Capítulo quatro

A cama é tão macia que parece engolir meu corpo inteiro, como se dissesse “relaxa, você está segura.”

Mas mesmo envolvida pelos lençóis perfumados e com o travesseiro afundando sob minha cabeça, o sono simplesmente não vem.

O relógio marca 1h40 da manhã.

E eu ainda estou aqui — olhos abertos no escuro, coração inquieto, mente barulhenta.

Solto um suspiro frustrado e sento-me, passando a mão pelos cabelos. A casa parece respirar junto comigo, silenciosa demais, imponente demais.

Deslizo para fora da cama, meus pés encontram o chão frio e um arrepio sobe pela minha coluna.

Abro a porta devagar, cuidando para não fazer nenhum ruído que ecoe pelos corredores. O silêncio é tão absoluto que sinto até minha própria respiração alta demais.

Desço a escada na ponta dos pés, cada degrau protestando levemente sob meu peso. Procuro pela cozinha, guiada apenas pela lembrança do caminho e pela fraca iluminação que vem da sala.

A luz suave da cozinha me recebe, e por um momento, fico ali parada, observando o contraste entre a imensidão da casa e esse pequeno canto que parece… humano.

Procuro algo para esquentar — talvez leite, um chá — qualquer coisa que embale meu corpo e silencie minha cabeça.

Mexendo nos armários, encontro várias caixas de chá empilhadas lado a lado. Fragrâncias diferentes, cores, marcas caras.

Meus dedos param sobre um, e sorrio de canto.

— Morango… — murmuro para mim mesma.

Sei que não devo mexer em nada, mas… sinceramente?

Só preciso respirar.

Coloco a água para aquecer e decido esperar na sala.

Cada passo faz meu baby doll curto balançar levemente contra minhas coxas, e só então percebo o quanto aquela escolha de roupa foi irresponsável — nesses corredores, nessa noite, nessa casa.

Olho a sala novamente.

Luxo.

Silêncio.

Espaço demais para pensar.

Estou prestes a voltar para ver a água quando choco contra algo sólido como uma parede viva.

Ofego.

Minhas mãos se apoiam automaticamente para não cair — e encontro pele quente, firme, rija.

Um abdômen perfeitamente definido, cada traço desenhado como escultura. Um peitoral largo, forte.

O choque não é só físico, é elétrico.

Meu coração para — e depois volta a bater como se quisesse fugir do meu peito.

Mãos grandes e quentes seguram meus braços com firmeza suficiente para estabilizar, mas suave demais para assustar.

— Se machucou? — pergunta aquela voz rouca, grave, que vibra mais no peito do que no ar.

Levanto o rosto e o encontro.

Liam Carter.

Mas não o Liam do escritório, envolto em ternos caros e olhar de aço.

Esse é outro.

Cabelos bagunçados. Olhar meio sonolento. Expressão mais humana, mais suave. Pele ainda quente do sono. E apenas uma calça de moletom pendurada no quadril, revelando tudo o que a imaginação consideraria adequado — e o que definitivamente não deveria.

Engulo seco.

— Senhor… Carter. Eu… desculpe — quase engasgo com as palavras. — Não estava conseguindo dormir e… vim fazer um chá para ver se… melhorava.

Ele levanta uma sobrancelha, avaliando-me rápido demais para eu esconder meu embaraço.

— Está tudo bem. — Sua voz cai como seda quente. — Vim preparar um chá também.

Me viro rapidamente, tentando eternamente ficar menor do que sou, desejando que o chão me engula.

E é só quando olho para mim mesma que percebo o que estou usando.

Um baby doll de renda, curto demais, delicado demais — e absolutamente inadequado.

Excelente, Laura. Primeira noite e você desfila pela casa quase seminua.

Vou até a cozinha, e ele já está ali, abrindo a água quente e pegando duas xícaras como se fosse dono do lugar.

O que, tecnicamente, ele é.

Ele guarda meu chá de morango e pega outro.

— Este é melhor. — Ele diz, casual, como se não estivesse brilhando perigosamente sob a luz fraca. — Ajuda a pegar no sono.

Observo-o se movendo.

Braços fortes, musculatura definida que se movimenta sob a pele.

A luz projeta sombras nos lugares certos — pescoço, clavícula, ombros.

É… perigoso.

Estou encarando

Ele sabe que estou encarando.

Desvio o olhar rápido, como se minhas retinas pudessem queimar.

Ele estende a xícara, e eu quase deixo cair de nervosa ao pegar.

— Obrigada. Eu… não vou atrapalhar mais. — digo, pronta para fugir como se estivesse correndo de um incêndio.

— Laura. — Ele chama.

Congelo no mesmo instante.

Passos lentos atrás de mim.

Sinto, mais do que ouço, quando ele para perto demais.

O seu perfume amadeirado — aquele mesmo do elevador — me envolve por completo.

— Esse tipo de roupa… — Sua voz é baixa, quase perigosa. — Não seria apropriado perto da minha filha.

Sinto seus dedos puxarem levemente a alça do meu baby doll.

Meu corpo inteiro desperta — medo, vergonha, adrenalina.

Tudo ao mesmo tempo.

— Sim, senhor — respondo quase sem som.

Ele se inclina mais.

O ar nos separa por milímetros, e minha respiração falha.

— Mas — ele continua, e a palavra arrepia minha espinha — em outras ocasiões, diria que está muito bem vestida, Sinclair.

E então ele se afasta, como se nada tivesse acontecido.

Vejo-o subir as escadas com passos lentos e seguros, e fico ali plantada no chão, paralisada, tentando lembrar meu próprio nome.

Quando finalmente movo minhas pernas, praticamente corro para meu quarto.

Entro, fecho a porta sem fazer barulho, encosto as costas nela e deslizo até a cama.

Coloco o chá na mesinha de cabeceira e me enfio debaixo das cobertas como se fossem uma fortaleza anti-Liam-Carter.

O coração ainda dispara. A pele ainda arde. E o sono?

Bom… se eu tinha alguma chance antes, agora sumiu completamente.

Que droga.

...

Tomo o café da manhã ao lado da senhora Mônica, sentada à mesa impecavelmente posta, onde o aroma de pão fresco e café quente se espalha suavemente pelo ambiente. Tento parecer tranquila, mas meus dedos denunciam meu nervosismo, tamborilando sem ritmo sobre minha xícara.

— Está nervosa? — a senhora Mônica pergunta, com aquele sorriso acolhedor que parece enxergar direto dentro de mim.

Dou um sorriso pequeno, sentindo minhas bochechas esquentarem.

— Está tão na cara assim? — questiono, com uma risadinha sem graça.

Ela ri baixo, aquela risada serena que só quem convive em paz com o mundo consegue ter, e toca minha mão com delicadeza — um gesto simples que me acalma mais do que deveria.

— Não precisa se preocupar, criança. Vai se sair muito bem — diz, cheia de certeza, como se já soubesse o final dessa história.

Antes que eu responda, ouvimos passos ligeiros ecoando pelo enorme corredor, acompanhados de um risinho infantil que enche a casa de vida. O som me desperta um friozinho bom na barriga. Levantamos quase ao mesmo tempo e seguimos para a sala.

Assim que chegamos, vejo uma pequena figura saltitando pelo tapete — uma menina linda, com cachos castanhos que dançam a cada movimento, pele clarinha e olhos grandes, exatamente iguais ao do pai. Tão iguais que por um segundo, meu coração tropeça.

— Olá, querida! — Mônica chama, abrindo os braços.

A garotinha para e dá um gritinho animado.

— Vó Moica! — ela responde, errando o nome com a maior confiança do mundo.

Não consigo impedir o sorriso que se espalha no meu rosto. Existe algo nessa menina — energia, luz — que parece contagiar o ambiente inteiro.

— Lilian — Mônica continua — esta é a Laura, sua nova babá. Ela vai ficar com você, brincar, te acompanhar a partir de hoje.

A menina vira o rosto para mim lentamente, avaliando-me com uma seriedade surpreendente para alguém tão pequena. Os olhos dela percorrem meu corpo, dos sapatos ao cabelo, como se quisesse descobrir quem sou antes mesmo de eu falar.

Apoio uma das mãos no joelho e me agacho para ficar na altura dela, o sorriso mais suave que consigo formar nos lábios.

— Olá, Lilian — digo.

Ela pisca devagar, pensando. Então, dá dois passinhos miúdos até parar bem na minha frente.

— Oi, Laura — responde, com aquela voz fininha que parece feita de algodão. — Você vai ser minha amiga?

Meu peito se enche de calor. Não sei explicar — mas parece que, por um instante, tudo vale a pena.

— Sim — digo, com sinceridade e ternura. — Eu vou ser sua amiga.

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