Mundo ficciónIniciar sesiónA noite começava a cair quando Anitta atravessou os portões da mansão Brandão pela saída lateral, despedindo-se discretamente dos funcionários da cozinha com um aceno contido, como fazia todos os dias, encerrando oficialmente seu expediente com a postura serena de quem cumpre suas obrigações com dedicação absoluta, mas que naquela tarde carregava dentro do peito um turbilhão que não combinava em nada com a tranquilidade aparente de seus passos.
O céu de São Paulo estava pintado de tons alaranjados e cinzentos, e enquanto aguardava o transporte que a levaria de volta ao seu bairro, ela sentiu o peso das horas anteriores se acumularem em sua mente, especialmente a conversa dentro do carro naquela manhã, os olhares demorados, as pausas carregadas de intenção e, acima de tudo, a maneira como Antony parecera observá-la como se estivesse tentando atravessar a superfície para alcançar algo que ainda não compreendia completamente.
Sua casa era pequena, simples e organizada com o cuidado quase obsessivo de quem encontra na ordem externa uma forma de controlar o caos interno, e ao fechar a porta atrás de si, Anitta apoiou as costas na madeira por alguns segundos, respirando profundamente como se precisasse recuperar o equilíbrio antes de encarar a própria imagem.
Quando finalmente caminhou até o quarto e se posicionou diante do espelho, permaneceu imóvel por longos instantes, analisando cada traço do próprio rosto como se buscasse ali algum indício de que estivesse estampado em sua pele o segredo que carregava.
— Ele desconfia — murmurou para si mesma, passando lentamente os dedos pelos cabelos escuros e ondulados que desciam pelos ombros exatamente como desciam sob a máscara da Domadora.
A lembrança da noite anterior não vinha em flashes fragmentados, mas em uma sequência quase dolorosamente nítida, cada detalhe impregnado em sua memória com a intensidade de algo que jamais deveria ter acontecido e, ainda assim, acontecera.
A sala envolta em meia-luz.
Ela se recordava da maneira como ele permanecera de pé por alguns segundos antes de obedecer, avaliando-a com uma mistura de curiosidade e desafio contido.
— Você tem certeza de que quer isso? — ela perguntara, a voz firme e segura, ainda que por dentro sentisse um calor estranho percorrer-lhe a espinha.
— Tenho absoluta certeza — ele respondera, sem desviar o olhar.
Havia algo na forma como ele falava que não era apenas desejo; era cansaço acumulado, era a necessidade de ser conduzido por alguém que não esperasse dele decisões estratégicas ou respostas empresariais, mas apenas entrega.
Ela fechou os olhos diante do espelho, permitindo que a memória avançasse mais um pouco.
— Aqui dentro, quem conduz sou eu — dissera, aproximando-se lentamente.
— Talvez seja exatamente disso que eu precise — ele murmurara, a voz mais baixa, quase vulnerável.
Vulnerável.
Era essa a palavra que a perturbava.
Porque Antony Brandão não parecia um homem vulnerável à luz do dia, sentado à cabeceira da mesa com o jornal aberto, postura impecável e expressão controlada, mas naquela sala privada ele se despira não apenas da formalidade, mas de algo mais profundo, algo que a tocara de maneira inesperada.
Anitta abriu os olhos de repente, como se pudesse interromper o fluxo das lembranças antes que ele se tornasse perigoso demais.
— Isso não pode se repetir — disse em voz alta, embora sua própria voz não soasse completamente convicta.
O problema não era apenas o fato de ele ser casado, ou de ser seu chefe, ou de ser o pai da menina que dormia abraçada ao desenho onde ela própria aparecia como parte da família; o problema era que, ao recordar o toque firme das mãos dele segurando sua cintura, o modo como ele a olhara como se estivesse tentando memorizar cada detalhe da mulher por trás da máscara, uma parte de seu coração não reagia com culpa, mas com desejo.
Um desejo que não era bruto nem apressado, mas persistente, quase delicado, como uma chama que se alimenta do próprio silêncio.
Ela aproximou-se do guarda-roupa e retirou a roupa da noite, deixando que o couro preto escorregasse por seus dedos antes de vestir a peça com movimentos lentos e conscientes, sentindo a transformação começar ainda antes de colocar a máscara, como se cada camada de tecido apagasse a babá gentil e revelasse a mulher que comandava fantasias sob luzes vermelhas.
Enquanto ajustava o zíper e observava a própria silhueta delineada pelo couro, lembrou-se de outra frase dele naquela noite:
— Você não parece fingir.
Ela havia inclinado a cabeça, curiosa.
— E por que eu fingiria?
— Porque todos fingem em algum momento.
Ela quase sorrira sob a máscara.
Se ele soubesse que fingimento era precisamente o que sustentava as duas vidas que ela levava, talvez não falasse com tanta convicção.
Ao aplicar o batom escuro, mais intenso do que o usado durante o dia, sentiu que a Domadora assumia seu lugar, não como personagem frágil, mas como escudo, como armadura necessária para manter separadas as duas realidades que começavam a se aproximar perigosamente.
Ela colocou o sobretudo preto por cima do traje, cobrindo cada curva, cada traço que poderia denunciá-la, e antes de sair voltou ao espelho mais uma vez, encarando o próprio reflexo como se estivesse diante de uma estranha.
— Você sabe que isso vai acabar mal — sussurrou para si mesma.
Mas a memória da manhã dentro do carro retornou com força, a maneira como ele dissera que certas impressões não saíam da cabeça, o modo como seus olhos haviam descido discretamente até seus cabelos, comparando texturas, buscando coincidências.
Ele não sabia.
Mas suspeitava.
E suspeita era uma semente perigosa.
O celular vibrou indicando que o carro havia chegado, e ao apagar a luz do quarto e trancar a porta, Anitta sentiu que estava mais uma vez atravessando a linha invisível que separava dever de desejo, inocência de risco, estabilidade de precipício.
Enquanto o Uber seguia pelas ruas iluminadas da cidade, refletindo nas janelas o brilho dos prédios altos e das promessas que São Paulo fazia a quem ousasse desejá-las, ela apoiou a cabeça no encosto do banco e permitiu-se, apenas por um instante, imaginar como seria repetir aquela noite não por impulso ou anonimato, mas por escolha consciente.
E essa possibilidade, mais do que qualquer outra coisa, era o que verdadeiramente a assustava.







