Quando abriu a caixa, veio uma onda de lembranças tão rápida que ela quase perdeu o fôlego. Papeizinhos amassados. Canetas de cores diferentes. A caligrafia adolescente dele, a dela, rabiscos, setinhas, piadas internas.
“Hoje peguei manga do pé da dona Maria. Amanhã ela me mata.”
“O inspetor me pegou fugindo da aula. A Ari quase chorou. Não chora, Nana.”
“Ela briga com a mãe e diz que não vai voltar pra escola. Vou lá buscar ela.”
A cada bilhete ela via flashes — eles correndo pela rua de terra, dividindo cuscuz, brigando por besteira, rindo sem motivo nenhum. Eram só lembranças, mas tinham um peso estranho, como se puxassem um fio que ela fingia ter cortado anos atrás.
Depois apareceram bilhetes só dele. A letra mais madura, mais firme.
“A mãe não deixou eu ir estudar fora ainda. Mas eu vou. A Ari tá no Rio, eu preciso chegar até ela.”
“Estudei hoje até doer a cabeça. Queria estar com você.”
“Se eu passar na federal, eu vou te buscar.”
A Ariana respirou fundo, lenta. A garganta qu