Capítulo três

O apartamento está silencioso demais quando entro.

Silêncio, para mim, sempre foi mais pesado do que barulho.

Fecho a porta devagar, como se qualquer ruído pudesse fazer desmoronar algo dentro de mim.

Jogo a bolsa no sofá e fico ali parada, encarando o pequeno espaço que chamo de casa — cozinha compacta, sala com móveis que não combinam, paredes brancas demais.

“Leve roupas para alguns dias.”

A frase do senhor Carter martela na minha cabeça.

Dias.

Nunca passei dias longe de casa desde que…

Não. Não vou pensar nisso.

Respiro fundo e vou até o armário, abrindo-o como quem abre uma caixa de memórias.

As roupas me encaram de volta: simples, gastas em lugares estratégicos, confortáveis — o oposto absoluto do mármore e do cristal do último andar.

Pego uma mala pequena. Queria que fosse maior, mas essa é a única que tenho.

Abro o zíper e começo a jogar roupas lá dentro sem pensar:

duas calças, três camisetas, um moletom.

O moletom me faz hesitar — ele ainda tem cheiro de…

Pausa. Inspiro. Largo-o mesmo assim.

— Você precisa disso — murmuro para mim mesma, sem saber se falo da mala ou de recomeçar.

Minhas mãos tremem quando pego a primeira gaveta.

Calcinhas, meias, pijama.

Nada disso deveria doer.

Mas tudo dói quando o passado b**e junto.

A garganta aperta.

A visão fica um pouco borrada.

Não. Agora não.

Eu paro, apoio as mãos na beirada do armário e deixo a cabeça cair para frente.

O ar entra raso, sai mais raso ainda.

Parece que esquecer de respirar se tornou um hábito.

— Foi sua culpa — uma voz muito antiga, muito dentro de mim, sussurra.

Eu fecho os olhos com força.

Essa voz sempre aparece quando estou prestes a dar um passo pra frente.

Como se me puxasse de volta para o chão — ou para o buraco.

Não chore, Laura. Não chore.

O peito começa a latejar.

Um tremor corre pelos meus braços.

Pego no fundo da gaveta um elástico de cabelo e o enrolo no punho.

Puxo.

Não para machucar.

Apenas o suficiente para me lembrar que estou aqui, agora.

Respirar.

Solto.

Puxo de novo.

O ar volta aos poucos, como quando você gira uma torneira emperrada.

— Você está bem — digo, mesmo sabendo que é meia verdade. — Você está indo trabalhar, só isso.

Coloco o pijama dentro da mala e fecho o zíper com firmeza, como se o som pudesse selar tudo o que tentei enterrar.

Olho em volta do apartamento, um lugar que nunca pareceu lar — mas pelo menos sempre foi meu refúgio.

A mala fica de pé na minha mão.

Sinto o peso dela.

E o peso de tudo o mais.

Por fim, desligo as luzes e abro a porta.

No corredor, antes de sair, penso rápido:

"Se tudo der errado…

Não deixe dar errado dessa vez."

E sigo.

Ainda tremendo por dentro.

Mas caminhando.

...

Não deveria ficar impressionada com a grandeza da casa de Liam Carter.

Trabalho para sua empresa há três anos, devo ter visto fotos em murais, relatórios, revistas internas…

Mas nenhuma imagem chega perto de estar aqui dentro.

Fico parada no meio da sala principal, e por alguns segundos sinto como se o ar tivesse sido tirado dos meus pulmões.

O ambiente é sóbrio, elegante, silencioso.

O piso impecável reflete parte da luz que vem da lareira acesa no centro, e a chama dança num ritmo hipnotizante, aquecendo o ar e afastando a sensação de estar invadindo território proibido.

Tudo ali conversa em tons de preto, cinza e aquele charme luxuoso que se impõe sem pedir licença.

Encostada atrás dos sofás de couro está uma escada em caracol, toda metálica, que sobe com curvas elegantes para o andar superior.

Meus olhos correm pelas paredes altas, pelas duas portas laterais — imagino que uma leve à cozinha e a outra a algum corredor ou mesmo a um espaço que eu nem consigo imaginar.

A mala pesa na minha mão, denunciando minhas origens humildes naquele cenário tão grandioso.

— Boa tarde! Você é a senhorita Sinclair, certo? — pergunta uma voz feminina.

Viro-me e encontro uma mulher de idade avançada. Ela carrega a elegância de quem sabe exatamente onde pisa: postura ereta, roupas impecáveis, e olhos atentos que parecem enxergar tudo.

Aceno com a cabeça.

— Só Laura, por favor. — tento sorrir.

Ela retribui com um aperto de mão firme — não forte demais, não delicado demais. Profissional.

— Sou Mônica, governanta da casa. O senhor Carter ainda vai demorar um pouco para chegar. Pediu que eu lhe mostrasse seu quarto, o da senhorita Lilian e explicasse o funcionamento da casa. Pode me acompanhar?

— Claro — respondo.

Segurar a mala enquanto sigo escada acima é quase um exercício militar. O corrimão gelado escorrega sob os meus dedos, e cada degrau ecoa como se denunciasse minha presença.

— A pequena Lilian tem três anos — começa Mônica, enquanto subimos. — Uma menina muito reservada, mas extremamente carinhosa.

Demora um pouco para se abrir, mas é impossível não se encantar com ela.

Sorrio, imaginando a garotinha… até abrir a boca e cometer o primeiro deslize.

— Creio que a mãe dela trabalha muito como o pai, por isso precisam de alguém para cuidar, certo?

A governanta para, vira-se para mim e o peso que encontro em seus olhos me arrepia.

— Na verdade, a mãe dela morreu há alguns anos. Desde então, é só ela e o senhor Carter. — Sua voz é baixa, quase cuidadosa. — Meu conselho: não toque no assunto. Principalmente perto dele.

O ar some da minha garganta por um segundo.

Tudo bem, Laura, primeira marcação de idiota na casa nova: ✔️

Aceno com um “entendido” silencioso, sem confiar na minha voz.

Voltamos a caminhar e ela abre a primeira porta do corredor.

— Este é o quarto da pequena Lilian. Hoje está em um passeio com uma amiga de escola, acompanhada dos seguranças. — Ela respira fundo antes de continuar. — Vai dormir na casa da amiga. Não é algo frequente. O senhor Carter costuma ser… rígido. Sugiro sempre pedir permissão quando ela quiser sair.

— Entendi, senhora Mônica — murmuro.

Seguimos até o final do corredor e ela aponta cada porta:

— A da frente é o quarto do senhor Carter. Ao lado, o escritório pessoal dele — e esse lugar, sugiro que não entre sem ser chamada. — Então ela empurra a última porta. — E aqui é o seu.

Assim que entro, sinto meu queixo quase cair.

O quarto é maior que o meu apartamento inteiro.

Cama de casal com lençóis impecáveis, guarda-roupa embutido, penteadeira com espelho iluminado e… um banheiro só meu.

É desproporcional, quase absurdo.

— Pode decorar e organizar como preferir — afirma Mônica, gentilmente. — Por hoje, não precisa fazer nada. Arrume suas coisas com calma e sinta-se em casa.

Volto-me para ela, sentindo o coração bater um pouco mais rápido — nervosismo, gratidão, medo, tudo misturado.

— Obrigada.

— Seja bem-vinda, senhorita. — Ela me oferece um sorriso leve e fecha a porta.

De repente, o silêncio cai sobre mim como uma onda.

E é quando percebo:

o tamanho da casa é enorme…

mas nada se compara ao tamanho do que começa aqui.

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