O homem antes da lenda

O despertador sequer teve tempo de tocar.

Tel já estava de pé.

O relógio marcava pouco depois das seis da manhã quando ele abriu a janela do quarto. O sol ainda surgia por trás dos morros, pintando o céu com tons alaranjados. O ar fresco da manhã invadiu o ambiente, e ele permaneceu alguns segundos apenas observando a comunidade despertar.

Era o momento de que mais gostava.

Ainda não havia música alta, nem o movimento intenso das ruas. Apenas o canto dos passarinhos e o som das primeiras pessoas saindo para trabalhar.

Vestiu uma camiseta preta, um bermudão, calçou um tênis branco e ajeitou a barba diante do espelho.

Antes de sair, pegou as chaves sobre a mesa.

Conforme caminhava pelas vielas, cumprimentava quem encontrava pelo caminho.

— Bom dia, Tel! — gritou dona Cida da janela.

Ele sorriu.

— Bom dia, dona Cida. Deus abençoe.

Mais adiante, algumas crianças jogavam bola.

— Aí, tio Tel! Cola aqui pra jogar uma!

Ele deu uma risada.

— Se eu entrar nesse jogo, cês vão pedir revanche até amanhã.

As crianças caíram na gargalhada.

Tel seguiu andando devagar.

Gostava de conhecer cada canto daquele lugar.

Sabia o nome de boa parte dos moradores, conversava com todos e sempre prestava atenção no que acontecia ao seu redor.

Observar era um hábito.

Perceber detalhes era quase um dom.

Enquanto muitos apenas olhavam...

Tel enxergava.

Parou na pequena padaria da esquina.

— O de sempre? — perguntou o padeiro.

— Capricha no café.

Sentou-se do lado de fora enquanto tomava o primeiro gole.

Poucos minutos depois, uma voz conhecida chamou sua atenção.

— Aí, patrão... acordou junto com as galinha hoje?

Tel levantou os olhos e sorriu.

— Fala, GB.

Os dois se cumprimentaram com um aperto de mão.

— Tu tem cara de quem virou a noite.

GB riu.

— Dormir é perda de tempo.

— Até o dia que tu apagar sentado.

Os dois riram.

GB puxou uma cadeira e se acomodou.

— E aí... como é que tá a vida?

— Tranquila.

— E as mulher?

Tel balançou a cabeça, divertido.

— Tu só pensa nisso?

— Ué... alguém tem que pensar. - gb respondeu.

Os dois riram novamente.

GB tomou um gole do café.

— Papo reto... tu nunca pensou em sossegar? Encontrar uma mulher maneira?

Tel ficou alguns segundos em silêncio antes de responder.

— Já pensei.

GB arregalou os olhos.

— Sério?

— Claro.

Sorriu de canto.

— Eu acredito no amor, pô.

Acredito que existe alguém certo pra cada pessoa.

Só não vou sair por aí prometendo coisa que eu não posso cumprir.

GB o observava atento.

— Então por que tu nunca namorou sério?

Tel olhou para o céu antes de responder.

— Porque ainda não apareceu alguém que mexesse comigo de verdade.

Quando acontecer...

Vai ser natural.

Não tem como forçar essas paradas.

GB deu uma risada.

— Rapaz... nunca imaginei ouvir isso de tu.

Tel deu de ombros.

— Meu pai dizia que a gente não escolhe quando o coração resolve bater diferente.

Mas escolhe como trata as pessoas.

Por isso eu prefiro ser sincero desde o começo.

Nunca gostei de iludir ninguém.

Fez uma pequena pausa.

— Agora uma coisa eu aprendi com ele.

GB permaneceu em silêncio.

— A vida passa muito rápido.

Se for pra viver...

Vive sem arrependimento.

Meu velho foi feliz do jeito dele.

Trabalhou, criou a família, viveu com dignidade e partiu sem lamentar a vida que teve.

É isso que eu quero pra mim.

GB sorriu.

— Tu é maluco.

Tel riu.

— Pode até ser mas feliz eu sou.

Os dois terminaram o café e seguiram caminhando pelas ruas, conversando sobre futebol, música e histórias da infância.

Enquanto andavam, Tel observava cada detalhe ao redor.

Uma janela aberta.

Uma bicicleta esquecida na calçada.

Um comerciante organizando a banca.

Um menino ajudando a mãe a carregar sacolas.

Ele sempre prestava atenção em tudo.

Era da sua natureza.

Nada passava despercebido aos seus olhos.

Sem imaginar, do outro lado da cidade, um avião iniciava sua descida.

Entre os passageiros estava uma jovem de olhar frio e coração blindado.

Uma mulher que carregava uma missão.

Uma mulher que mudaria completamente o rumo da vida de Tel.

O destino ainda não havia colocado os dois frente a frente.

Mas isso estava prestes a acontecer.

E, quando acontecesse...

Nenhum dos dois seria o mesmo novamente.

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