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De volta ao lugar que nunca esqueceu...

As rodas do avião tocaram a pista com um leve impacto.

Lygia abriu os olhos lentamente.

Durante todo o voo, permaneceu em silêncio. Não conversou com ninguém, não desviou a atenção para os passageiros ao redor e tampouco demonstrou qualquer ansiedade. Do lado de fora da janela, o céu cinzento anunciava mais um dia comum na cidade.

Para ela, porém, aquele não era um dia comum.

Era o início de tudo.

O comandante anunciou o desembarque, e os passageiros começaram a se levantar apressados. Lygia permaneceu sentada por mais alguns segundos, observando a movimentação.

Impaciência.

Ela nunca entendeu por que as pessoas tinham tanta pressa.

Quando chegou sua vez, pegou a pequena mala e caminhou pelos corredores do aeroporto.

O Rio de Janeiro a recebeu com o calor úmido característico da cidade. Assim que atravessou as portas automáticas, respirou fundo.

Por um instante...

Algo dentro dela pareceu despertar.

Um cheiro.

Um vento.

Um som distante.

Era como se aquele lugar lhe pertencesse de alguma forma.

Ela fechou os olhos por um segundo.

Quando os abriu novamente, a sensação havia desaparecido.

— Fraqueza... — murmurou para si mesma.

Continuou andando.

O celular vibrou dentro do bolso.

Na tela apareceu apenas uma palavra.

Tio.

Ela atendeu imediatamente.

— Cheguei.

Do outro lado da linha, a voz grave respondeu sem qualquer emoção.

— Eu sei.

Lygia permaneceu em silêncio.

— Como está se sentindo?

Ela olhou discretamente ao redor.

— Igual a qualquer outro lugar.

Houve alguns segundos de silêncio.

— Não deixe que essa cidade mexa com você.

— Não vai acontecer.

— Observe antes de agir.

A frase foi dita com firmeza.

Ela já a tinha ouvido inúmeras vezes.

Durante dez anos.

— Observe.

— Escute.

— Aprenda.

— Só depois tome qualquer decisão.

Lygia respondeu no mesmo tom.

— Entendido.

A voz tornou-se um pouco mais suave.

— O apartamento já está preparado.

— As chaves?

— Na portaria.

— Certo.

Ela respirou fundo antes de fazer a pergunta que a acompanhava havia anos.

— Tio...

O silêncio do outro lado da linha foi imediato.

— O que foi?

— Por que justamente o Rio?

Mais alguns segundos se passaram.

Então veio a resposta.

— Porque algumas respostas só podem ser encontradas onde tudo começou.

Lygia franziu levemente a testa.

— Que respostas?

— Ainda não é hora.

A ligação foi encerrada.

Ela permaneceu olhando para a tela apagada do celular.

Mais uma vez...

Ele havia respondido sem responder.

 

O apartamento ficava em um prédio discreto, em um bairro movimentado da cidade.

Não era grande.

Também não era luxuoso.

Mas tinha exatamente o necessário.

Uma cama.

Um sofá.

Uma pequena cozinha.

Uma varanda com vista para parte da cidade.

Lygia percorreu cada cômodo em silêncio.

Abriu armários.

Observou as janelas.

Testou as fechaduras.

Analisou tudo.

Era um hábito adquirido ao longo dos anos.

Só depois colocou a mala sobre a cama.

Tomou um banho demorado.

Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo.

Vestiu uma calça jeans, uma camiseta branca e uma jaqueta leve.

Quando terminou, a mulher treinada para chamar o mínimo de atenção havia substituído completamente a jovem elegante que desembarcara do avião.

Olhou seu reflexo no espelho.

Era exatamente isso que queria.

Passar despercebida.

 

Nos dias seguintes, Lygia caminhou pela cidade sem destino aparente.

Conheceu ruas, praças, mercados e pequenas cafeterias.

Entrava, observava, tomava um café e ia embora.

Comprou roupas simples.

Um boné.

Óculos escuros.

Uma mochila discreta.

Nada nela chamava atenção.

Gostava de observar as pessoas.

Os vendedores anunciando seus produtos.

As crianças brincando nas calçadas.

Casais caminhando de mãos dadas.

Famílias reunidas nas mesas dos restaurantes.

Tudo parecia tão...

Normal.

Aquilo lhe causava uma estranha curiosidade.

Ela nunca vivera daquele jeito.

Nunca soube o que era ter uma rotina comum.

Enquanto caminhava, percebeu que algumas ruas lhe provocavam uma sensação difícil de explicar.

Ela diminuía o passo sem perceber.

Olhava ao redor.

Sentia um aperto no peito.

Como se já tivesse passado por ali muito tempo atrás.

Mas não havia lembrança alguma.

Apenas uma sensação.

À noite, voltava para o apartamento e anotava em um pequeno caderno tudo o que havia observado durante o dia.

Era organizada.

Metódica.

Paciente.

Nunca acreditou que as respostas apareciam para quem tinha pressa.

Na quarta noite, permaneceu parada na varanda.

As luzes da cidade iluminavam o horizonte.

Carros cruzavam as avenidas.

O som distante da vida noturna chegava até ela misturado ao vento.

Lygia apoiou as mãos na sacada.

Havia algo naquele lugar.

Algo que insistia em chamá-la.

Fechou os olhos.

Por um breve instante, quase conseguiu ouvir uma risada infantil.

Abriu os olhos imediatamente.

O som desapareceu.

Seu coração bateu um pouco mais forte.

Aquilo nunca acontecia.

Respirou fundo, recuperando o controle.

— O passado não importa... — repetiu em voz baixa, lembrando-se das palavras do tio.

Mesmo assim...

Pela primeira vez em muitos anos, ela duvidou dessa frase.

Talvez o passado importasse, sim.

Talvez fosse justamente ele que a tivesse trazido de volta ao Rio de Janeiro.

E, sem que ela soubesse, cada passo dado naquela cidade a aproximava não apenas da verdade que tanto procurava...

Mas também da pessoa que mudaria completamente o rumo da sua vida.

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