O despertador marcou seis horas da manhã.
Tel nem precisou dele.
Como fazia todos os dias, levantou antes mesmo que o aparelho tocasse.
Abriu a janela do quarto e respirou fundo. O céu ainda carregava os primeiros tons do amanhecer, enquanto a comunidade começava a despertar lentamente. Algumas janelas se abriam, comerciantes levantavam as portas de seus estabelecimentos e o cheiro de café fresco já tomava conta das ruas.
Era seu horário preferido.
Gostava do silêncio antes da correria.
Vestiu uma camiseta preta, bermuda jeans e um tênis branco. Passou a mão pela barba, pegou as chaves e saiu de casa.
Enquanto caminhava, cumprimentava quem encontrava.
— Bom dia, Tel!
— Bom dia, meu parceiro.
— Deus te acompanhe, menino! — disse uma senhora da varanda.
— Amém, dona Marlene.
Sorriu de volta.
Gostava de conhecer as pessoas pelo nome.
Achava que respeito começava nos pequenos gestos.
Poucos minutos depois, seus passos seguiram para um lugar que fazia parte da rotina havia anos.
A pequena barraca da dona Cida.
Aos setenta e cinco anos, dona Cida já era conhecida por praticamente todo mundo da região.
Seu café forte, passado na hora, e os bolos caseiros eram famosos entre os moradores.
Mas não era só isso.
Ela tinha o dom de fazer qualquer pessoa se sentir em casa.
Nos últimos dias, uma jovem também havia começado a aparecer por ali.
Sempre no mesmo horário.
Sempre sozinha.
Sempre muito silenciosa.
Dona Cida ainda não sabia muito sobre ela.
Apenas que se chamava Lígia.
Que havia se mudado recentemente para a cidade.
E que tomava café devagar, olhando o movimento da rua como quem tentava decorar cada detalhe.
Naquela manhã não foi diferente.
Lígia estava sentada em uma das mesas de plástico, com um copo de café entre as mãos.
Usava uma calça jeans, camiseta clara e os cabelos presos em um rabo de cavalo.
Discreta.
Sem chamar atenção.
Ou pelo menos era isso que pretendia.
Porque seus olhos observavam tudo.
O senhor que atravessava a rua.
A criança correndo atrás da bola.
O entregador descarregando caixas.
Ela registrava cada detalhe em silêncio.
Não por desconfiança.
Era simplesmente a forma como aprendera a viver.
Dona Cida saiu detrás do balcão com um sorriso.
— Dormiu bem, minha filha?
Lígia ergueu os olhos.
Ainda estranhava aquele jeito carinhoso.
— Dormi, sim.
— Trouxe um pedacinho de bolo. Experimenta.
— Não precisava.
— Eu sei que não precisava.
Mas eu quis.
Lígia hesitou por um instante.
Depois aceitou.
— Obrigada.
Dona Cida sorriu satisfeita.
— Tá vendo? Até sorriu um pouquinho hoje.
Lígia abaixou os olhos.
Nem havia percebido.
Fazia muito tempo que ninguém lhe oferecia gentileza sem pedir nada em troca.
Aquilo era...
Diferente.
Foi então que ela ouviu passos se aproximando.
Dona Cida abriu um sorriso largo.
— Olha quem chegou!
— Bom dia, meu filho! — disse ela assim que o viu se aproximar.
— Bom dia, dona Cida.
Ela já preparava o copo de café antes mesmo de perguntar.
— O de sempre.
Tel riu.
— A senhora me conhece demais.
— Depois de tantos anos, eu já sei até quando tu dormiu mal.
Ela colocou um pedaço de bolo de fubá sobre o balcão.
— Come.
— Eu nem pedi.
— E desde quando precisa pedir?
Os dois riram.
Lígia levantou os olhos.
E o tempo pareceu desacelerar.
Era ele.
Não precisou pensar.
Reconheceu o rosto imediatamente.
A fotografia havia sido estudada tantas vezes que seria impossível confundi-lo.
Mas havia algo errado.
A fotografia nunca fez justiça ao homem que agora caminhava tranquilamente até a barraca.
Ao vivo, ele parecia mais alto.
Mais sereno.
Mais humano.
Ela permaneceu completamente imóvel.
Controlou a respiração.
Controlou o olhar.
Controlou qualquer reação.
Anos de treinamento não permitiriam que demonstrasse surpresa.
— O café da senhora vale acordar mais cedo.
Ela riu.
— Conversa bonita logo cedo... quer desconto?
— Tentar não custa nada.
Os dois riram juntos.
Lígia observava em silêncio.
Era estranho.
Ela esperava encontrar um homem distante.
Frio.
Intimidante.
Mas via alguém que cumprimentava as pessoas pelo nome, ria com naturalidade e fazia questão de escutar quem falava com ele.
Naquele instante, um senhor passou carregando duas sacolas pesadas.
Sem pensar duas vezes, Tel caminhou até ele.
— Deixa que eu ajudo.
— Não precisa, rapaz.
— Precisa, sim.
Em poucos segundos, as sacolas já estavam em suas mãos.
Lígia acompanhou a cena sem dizer uma palavra.
Uma dúvida começou a nascer.
Pequena.
Quase imperceptível.
Mas suficiente para incomodá-la.
"Esse... é o homem que me ensinaram a enxergar?"
A pergunta ficou ecoando em sua mente.
Quando voltou, dona Cida percebeu que os dois ainda não se conheciam.
— Tel...
Ele olhou para ela.
— Essa é a Lígia.
Chegou faz uns dias.
Menina educada demais.
Tel voltou-se para a jovem.
Sorriu com simplicidade.
— Prazer.
Seja bem-vinda.
Lígia sustentou o olhar dele por apenas um instante.
O suficiente.
— Obrigada.
Foi tudo.
Nenhum dos dois disse mais nada.
Mas, enquanto Tel voltava a conversar com dona Cida, uma sensação estranha o fez olhar discretamente para Lígia mais uma vez.
Ela parecia...
Difícil de decifrar.
Falava pouco.
Observava muito.
Havia alguma coisa nela que chamava atenção.
Não pela aparência.
Mas pelo jeito como analisava tudo ao redor.
Ele apenas guardou essa impressão.
Talvez nunca mais a encontrasse.
Ou talvez estivesse completamente enganado.
Lígia terminou o café, agradeceu à dona Cida e saiu caminhando.
Não olhou para trás.
Mas levou consigo uma certeza que não esperava encontrar.
A fotografia contava apenas parte da história.
E, pela primeira vez desde que chegara ao Rio de Janeiro, ela percebeu que talvez a verdade fosse muito mais complicada do que imaginava.