Mundo de ficçãoIniciar sessão— Você é completamente maluca! — Eloise exclama, arrastando a mão pelos cabelos como se minha vida amorosa inexistente fosse um fardo pessoal dela.
Fico observando Lilian no parquinho, o sol da tarde tingindo seus cachinhos de castanho-dourado enquanto ela dá gritinhos animados. Chamei Eloise no horário do almoço só pra desabafar — e agora começo a me arrepender. Conte para ela, sem esconder nada, sobre as duas noites em que praticamente tropecei no peito nu do meu chefe. E claro… ela pirou. — Eu me sinto maluca — murmuro, abraçando meus joelhos no banco de madeira. Eloise arqueia uma sobrancelha, avaliando-me como se fosse um projeto problemático. — A explicação pra esse seu comportamento é carência! — ela declara, batendo palmas uma vez como quem conclui um caso no tribunal. — É isso. Tudo isso é carência. Aliás, agora que parei pra pensar… eu nunca te vi com um homem. Você é lésbica? — pergunta, completamente séria. Olho para ela indignada e dou um tapa no braço dela. — Não, Eloise! Eu não sou lésbica. E também não estou carente! — digo, tentando soar firme, mas minha voz balança no final. Ela dá de ombros, como se eu estivesse apenas mentindo para mim mesma e ela fosse uma iluminada. Suspiro e volto meu foco para Lilian. Ela agora não está mais brincando — está ajoelhada ao lado de uma garotinha menor que caiu do escorregador. Vejo seus olhinhos preocupados, sua mãozinha limpando as lágrimas da outra menina, sussurrando algo baixinho, provavelmente dizendo que vai ficar tudo bem. Meu peito aperta. Um amor tão grande num corpinho tão pequeno. Acompanho com os olhos enquanto ela ajuda a outra criança a ir até a mãe dela. A mulher agradece, sorri, toca carinhosamente os cabelos de Lilian. E então, ela vira-se para mim. Caminha devagar, o passo arrastado, como se carregasse algo pesado demais para alguém de três anos. Ela segura minha mão com força, pega meu dedo polegar entre os dedinhos pequenos. — Laura… por que minha mãe me deixou? — pergunta, a voz fina tremendo, os olhos enormes inundados de lágrimas, suplicando por uma resposta que ninguém deveria ter que fazer. O mundo simplesmente para. Sinto o ar preso na minha garganta, minha pele arrepiar inteira. Olho para Eloise como se ela fosse meu salva-vidas, porque eu não sei como respirar diante dessa pergunta — quanto mais responder. Eloise entende na hora. Sem julgamento, sem alarde. Ela se abaixa, afasta uma mecha de cabelo do rosto de Lilian e sorri com doçura. — Ei, vem comigo lá no escorrega? Aposto que consigo escorregar mais rápido que você! — ela propõe com entusiasmo encenado. Lilian pisca, hesita, e finalmente solta minha mão, limpando as lágrimas com o dorso da mão. Ela corre com Eloise de volta para o brinquedo, mas antes de subir os degraus, olha para mim. Um olhar que implora por uma verdade, qualquer que seja. Um olhar que marca. Eu fico ali, imóvel, sentindo aquele questionamento ecoar dentro do peito como uma sirene: Por que minha mãe me deixou? E percebo que talvez a pessoa mais perdida naquela pergunta… seja eu. ... Eu estava sentada na beira da cama de Lilian, o quarto mergulhado em uma penumbra tranquila. Ela já dormia fazia um bom tempo — respiração calma, uniforme, os cachinhos espalhados pelo travesseiro — mas eu simplesmente não conseguia sair dali. Meus dedos faziam um carinho lento e repetitivo no braço dela, algo mais para me acalmar do que para confortá-la. Talvez eu precisasse daquele contato mais do que ela. Lilian me lembra demais da minha irmã. A forma como sorri sem pedir permissão ao mundo. O jeitinho doce, preocupado com todo mundo ao redor. A energia infinita, aquele brilho quase impossível de explicar. Minha irmã era assim. Era luz, calor, bagunça e amor. Nós duas éramos inseparáveis — eu a levava comigo pra todo canto, como se o mundo fosse um lugar grande demais para se enfrentar sozinha. E ela fazia tudo brilhar. Até o dia em que… Meu peito aperta. Quando ela morreu, foi como se arrancassem o chão por baixo dos meus pés e um buraco tivesse se aberto dentro de mim. Um buraco que nunca fechou direito. Até hoje ainda sinto falta dela. Como se em qualquer segundo eu pudesse virar para o lado e encontrá-la ali, rindo, pedindo para dar mais um passeio, para brincar só mais um pouco. Mas tudo que resta são ecos, memórias tortas e um peso constante no peito — como se parte de mim tivesse ido embora junto. Solto um suspiro tremido e, finalmente, depois de lutar contra mim mesma, levanto devagar da cama de Lilian. Puxo o cobertor até o queixo dela e deposito um beijo silencioso em sua testa, um gesto que faço sem perceber. Saio do quarto e fecho a porta com cuidado. Quando me viro para ir ao meu, encontro Liam parado no corredor. Ele está encostado na parede, braços cruzados, olhar fixo em mim — observando, atento demais, como se tentasse decifrar minhas camadas uma a uma. Por um instante, sinto aquela onda familiar de alerta percorrer minha pele. Hoje, porém, não tenho forças para enfrentar suas provocações, seus jogos perigosos ou aquele olhar que parece enxergar além do que deveria. Solto um suspiro cansado, exausto, e simplesmente o encaro. Meu olhar diz tudo: não hoje. Algo muda no semblante dele. Ele entende. Nenhuma piada. Nenhum comentário ácido. Nada. Só um silêncio que parece respeitoso demais vindo de Liam Carter. Viro-me e entro no meu quarto. Fecho a porta, me jogo na cama e, pela primeira vez desde que cheguei, deixo o corpo afundar no colchão — sem armaduras, sem máscaras. Talvez, nessa casa enorme, eu esteja aprendendo que nem sempre precisa ser forte o tempo todo.






