O dia começou com uma inquietação que Júlia aprendeu a reconhecer. Não era ansiedade pura, nem medo antigo ressurgindo. Era a sensação de que algo precisava ser dito antes que o silêncio começasse a falar por eles.
Daniel saiu cedo para o hospital. Beijou-a na testa antes de ir, como sempre fazia, mas Júlia percebeu o cuidado extra no gesto, como se ele estivesse pedindo tempo sem usar palavras. Ela ficou observando a porta fechada por alguns segundos a mais do que o normal, sentindo o peso das escolhas ainda suspensas no ar.
Não era sobre amor.
Era sobre limites.
Júlia tomou café sozinha, abriu o caderno e tentou escrever, mas as palavras não fluíam. Fechou-o com um suspiro. Decidiu sair. Precisava caminhar antes que a casa começasse a parecer pequena demais para os pensamentos que cresciam dentro dela.
A cidade estava viva, indiferente às decisões pessoais de qualquer um. Pessoas atravessavam ruas, conversavam ao telefone, riam sem saber que, em algum lugar, alguém tentava reorganiz