Helena
Acordo com o peso do braço de Miguel sobre meu corpo. Está pesado demais, quente demais, invasivo demais. A respiração dele bate na minha nuca, úmida, possessiva, e por um segundo sinto que estou presa dentro de um corpo que não é o meu, dentro de uma casa que não é minha, dentro de uma vida que nunca deveria ter sido minha.
Abro os olhos devagar. O quarto está ainda meio escuro, a luz filtrada pelas cortinas projeta um tom acinzentado nas paredes. Por alguns segundos fico imóvel, tentando entender onde termina o pesadelo e começa a vigília.
Então lembro.
Do hospital.
Da farsa dele.
Do olhar teatral, da fragilidade ensaiada, da voz fraca que não condizia com a agressividade que ouvi no telefone dois dias antes.
Helena, você sumiu. Eu achei que tinha te perdido.
Mentiroso.
O braço dele aperta minha cintura, como se meu corpo fosse propriedade. Meu peito trava. Ele dorme profundamente, satisfeito, seguro, acreditando que me tem de volta.
Se ao menos soubesse.
Bem escondido, está