Mundo de ficçãoIniciar sessãoNunca estive nessa parte da empresa — o último andar.
Só de sair do elevador, parece que entrei em outro mundo. O ar aqui é mais frio, cortante, como se houvesse um ar-condicionado para cada parede. A temperatura arrepia meus braços mesmo com o blazer. Tudo é em um tom de cinza claro, tão impecável que parece que ninguém realmente trabalha aqui, apenas flutua sobre o carpete sem deixar rastros. As paredes são vidro espelhado, refletindo meus passos como se eu fosse intrusa em um lugar onde não pertenço. E o silêncio… Deus, o silêncio. É tão absoluto que parece engolir o som, e o único barulho que ressoa é o bater dos meus saltos contra o piso — toc, toc, toc — incisivo, marcando cada passo como se denunciasse minha presença. Sinto vontade de tirar os sapatos só para não irritar o ar ao meu redor. Sigo pelo corredor e logo avisto uma mulher sentada atrás de uma mesa minimalista. Ela está perfeitamente montada — tailleur impecável, maquiagem leve e sem falhas, coque sem um fio fora do lugar. Os dedos bailam sobre o teclado com precisão cirúrgica, como se pertencem à máquina. Aproximo-me com cautela. — Olá — digo, mas minha voz, mesmo baixa, parece ecoar nas paredes geladas, denunciando minha ansiedade. — Tenho uma entrevista marcada agora com o senhor Carter. Ela ergue o olhar para mim, e em um segundo me analisa dos pés à cabeça. Não tenta disfarçar o que vê — e não gosta. Seus olhos estreitam, e sua expressão se contrai em algo entre superioridade e repulsa, como se eu tivesse trazido um pouco do andar dos mortais para o reduto da elite. Meu estômago revira, mas mantenho o queixo erguido. Ela, então, olha para a tela e confirma algo. Em seguida se levanta — os saltos dela não fazem barulho, é quase irritante como até isso nela parece controlado. — Por aqui — diz, fria, profissional. Caminho atrás dela por um corredor curto e liso, cada passo ecoando como um estampido no silêncio. Ela para em frente a uma porta larga, de madeira escura, e b**e três vezes — secas, precisas. Ela entra sem olhar para trás. Espero do lado de fora, sentindo o coração martelar contra as costelas. Ouço murmúrios abafados. Por um momento, penso em virar e correr e nunca mais olhar para trás. Mas então ela abre a porta e me encara novamente. — Pode entrar. Ele está te esperando — anuncia. Sinto meus dedos formigarem. Respiro fundo. E atravesso a porta. A sala tem uma iluminação baixa, mas ainda assim suficiente para enxergar tudo. As paredes e o chão seguem o mesmo tom de cinza, só interrompido pela parede à frente do escritório — totalmente feita de vidro, revelando uma vista de tirar o fôlego da cidade e seus prédios que parecem tocar o céu. No centro, uma mesa ampla, imponente, acompanhada de uma única cadeira vazia. Mordo os lábios enquanto observo cada detalhe. — Sabe jogar xadrez, senhorita Sinclair? — A voz surge atrás de mim, grossa, firme, profunda o bastante para enviar um tremor pela minha espinha. Viro o rosto e finalmente o vejo. Três anos trabalhando nesta empresa e essa é a primeira vez que encaro o tão falado Liam Carter. Seus olhos são a primeira coisa que me prendem — negros, intensos, intimidadores... sufocantes. Cabelos ondulados, escuros, perfeitamente alinhados. Uma barba por fazer contorna o maxilar forte, contrastando com a pele bronzeada. Eu sempre imaginei o CEO como alguém mais velho. Muito mais velho. Mas o homem diante de mim parece ter, no máximo, vinte e nove anos. — Então? — ele reforça. Só então percebo onde está sentado: de frente para um tabuleiro de xadrez. — Eu sei, senhor — respondo. Minha voz quase não sai. Ele faz um gesto sutil, com o queixo, indicando a cadeira à sua frente. Caminho até lá com passos rápidos demais para alguém tentando parecer confiante e me sento, ajeitando-me como se a cadeira pudesse me engolir. Meus olhos grudam no tabuleiro. Não é o xadrez comum, de madeira simples ou plástico desgastado que eu estava acostumada. O tabuleiro é de mármore polido, branco como neve com veios escuros atravessando-o. As peças parecem feitas de vidro — cristal, talvez — catching the faint light da sala e reluzindo como joias. Isso, definitivamente, é o tipo de luxo que eu só via pela tela do celular. — Há quanto tempo trabalha aqui, senhorita Sinclair? — ele pergunta, com naturalidade demais para o impacto que sua voz causa. — O senhor não sabe quantos anos um funcionário trabalha na sua empresa, senhor? — As palavras escapam antes que meu cérebro consiga interceptá-las. Congelo. Levanto o olhar devagar e vejo a sobrancelha dele arquear — afiada, calculista. Droga. — Perdão, senhor — corrijo-me depressa, engolindo seco. — Sei que é um homem muito ocupado. Não teria como saber detalhes de funcionários irrelevantes. Ele faz apenas um sinal com os dedos, indicando que eu posso abrir o jogo. Movo o cavalo sem hesitar — não porque estou tranquila, mas porque minhas mãos precisam estar ocupadas para não tremerem. — Então? — ele repete, como se eu não tivesse escapado da pergunta inicial. — Três anos, senhor — respondo, desta vez com a voz firme. Ele acena, analisa o tabuleiro por um segundo e move uma peça com precisão. Depois ergue o olhar para mim. — Te incomoda saber que, da posição de secretária da senhorita Lincoln, vai... descer para um cargo simples de babá? — ele lança, cada palavra cortada com cuidado. A pergunta me atinge como um golpe direto. Por um segundo, seguro o ar nos pulmões. Olho para o tabuleiro, mexo uma peça e tomo coragem. A verdade é que nunca fui apaixonada pelo que faço. Venho porque tenho contas, porque preciso sobreviver — não porque pertenço a este mundo de paredes de vidro e tapetes caros. — Não me importo, senhor — digo enfim. Ele move outra peça, sem tirar os olhos de mim. — Interessante — murmura. — A maioria se incomodaria com uma... descida. Dou um leve sorriso, quase invisível, e coloco o rei dele sob ataque. — Realmente não me importo. A expressão dele se altera — mínima, mas real. Ele foca no tabuleiro com uma seriedade que me surpreende. — Onde aprendeu a jogar? — pergunta de repente. E aí eu percebo que não estamos falando apenas de peças brancas e pretas. Ele está testando limites, analisando minhas respostas como se também fossem movimentos no tabuleiro. — Meu pai me ensinou — digo. Apenas isso. A verdade justa e suficiente. Ele assente e faz outro movimento. Então avanço. — Xeque-mate — declaro, sentindo meu coração martelar, mas a voz sair leve. Ele me olha — e dessa vez há algo novo ali. Diversão. Curiosidade. Talvez até respeito. — Muito bem, senhorita Sinclair — ele diz, encostando-se na cadeira. — Pode começar hoje? Eu quase acho que ouvi errado. — É... sim, senhor — respondo, surpresa demais para controlar a voz. — Ótimo. Minha secretária vai passar o endereço. — Ele fala enquanto se levanta. — Leve algumas roupas para alguns dias. Se conseguir seguir a rotina com excelência, conversaremos sobre efetivação e sua possível mudança para minha casa. Obrigado pelo seu tempo. Fico parada por um segundo, tentando acompanhar a avalanche de informações. Então me levanto, aceno num gesto mais formal do que sou capaz de sustentar e caminho até a porta. Antes de abrir, sua voz me alcança de novo — profunda, firme, quase… pessoal. — Bom jogo, Laura. Espero que joguemos mais vezes. Mordo os lábios, o peito apertado sem motivo racional. — Sim, senhor — respondo, num sussurro que mal ouço. E saio, sentindo que, de alguma forma, acabei de entrar em um tabuleiro muito maior.






