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Olhares no café da manhã

Anitta quase não dormira.

E quando dormiu, foi apenas para reviver.

O quarto escuro da pequena suíte de funcionários parecia pequeno demais para conter as lembranças da noite anterior, lembranças que vinham em fragmentos quentes e perigosos — o toque firme em sua cintura, a respiração próxima ao seu ouvido, a voz grave que, mesmo abafada pela máscara, ela reconheceria em qualquer lugar agora.

Seu chefe.

O pai da pequena Mirela.

O marido de Helena.

Ela passou a mão pelos próprios braços como se tentasse apagar a memória da pele que ainda parecia arder sob seus dedos.

— Como ele pôde fazer isso? — murmurou para si mesma, sentando-se na cama.

Helena era linda. Elegante. Impecável. Daquelas mulheres que pareciam feitas de porcelana e aço ao mesmo tempo.

E ainda assim…

Ele a escolhera.

Ou melhor, escolhera a Domadora.

E Anitta odiava admitir o quanto havia gostado. Cada segundo. Cada ordem sussurrada. Cada momento em que ele, poderoso e acostumado a mandar, entregava-se sob sua condução firme.

Ela fechou os olhos por um instante.

Não era apenas físico.

Havia conversa. Havia tensão. Havia algo cru na forma como ele a olhara, mesmo sem saber quem ela era — ou talvez sabendo demais.

— Isso não pode acontecer de novo — ela disse ao próprio reflexo no espelho.

Mas a lembrança do corpo dele, da firmeza das mãos, da maneira como sua voz falhara por um segundo quando ela se aproximara demais…

Seu estômago se apertou.

Ela tomou um banho rápido, vestiu roupas simples — jeans, blusa clara — e deixou os cabelos escuros ondulados caírem soltos sobre os ombros.

Quando desceu para o café da manhã, o aroma de café fresco e pão aquecido preenchia a cozinha. na mansão havia uma hábil cozinheira, a dona Alda.

Na sala de jantar, Antony estava sentado à cabeceira, o jornal aberto diante do rosto, postura ereta, expressão fechada — o empresário impecável, distante, controlado.

Mas sua mente não estava nas manchetes. Ele lia as palavras, mas via outra coisa. Couro vermelho. Máscara negra. Olhos claros por trás do mistério. A Domadora.

O toque dela ainda parecia impresso em sua pele. A firmeza. A segurança. A forma como ela o conduzia não como um homem de poder, mas como um homem.

Ele passou a mão discretamente pelo maxilar.

— O que você fez? — murmurou para si mesmo, quase imperceptível.

Não se sentia culpado da maneira que deveria.

Sentia-se… desperto. Helena era sua esposa. Mantinha a imagem perfeita, o casamento impecável perante a sociedade e os negócios. Mas há quanto tempo ele não sentia aquele arrepio? Aquela expectativa? Aquela entrega?

O som de passinhos apressados ecoou pelo corredor.

— Papai!

Ele imediatamente abaixou o jornal.

Mirela correu até ele, os cabelos ainda bagunçados do sono.

— Bom dia, minha princesa!

Ele abriu os braços, e ela se jogou em seu colo.

— Você vai me levar na escola hoje?

— Ainda não sei — ele respondeu, beijando a testa dela. — Mas posso tentar.

— Promete que tenta?

— Prometo que tento.

Foi então que ele a viu.

Anitta estava parada a alguns passos, observando a cena com um sorriso suave.

Os cabelos escuros ondulados caíam exatamente como os da mulher da noite.

Exatamente.

O olhar dele demorou um segundo a mais do que deveria.

Ela percebeu.

E o ar pareceu mudar.

— Bom dia, senhor Brandão — ela disse, formal.

A voz era a mesma.

Mas ali não havia máscara.

— Bom dia, Anitta — ele respondeu, dobrando o jornal lentamente. — Dormiu bem?

A pergunta era simples.

Mas carregava camadas invisíveis.

Ela sustentou o olhar dele por um breve instante.

— Sim, senhor.

Mentira.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Mirela anda mais animada ultimamente. Muito disso é mérito seu.

— Eu apenas faço meu trabalho.

— Não. — Ele apoiou o cotovelo na mesa. — Você faz muito mais que isso. Minha filha… ela fala de você o tempo todo.

O coração dela acelerou.

— Ela é uma criança carinhosa.

— Ela é feliz com você.

A tensão pairava silenciosa entre eles, densa como fumaça.

Foi interrompida pelo som firme dos saltos de Helena no piso de mármore.

— Bom dia.

A voz dela era elegante e contida.

Antony levantou-se automaticamente, aproximou-se da esposa e beijou-lhe o rosto.

— Bom dia.

Helena sentou-se, servindo-se de frutas e aveia com movimentos precisos.

— Mirela, termine seu café.

— Sim, mamãe.

Helena lançou um olhar breve para Anitta.

— A escola está confirmada para hoje?

— Sim, senhora. Já deixei a mochila pronta.

— Ótimo.

Antony voltou ao jornal, como se nada houvesse mudado. Mas havia. Helena terminou a refeição rapidamente, levantou-se e ajeitou o blazer.

— Tenho reunião cedo. Volto tarde.

Ela beijou a filha na testa.

— Comporte-se.

— Tá bom.

Helena saiu.

O silêncio ficou mais leve — e mais perigoso. Anitta começou a organizar a merendeira de Mirela.

— Hoje temos maçã cortada e suco de uva, certo? — ela disse animada.

— E biscoito? — Mirela perguntou.

— Um só.

— Dois!

— Um e meio.

— Fechado!

Antony observava a interação com algo próximo de inveja e gratidão misturadas.

— Eu levo vocês — ele disse de repente.

Anitta levantou o olhar.

— Não precisa, senhor. Estamos acostumadas a ir caminhando. Passamos na pracinha…

— Eu insisto.

— Mas realmente não há necessidade.

— Eu quero ir.

Mirela fez uma carinha exageradamente doce.

— Aniiiii, deixa o papai levar!

Anitta respirou fundo.

— Está bem.

Minutos depois, os três estavam no carro.

Mirela no banco de trás, falando sem parar sobre um desenho novo que queria fazer.

Anitta no banco do passageiro.

Antony ao volante.

O silêncio entre os adultos era carregado.

— Ela falou de você ontem à noite — ele disse, mantendo os olhos na estrada.

— Falou?

— Disse que você é o lugar favorito dela.

Anitta engoliu em seco.

— Ela é muito especial para mim.

— Eu sei.

Houve uma pausa.

— O senhor… — ela começou, mas interrompeu-se.

— O que foi?

Ela olhou pela janela antes de falar.

— Nada.

Ele a observou rapidamente de lado, como quem tenta encaixar uma peça em um quebra-cabeça invisível.

— Anteontm foi… inesperado — ele disse, a voz cuidadosamente neutra, lançando verde para colher maduro.

O ar dentro do carro pareceu rarefeito. Anitta sentiu o coração bater no mesmo ritmo acelerado da noite anterior, mas manteve o olhar fixo na paisagem que passava pela janela.

— Não sei do que o senhor está falando — respondeu, controlada.

Houve um silêncio breve. Ele tamborilou os dedos no volante, pensativo.

— Estive em um lugar diferente Anteontem á noite.

Ela permaneceu quieta.

— Um lugar… curioso.

O estômago dela se contraiu, mas sua expressão não mudou.

— Imagino que o senhor frequente muitos lugares assim.

Ele soltou um meio sorriso.

— Nem todos deixam impressão.

Ela virou o rosto devagar para encará-lo.

— Impressões podem enganar.

Os olhos dele desceram, quase involuntariamente, até os cabelos escuros ondulados que repousavam sobre o ombro dela. O mesmo tom. A mesma textura. A mesma maneira como a luz parecia brincar nos fios. Coincidência? Ou não?

— Algumas coisas são difíceis de confundir — ele murmurou.

Ela sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que seria confortável, os olhos claros, no mesmo tom da domadora.

— Como o quê?

— Um olhar — ele respondeu, após breve hesitação.

O coração dela disparou, mas sua voz saiu firme:

— Olhares são comuns, senhor Brandão.

Ele respirou fundo.

— Talvez.

No banco de trás, Mirela cantarolava distraída, balançando os pezinhos. O contraste entre a inocência da menina e a tensão contida na frente do carro era quase cruel.

— De qualquer forma — Anitta continuou, retomando o controle — o senhor é casado.

— Eu sei.

— É meu chefe.

— Eu sei.

— E é pai da Mirela.

— Eu sei.

Ela engoliu em seco antes de concluir:

— Então qualquer impressão… deve permanecer exatamente assim. Apenas impressão.

Ele segurou o volante com mais força, os nós dos dedos ficando brancos por um instante.

— E se eu disser que certas impressões não saem da cabeça?

Ela sentiu o peso da pergunta, mas escolheu a prudência.

— Às vezes o silêncio é a melhor resposta.

Ele a observou novamente, atento demais.

— Você é sempre tão enigmática, Anitta?

— Eu apenas faço meu trabalho.

— Faz muito mais do que isso.

O carro desacelerou até parar diante da escola. Mirela se inclinou para frente entre os bancos.

— Chegamos?

Antony desligou o motor, mas não desviou o olhar de Anitta imediatamente. Havia dúvida ali. Curiosidade. E algo começando a se tornar suspeita.

— Chegamos, princesa — ele disse, finalmente abrindo a porta.

Mas, ao sair do carro, levou consigo uma pergunta que não parava de ecoar: coincidência demais… ou destino provocando?

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