentasse se aproximar dela. Conheço bem o tipo de pessoa que ele é. Aproveitador. Coleciona conquistas para inflar o próprio ego. Bela não parece assim. Não carrega maldade no olhar. Pelo menos, não no primeiro dia em que cruzou o meu caminho. Enquanto atravessava os portões da mansão, meu celular vibrou. Uma mensagem. De Billy. “Ela confirmou presença hoje.” Meu maxilar travou. Se Bela pisasse naquela casa, eu sabia exatamente como a noite terminaria. E, pela primeira vez, não era o perigo que me atraía. Era a urgência de impedi-lo.






