Mundo ficciónIniciar sesiónNARRAÇÃO DE BELA...
Eu precisava ser extremamente discreta. Meu pai havia permitido minha saída — claro, graças à intervenção da minha mãe. Não era algo a se comemorar. Qualquer deslize poderia levantar suspeitas. Depois do almoço, o plano era simples: subir para o quarto, escolher uma roupa adequada para a festa e escondê-la na mochila. Mas a voz do meu pai, logo atrás de mim, me fez congelar. — Filha… Virei-me devagar, fingindo serenidade. — Oi, pai. — O professor de educação física me ligou. Disse que houve um incidente… Você levou uma bolada. Meu coração disparou. Professorzinho fofoqueiro… — Não foi nada. Nem doeu. A bola só encostou… Era basquete, então… Me calei quando ele segurou meu queixo, analisando meu rosto com atenção excessiva. — Tem certeza de que não se machucou? — Absoluta. Forcei um sorriso, esperando que ele desistisse de procurar algum hematoma invisível. Papai era protetor até demais. — Quem jogou a bola em você? Bufei, afastando-me e revirando os olhos. — Pai, pelo amor de Deus! Eu já disse que foi um acidente. Não importa quem foi… — Você não pode levar um canivete para a escola. O professor disse que você assustou todo mundo quando furou a bola. — Foi no calor do momento. Escutei risadas… mas já tiraram o canivete de mim. Ele riu, aproximou-se e me envolveu num abraço afetuoso. — Geniosa, igual a mim. Às vezes sinto que bato de frente comigo mesmo. Mas tente se controlar. Do contrário, pode acabar expulsa. — Vou me lembrar disso. Obrigada, pai… Soltei-me dele e sorri, fingindo ser uma donzela obediente — a mesma que não havia matado aula logo no primeiro dia. Mais tranquilo, ele seguiu para o escritório. Quando entrei no quarto, Julie estava sentada na cama, claramente preocupada. — Irmã, acho errado ir a essa festa. Se nosso pai descobrir, ele te tira da escola sem pensar duas vezes. — Ele não vai descobrir. Só preciso ser discreta. Peguei um vestido preto, brilhante, e mostrei a ela antes de colocá-lo na mochila. — Vamos voltar no horário combinado. Não vou beber, nem fumar. Eu só quero… Parei no meio da frase. Bastou pensar em Kaito para meu coração falhar uma batida. A lembrança dele deitado com a cabeça em minha perna, enquanto eu passava os dedos por seus cabelos lisos, me atravessou inteira. — Eu só quero… me entrosar com os colegas. Julie suspirou, visivelmente dividida. — Eu vou te ajudar. Quando anoitecer, faço um chá para o nosso pai… com um calmante. Assim ele dorme e não fica ligando pra vocês. Estufei o peito, empolgada. Fui até ela e a abracei com força. — Obrigada! Você é incrível, Julie! Ela riu, negando com a cabeça. Em seguida, pegou uma bolsa de maquiagem e a colocou na mochila. — Se arrume no carro. Ter o apoio da minha irmã e do meu primo já era o suficiente. As horas passaram lentamente; eu contava os minutos. Quando finalmente anoiteceu, Lucas me apressou. Ele estava impecável. Eu, por outro lado, usava um vestido simples, cabelos presos — tudo calculado para esconder minha real intenção. Para minha sorte, meu pai já havia se recolhido. Pelo visto, o calmante havia surtido efeito. Despedi-me da minha mãe e saímos às pressas. Lucas dirigia segurando o riso. Eu permaneci no banco de trás, observando ao redor, certificando-me de que não havia seguranças por perto. Pelo retrovisor, encarei-o. — Não olha pra trás. Vou me trocar! Ele revirou os olhos, entediado. Não era novidade me ver seminua — crescemos juntos, tomávamos banho de mangueira quando crianças, completamente pelados. Houve até a vez em que perguntei por que eu não tinha um pênis, arrancando gargalhadas da tia Evelyn. Mas isso ficou na infância. Me troquei em tempo recorde. Ajustei o vestido enquanto Lucas ouvia rock, balançando a cabeça e cantando muito mal. Maquiar-me foi um caos. Com o carro em movimento, tudo borrava. Quando ele estacionou em frente a uma mansão iluminada, tomada por jovens e música alta, senti o peito inflar de animação. — Isso sim é o melhor trabalho escolar! Lucas riu alto quando descemos do carro. Assim que entramos, ele avistou a loira e se afastou de mim sem hesitar. Respirei fundo, observando ao redor, à procura daqueles olhos puxados que haviam capturado minha atenção. Mas parei quando um amigo dele se aproximou, tocando minha cintura. — Olá… você aqui. Está linda. Seu olhar percorreu meu corpo sem pudor. Forcei um sorriso, ainda procurando apenas por ele. — Aceita uma bebida? — Eu não bebo. — Então vem comigo. Quero te mostrar a mansão. Ele praticamente me puxou escada acima. Meu estômago se revirou. Eu não queria conhecer mansão nenhuma. Tinha apenas duas horas. Ao entrar em um corredor vazio, ele me prensou contra a parede. Meu corpo enrijeceu. Nenhum garoto jamais havia chegado tão perto assim. — Queria te dizer algumas coisas… Desde o dia em que te vi na praia, fiquei encantado com sua beleza. Ele tocou minha pulseira de diamantes, provocando um incômodo imediato. — Obrigada, mas não precisa ficar tão perto. Empurrei seu peito. Ele riu, erguendo as mãos. — Calma… É normal. Declarações, olhares, beijos… Você vai gostar. Ele tentou se aproximar novamente. Meu peito incendiou. Eu não queria que meu primeiro beijo fosse com um estranho. Então ouvi aquela voz grave, inconfundível, logo atrás de nós. — Billy, ela pediu espaço. Respeite. Olhei para Kaito, aliviada. Ele vestia uma blusa preta de gola alta, mangas longas. E uma jaqueta de couro. Um cordão de diamantes brilhava sobre o tecido escuro. Estava absurdamente encantador. Billy riu, sem graça. — Relaxa, Kaito. Estamos só conversando… Afastei-me dele imediatamente e parei ao lado de Kaito. Como pedido de socorro, segurei sua mão. Encarei Billy, que parecia surpreso. — Eu prefiro ficar com ele. Sorri. Kaito me olhou, espantado. Billy, frustrado, saiu do corredor em silêncio. Quando ficamos a sós, Kaito permaneceu imóvel, olhando para nossas mãos entrelaçadas. Disfarcei e as soltei. — Obrigada… — Vem. Quero conversar com você. Disse com serenidade, colocando as mãos nos bolsos e seguindo adiante. E eu o segui — como se o mundo inteiro tivesse se reduzido àquela voz.






