Mundo de ficçãoIniciar sessãoSinto as lágrimas se acumularem em meus olhos, mas não me permito chorar. Como poderia? Chorar por algo que foi totalmente culpa minha?
Solto um suspiro pesado, coloco as flores entre as duas lápides e ergo o olhar para o céu, lutando para manter as emoções sob controle. Em silêncio, deixo o cemitério, entro no carro e sigo direto para a empresa onde trabalho. Passo o cartão na porta e entro. Funcionários caminham de um lado para o outro; alguns apressados, outros já em seus devidos lugares, concentrados em suas tarefas. Vou até o elevador, aperto o botão de chamada e espero. — Queria ter esse privilégio de, toda quinta-feira, poder chegar ao serviço duas horas depois do horário normal! — ouço a voz de Evelyn. Solto um suspiro, reviro os olhos e não me dou nem ao trabalho de olhar para ela. As portas do elevador se abrem, revelando um homem lá dentro. Por um instante, penso em não entrar, mas é escolher dividir aquele espaço com um estranho ou ouvir mais uma provocação de Evelyn. E, sinceramente, a primeira opção parece muito mais tentadora. Entro no elevador, mantendo uma distância considerável do homem. Aperto o botão do meu andar e lanço um último olhar para Evelyn, que permanece com os olhos fixos nele. Assim que as portas se fecham, apoio o ombro no metal frio do elevador. Ao inspirar fundo, sinto um aroma amadeirado… estranhamente familiar. Mordo o lábio inferior, tentando me lembrar de onde conheço aquele cheiro. Minha barriga ronca por não ter comido nada. Sinto as bochechas esquentarem, ficando vermelhas. No silêncio absoluto do elevador, tenho certeza de que o homem ao meu lado ouviu. O que parece uma eternidade depois, meu andar finalmente chega. Apresso-me para sair. — Coma alguma coisa! — escuto. Quando me viro, as portas do elevador já se fecharam. Ergo a sobrancelha, surpresa. Definitivamente, ele ouviu. Caminho até perto da minha sala, mas paro quando vejo Eloise correndo rapidamente na minha direção. Aí tem problema. — Vem! — diz ela, agarrando meu braço e me puxando para dentro da sala. — O que foi? — pergunto, assistindo-a fechar a porta com pressa. Ela se encosta contra a madeira, como se tentasse impedir que alguém atravessasse por pura força do corpo. — A senhora Lopes está bufando de raiva. E quando eu digo bufando, quero dizer muito nervosa! — avisa. Faço uma expressão completa de confusão. — Por que, dessa vez? Ela não é assim todo dia? — questiono. — Eu fiz uma lista para ela de babás para a filha do CEO! — ela começa, atropelando as palavras — Só que eu não sei qual pepino que aquele CEO tem na cabeça que não contratou nenhuma! Ele deu uma bronca na Lopes para encontrar alguém competente e agora, para me punir, quer me colocar como babá da menina! — despeja, quase sem respirar. Abro um sorriso. — Você sendo babá? Sabe que crianças não podem entrar nas casas de show que você frequenta, né? — brinco. Ela resmunga, mas logo me olha e abre um sorriso torto. — Você é boa com crianças! — afirma com convicção. Arregalo os olhos. — Não sou, não! — retruco imediatamente. — Claro que é! Lembra daquela vez que cuidamos da minha prima? Você conseguiu fazê-la dormir em segundos! — argumenta. Solto uma risada desacreditada. — Claro que consegui! A garota estava MORRENDO de sono e você insistindo em brincar com ela para que parasse de chorar. Eu só deitei ela na cama e ela apagou! — explico. Três batidas ecoam na porta. Eloise junta as mãos, em silenciosa súplica, me pedindo ajuda com os olhos. Eu balanço a cabeça freneticamente, dizendo não no mesmo idioma mudo, até que batem novamente. — Pode entrar! — digo, resignada. Eloise escorrega para o meu lado, ainda tentando me convencer, enquanto eu sigo negando. Lopes entra com seu vestido vermelho impecável, o rabo de cavalo alto como uma coroa e um sorriso perverso que dá calafrios. — Bom dia, Laura Sinclair — cumprimenta. — Bom dia, senhora Lopes — murmuro. Os olhos dela deslizam para Eloise, que parece desejar, com todas as forças, se derreter no chão de cerâmica. — Fugindo de mim, senhorita Lincoln? — pergunta, carregando a voz de deboche. — Não, senhora. Só estava resolvendo o assunto que me pediu! — mente Eloise, sem nem piscar. Lopes ergue uma sobrancelha, claramente duvidando. — Você sabe muito bem que, se não encontrar alguém até daqui a cinco minutos, você mesma vai cuidar da criança! — sentencia, virando de costas. Vejo o puro desespero tomar conta dos olhos de Eloise. — A Laura vai cuidar da criança! — ela anuncia. Meu coração para. Olho para Eloise, incrédula, prometendo silenciosamente arrancar seu couro depois disso, enquanto ela me pede desculpas sem emitir som. Lopes se vira com interesse. — Sabe cuidar de crianças, senhorita Sinclair? — pergunta. Respiro fundo para não quebrar a cara de Eloise ali mesmo. — Sim, senhora Lopes. Já cuidei de muitas crianças ao longo da minha vida — minto como se fosse a coisa mais natural do mundo. Lopes abre um sorriso satisfeito. — Ótimo. Vou marcar hoje mesmo sua entrevista com o CEO — diz, antes de sair da sala sorridente. Olho para Eloise. Ela corre e se esconde atrás da minha cadeira. — Me desculpa, por favor! Me ajuda só nessa, vai! — implora. Reviro os olhos e solto um suspiro longo. — A partir de hoje, você vai fazer tudo o que eu quiser — declaro.






