Capítulo cinco

Arrumo o quarto de Lilian enquanto ela termina o café da manhã que a senhora Mônica preparou. O cômodo ainda cheira a xampu infantil, misturado com aquele perfume doce e suave que parece seguir a menina pela casa inteira.

Cuidadosamente, coloco seus ursinhos de pelúcia alinhados sobre a cama, como se estivessem em uma pequena reunião particular. Guardar os brinquedos no baú é quase um exercício de delicadeza; cada peça parece ter uma história, um toque recente das mãos pequenas que os espalham pelo chão. Por fim, confiro os materiais, fecho sua mochila e a deixo prontinha ao lado da porta.

— Laura, acabei! — a voz fininha ecoa pelo corredor antes de ela aparecer no batente.

Viro-me, e meu sorriso nasce sem esforço algum. Lilian surge com os cabelos ondulados desarrumados, caracóis apontando em direções aleatórias como se tivessem acabado de travar uma batalha com o travesseiro. Seus olhinhos brilham ao me ver, pura energia e expectativa.

E então – como acontece às vezes, sem aviso – algo dentro de mim se desloca.

A forma como ela me chama. O sorriso fácil. Os cabelos bagunçados. A casa cheia de vida com risadas correndo por corredores…

No mesmo instante, a lembrança dela se impõe diante de mim, vívida demais.

É como se alguém abrisse uma porta que eu mantive trancada com todas as minhas forças.

Por um breve segundo, quase vejo o fantasma da minha irmã — sua voz ecoando, me chamando. E então o grito. Aquele grito. Aquele que nunca consegui esquecer.

Meu coração despenca e dispara ao mesmo tempo, como se o chão tivesse sumido sob meus pés.

— Laura? Está tudo bem? — ouço a voz de Lilian, distante, como se viesse debaixo d’água.

O mundo estreita. Seguro-me na quina da cama, sentindo minhas pernas ameaçarem ceder. Minha respiração falha, fica presa na garganta enquanto uma cena que tento enterrar surge completa diante dos meus olhos: o calor cruel das chamas, a fumaça, o cheiro insuportável misturado ao desespero.

"Laura, me ajuda!"

A ilusão perfura meu peito.

Com o pouco de controle que ainda tenho, viro e saio do quarto, não querendo — não podendo — deixar Lilian me ver assim. Cada passo parece arrastado, os corredores se alongam, e eu apoio a palma na parede, tentando ancorar a mim mesma. Sinto-me tonta, vazia, à deriva no passado.

— Sinclair! — uma voz firme me alcança, junto ao toque quente que segura gentilmente meu braço.

Engulo seco, tentando me recompor antes mesmo de olhar para cima.

— Sinclair, você está bem? — a voz repete, mais próxima, mais humana.

Levanto o olhar e encontro os olhos intensos do meu chefe — olhos que agora carregam preocupação evidente, embora ele tente mantê-la oculta atrás de um semblante sério.

Droga, Laura. Respira. Se recomponha.

Puxo o ar devagar, como se cada movimento do pulmão fosse um esforço hercúleo. Endireito a postura, mesmo com as mãos tremendo.

— Está tudo bem — digo, engolindo o tremor na voz. — Foi só uma tontura.

Ele não parece totalmente convencido.

— Você já tomou café? — pergunta, sem rodeios.

Balanço a cabeça em negação.

Antes que ele diga algo, a voz de Lilian corta o ar:

— Papai!

E assim que ela fala, o homem à minha frente muda.

É como observar o mar depois de uma tempestade: a tensão se desfaz, o olhar se suaviza, os traços duros cedem.

Liam Carter vira-se, e um sorriso leve — raríssimo — nasce em seus lábios.

— Bom dia, meu amor — diz, agachando-se para receber a menininha que já corre para seus braços.

Eles se envolvem em um abraço tão apertado que parece selar o mundo inteiro do lado de fora.

— O senhor não tomou café comigo hoje! — Lilian reclama, com os bracinhos cruzados, expressando a indignação do jeito mais adorável possível.

Ele passa a mão pelos cachos rebeldes dela.

— Me desculpe, querida. O papai estava muito cansado e dormiu um pouco mais hoje.

Ela aceita a explicação com um aceno de cabeça e então me olha, caminhando em minha direção. Sem aviso, abraça minha perna com força.

— Você tá bem, Laura? — pergunta, com a voz preocupada.

Forço um sorriso, acariciando seus cabelos.

— Foi só uma tontura, prometo.

Ela então se vira para o pai, dedo em riste, indignada novamente:

— Papai, briga com a Laura! Ela cuidou de mim e não cuidou dela! Não comeu nada!

Quase rio — se meu corpo ainda não estivesse tremendo por dentro.

Liam se levanta. Agora ele é o CEO novamente: postura ereta, voz firme, decisão absoluta.

— Pode ir se alimentar, Laura. Eu vou trocar a Lilian e levá-la à escola.

Abro a boca para contestar — afinal, é parte do meu trabalho — mas ele já levanta a mão, cortando qualquer protesto.

— É uma ordem — diz, a voz grave e, estranhamente, cuidadosa.

Sem esperar resposta, ele pega a mão da filha e entra no quarto, deixando-me no corredor, respirando fundo e tentando juntar as partes de mim que ainda tremem.

...

Levanto-me da cama lentamente, como se cada músculo do meu corpo avisasse que a noite ainda não terminou. Caminho até a porta, prestes a sair, mas algo me detém: minha roupa. Olho para baixo e vejo o tecido leve do baby doll — quase idêntico ao de ontem, porém agora de um vermelho mais ousado, profundo, como vinho.

E agora?

Meu estômago se revira.

Se eu esbarrar com ele de novo… com certeza vai querer arrancar minha pele com o olhar. Ou pior, fazer outro comentário sobre o modelito.

Volto alguns passos apressados e entro no banheiro. Puxo o roupão pendurado na porta, embrulho-me nele como se fosse uma armadura improvisada e respiro fundo antes de sair novamente.

O corredor está silencioso, embalado pelo escuro da madrugada. Uma luz única corta essa tranquilidade: o brilho amarelado do escritório — acesa.

Claro.

Caminho nas pontas dos pés até a porta e, sentindo-me clandestina, espio pela pequena fresta da fechadura.

Lá está ele: sentado à mesa, os cabelos desalinhados, olhar fixo no computador enquanto a outra mão escreve algo em um bloco. Nenhuma pausa, nenhum cansaço evidente. Seu maxilar marcado, a postura perfeita, o silêncio brutal.

Esse homem parece realmente uma máquina — como se dormir fosse apenas um mito para ele.

Desvio o olhar e vou até o quarto de Lilian. Abro a porta devagar, o suficiente para deixar uma linha de luz entrar. Ela está deitada no centro da cama, abraçada a um ursinho, a respiração calma, inocente. Um anjinho.

E sem nem perceber, me inclino e deposito um beijo suave em sua bochecha morna.

Eu não devia.

Mas meu coração faz antes que minha cabeça pense.

Saio no mesmo silêncio e sigo para a cozinha. Acendo a luz mais fraca que encontro e pego um copo, enchendo-o com água gelada. O barulho do líquido quebrando o silêncio parece alto demais.

Então — de repente — tudo apaga.

A cozinha mergulha em escuridão absoluta.

Droga.

Nem uma fresta, nem o relógio piscando.

A escuridão é tão densa que parece me engolir.

— Ótimo. Acabou a energia da rua inteira — murmuro para mim mesma.

Estendo a mão à frente, tentando sentir o caminho de volta, tocando o vidro frio, depois o balcão. Algo mais denso, mais… macio? Algo rígido sob meus dedos, mas quente.

Passo a mão pela lateral, tentando descobrir ignorada o que é e então

— Você desligou a chave de luz de propósito para passar a mão no meu abdômen? — a voz grave dele explode atrás de mim, tão perto que sinto o ar vibrar contra minha nuca.

Solto um grito, mais de susto que outra coisa, e no segundo seguinte sua mão tapa minha boca.

— Silêncio, vai acordar minha filha — ele sussurra, quente e firme.

Meu coração tenta escapar do meu peito.

Tiro sua mão devagar.

— Eu não sabia que era você — digo baixo, quase ofegante. Minha voz treme. Droga.

Ele fica em silêncio por um momento.

Lembro que sequer consigo vê-lo, mas o sinto ali. A respiração, a presença, o calor — imenso e sólido.

— Parece que vai cair uma tempestade — ele murmura, como se comentasse o clima em pleno fim do mundo.

Dou um passo para trás, tentando seguir até o quarto, mas tropeço — e ele me segura no ar, com precisão que parece prática.

— Você não consegue ficar quieta, Sinclair? — Ele reclama, irritado. Mas há algo mais na voz — cansaço… ou expectativa?

— Me dá agonia ficar no escuro assim. Eu só vou tentar ir pro meu quarto e dormir — sussurro, tentando soar sensata.

Mas antes que eu dê outro passo, ele segura meu braço — firme, quente — e me puxa de volta, me girando até que meu quadril se prense contra o balcão frio.

Meu ar simplesmente para.

— A senhorita vai ficar bem quietinha aqui — ele diz, com os lábios tão próximos que sinto o calor das palavras na minha pele.

Minha boca seca instantaneamente.

Ele está muito, muito perto.

— O senhor precisa estar tão próximo de mim assim? — murmuro, sem perceber que falei até ouvir o som.

Ele ri — um som baixo, rouco, perigoso.

— Chama isso de estar próximo? — ele pergunta.

E antes que eu possa processar, seu corpo encosta no meu, firme, sólido, real.

Uma mão sobe até meu rosto, os dedos tocando meu queixo, a outra pressiona minha cintura, me segurando ali, prisioneira da escuridão e dele.

Meu coração perde qualquer ritmo lógico.

— Senhor Carter… — suspiro.

— Isso é estar próximo, senhorita Sinclair — ele sussurra, com a voz grave demais para ser segura.

Seu rosto desliza perto do meu pescoço e sinto sua respiração quente bater na minha pele. Meu corpo inteiro arrepia, explosivo, sem filtros. O toque leve do seu nariz na minha clavícula faz meus joelhos quase cederem.

E, de repente, aquele cheiro.

Aquele aroma amadeirado, levemente cítrico. Eu conheço esse cheiro.

De onde?

Uma memória tenta emergir do breu da minha mente, mas escapa. Como um nome na ponta da língua.

Sem pensar, ergo o pescoço, abrindo espaço para ele — como se meu corpo respondesse sozinho, como se quisesse ser descoberto.

Quando seus lábios roçam minha pele, perco qualquer fio de lógica. Minhas mãos vão até seus braços, segurando-o, impedindo que ele se afaste.

E é nesse exato segundo que a luz volta.

O mundo explode em claridade.

Piscamos ao mesmo tempo.

E eu o vejo — completamente colado a mim, os olhos intensos, a boca a centímetros da minha.

Ele pisca, se afasta devagar e quando fala, é com a voz mais controlada que ouvi nele:

— Estou curioso para saber qual vai ser a cor do pijama de amanhã.

E simplesmente vira as costas, subindo as escadas como se não tivesse acabado de incendiar o ar entre nós.

Fico parada ali, com o coração pulando do peito, os dedos tremendo, o roupão meio aberto.

Olho para baixo e vejo a renda vermelha aparecendo.

Droga, Laura.

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