Capítulo dois

Nunca estive nessa parte da empresa — o último andar.

Só de sair do elevador, parece que entrei em outro mundo. O ar aqui é mais frio, cortante, como se houvesse um ar-condicionado para cada parede. A temperatura arrepia meus braços mesmo com o blazer.

Tudo é em um tom de cinza claro, tão impecável que parece que ninguém realmente trabalha aqui, apenas flutua sobre o carpete sem deixar rastros. As paredes são vidro espelhado, refletindo meus passos como se eu fosse intrusa em um lugar onde não pertenço.

E o silêncio…

Deus, o silêncio.

É tão absoluto que parece engolir o som, e o único barulho que ressoa é o bater dos meus saltos contra o piso — toc, toc, toc — incisivo, marcando cada passo como se denunciasse minha presença.

Sinto vontade de tirar os sapatos só para não irritar o ar ao meu redor.

Sigo pelo corredor e logo avisto uma mulher sentada atrás de uma mesa minimalista. Ela está perfeitamente montada — tailleur impecável, maquiagem leve e sem falhas, coque sem um fio fora do lugar. Os dedos bailam sobre o teclado com precisão cirúrgica, como se pertencem à máquina.

Aproximo-me com cautela.

— Olá — digo, mas minha voz, mesmo baixa, parece ecoar nas paredes geladas, denunciando minha ansiedade. — Tenho uma entrevista marcada agora com o senhor Carter.

Ela ergue o olhar para mim, e em um segundo me analisa dos pés à cabeça. Não tenta disfarçar o que vê — e não gosta. Seus olhos estreitam, e sua expressão se contrai em algo entre superioridade e repulsa, como se eu tivesse trazido um pouco do andar dos mortais para o reduto da elite.

Meu estômago revira, mas mantenho o queixo erguido.

Ela, então, olha para a tela e confirma algo. Em seguida se levanta — os saltos dela não fazem barulho, é quase irritante como até isso nela parece controlado.

— Por aqui — diz, fria, profissional.

Caminho atrás dela por um corredor curto e liso, cada passo ecoando como um estampido no silêncio. Ela para em frente a uma porta larga, de madeira escura, e b**e três vezes — secas, precisas.

Ela entra sem olhar para trás. Espero do lado de fora, sentindo o coração martelar contra as costelas. Ouço murmúrios abafados. Por um momento, penso em virar e correr e nunca mais olhar para trás.

Mas então ela abre a porta e me encara novamente.

— Pode entrar. Ele está te esperando — anuncia.

Sinto meus dedos formigarem.

Respiro fundo.

E atravesso a porta.

A sala tem uma iluminação baixa, mas ainda assim suficiente para enxergar tudo.

As paredes e o chão seguem o mesmo tom de cinza, só interrompido pela parede à frente do escritório — totalmente feita de vidro, revelando uma vista de tirar o fôlego da cidade e seus prédios que parecem tocar o céu.

No centro, uma mesa ampla, imponente, acompanhada de uma única cadeira vazia.

Mordo os lábios enquanto observo cada detalhe.

— Sabe jogar xadrez, senhorita Sinclair? — A voz surge atrás de mim, grossa, firme, profunda o bastante para enviar um tremor pela minha espinha.

Viro o rosto e finalmente o vejo.

Três anos trabalhando nesta empresa e essa é a primeira vez que encaro o tão falado Liam Carter.

Seus olhos são a primeira coisa que me prendem — negros, intensos, intimidadores... sufocantes.

Cabelos ondulados, escuros, perfeitamente alinhados.

Uma barba por fazer contorna o maxilar forte, contrastando com a pele bronzeada.

Eu sempre imaginei o CEO como alguém mais velho. Muito mais velho.

Mas o homem diante de mim parece ter, no máximo, vinte e nove anos.

— Então? — ele reforça.

Só então percebo onde está sentado: de frente para um tabuleiro de xadrez.

— Eu sei, senhor — respondo. Minha voz quase não sai.

Ele faz um gesto sutil, com o queixo, indicando a cadeira à sua frente.

Caminho até lá com passos rápidos demais para alguém tentando parecer confiante e me sento, ajeitando-me como se a cadeira pudesse me engolir.

Meus olhos grudam no tabuleiro.

Não é o xadrez comum, de madeira simples ou plástico desgastado que eu estava acostumada.

O tabuleiro é de mármore polido, branco como neve com veios escuros atravessando-o.

As peças parecem feitas de vidro — cristal, talvez — catching the faint light da sala e reluzindo como joias.

Isso, definitivamente, é o tipo de luxo que eu só via pela tela do celular.

— Há quanto tempo trabalha aqui, senhorita Sinclair? — ele pergunta, com naturalidade demais para o impacto que sua voz causa.

— O senhor não sabe quantos anos um funcionário trabalha na sua empresa, senhor? — As palavras escapam antes que meu cérebro consiga interceptá-las.

Congelo. Levanto o olhar devagar e vejo a sobrancelha dele arquear — afiada, calculista.

Droga.

— Perdão, senhor — corrijo-me depressa, engolindo seco. — Sei que é um homem muito ocupado. Não teria como saber detalhes de funcionários irrelevantes.

Ele faz apenas um sinal com os dedos, indicando que eu posso abrir o jogo.

Movo o cavalo sem hesitar — não porque estou tranquila, mas porque minhas mãos precisam estar ocupadas para não tremerem.

— Então? — ele repete, como se eu não tivesse escapado da pergunta inicial.

— Três anos, senhor — respondo, desta vez com a voz firme.

Ele acena, analisa o tabuleiro por um segundo e move uma peça com precisão.

Depois ergue o olhar para mim.

— Te incomoda saber que, da posição de secretária da senhorita Lincoln, vai... descer para um cargo simples de babá? — ele lança, cada palavra cortada com cuidado.

A pergunta me atinge como um golpe direto.

Por um segundo, seguro o ar nos pulmões.

Olho para o tabuleiro, mexo uma peça e tomo coragem.

A verdade é que nunca fui apaixonada pelo que faço.

Venho porque tenho contas, porque preciso sobreviver — não porque pertenço a este mundo de paredes de vidro e tapetes caros.

— Não me importo, senhor — digo enfim.

Ele move outra peça, sem tirar os olhos de mim.

— Interessante — murmura. — A maioria se incomodaria com uma... descida.

Dou um leve sorriso, quase invisível, e coloco o rei dele sob ataque.

— Realmente não me importo.

A expressão dele se altera — mínima, mas real.

Ele foca no tabuleiro com uma seriedade que me surpreende.

— Onde aprendeu a jogar? — pergunta de repente.

E aí eu percebo que não estamos falando apenas de peças brancas e pretas.

Ele está testando limites, analisando minhas respostas como se também fossem movimentos no tabuleiro.

— Meu pai me ensinou — digo. Apenas isso. A verdade justa e suficiente.

Ele assente e faz outro movimento.

Então avanço.

— Xeque-mate — declaro, sentindo meu coração martelar, mas a voz sair leve.

Ele me olha — e dessa vez há algo novo ali.

Diversão. Curiosidade.

Talvez até respeito.

— Muito bem, senhorita Sinclair — ele diz, encostando-se na cadeira. — Pode começar hoje?

Eu quase acho que ouvi errado.

— É... sim, senhor — respondo, surpresa demais para controlar a voz.

— Ótimo. Minha secretária vai passar o endereço. — Ele fala enquanto se levanta. — Leve algumas roupas para alguns dias.

Se conseguir seguir a rotina com excelência, conversaremos sobre efetivação e sua possível mudança para minha casa.

Obrigado pelo seu tempo.

Fico parada por um segundo, tentando acompanhar a avalanche de informações.

Então me levanto, aceno num gesto mais formal do que sou capaz de sustentar e caminho até a porta.

Antes de abrir, sua voz me alcança de novo — profunda, firme, quase… pessoal.

— Bom jogo, Laura. Espero que joguemos mais vezes.

Mordo os lábios, o peito apertado sem motivo racional.

— Sim, senhor — respondo, num sussurro que mal ouço.

E saio, sentindo que, de alguma forma, acabei de entrar em um tabuleiro muito maior.

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