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Capítulo 3: O Veneno do Amor e o Abraço do Abismo

O silêncio que se instalou no escritório foi cortado apenas pelo som da minha própria respiração, que saía em jatos curtos e dolorosos. 

Olhava para o Ethan, esperando qualquer mentira, qualquer desculpa corporativa. 

Mas o sorriso que se expandiu nos lábios dele foi o mais cruel que já vi em toda a minha vida.

— Eu fiz vasectomia, Milena — ele soltou, com a voz calma, quase casual, como se estivesse comentando sobre a variação cambial da bolsa de Londres. — Há quatro anos, logo depois que percebi o tamanho da herança que você tinha e o quanto eu precisava do seu controle nas minhas mãos. Eu não queria um herdeiro Fonseca amarrando as minhas asas. Só quando a Mary apareceu, quando eu realmente me apaixonei, é que eu reverti o procedimento.

Eu travei. 

Minhas mãos, caídas ao lado do corpo, começaram a tremer violentamente. O chão sob os meus pés parecia inclinar, e um zumbido agudo ensurdeceu meus ouvidos.

— Mas... como? — minha voz saiu num sopro, um fiapo de som quebrado. — Como eu não engravidei depois?...

— As vitaminas que ele te dava… — Mary interrompeu, soltando uma risada estridente, com o som doentio ecoando pelas paredes. — Aquilo nunca foi vitamina, sua estúpida.

Ethan deu um passo à frente, ajeitando os punhos da camisa com uma elegância que agora me causava náuseas profundas.

— Você é tão tola, que tomava qualquer coisa que eu te dava… Todas as noites, eu dizia que era para ajudar na sua imunidade, que era um complexo importado para preparar o seu corpo. E você, como uma tola apaixonada, engolia tudo sem questionar. Nunca perguntou o que era, nunca leu um rótulo. Só aceitava porque vinha de mim. Porque você achava que o nosso amor era inviolável.

O choque me atingiu com o impacto físico de um soco no esterno. 

Minha visão ficou momentaneamente borrada, e eu precisei apoiar os nós dos dedos contra a estante de livros para não desabar no mármore. 

Anos. 

Foram anos chorando no banheiro, gastando fortunas em clínicas de fertilidade, me sentindo um rascunho de mulher incompleta enquanto a família pobre dele me ridicularizava em cada jantar. 

Eu tinha me culpado todos os dias por um útero que funcionava perfeitamente, enquanto o homem que eu cobria de ouro e amor me envenenava secretamente pelas costas.

Olhei para os dois, e o amor que eu cultivei por cinco anos no meu peito simplesmente apodreceu, transformando-se em um desgosto cru, denso e fulminante. 

Limpei o rastro de uma única lágrima que ousou escapar e endireitei os ombros, resgatando cada milímetro do sangue Fonseca que corria nas minhas veias.

— Você vai pagar caro por tudo o que fez comigo, Ethan — proferi, minha voz saindo baixa, gélida e perigosamente pausada. 

Travei os olhos nos dele, deixando a promessa queimar no ar. 

— Eu vou quebrar o seu império até não sobrar nem o pó. Guarde as minhas palavras.

Puxei a alça da minha bolsa de grife com força, virei as costas e saí daquela sala sem olhar para trás. 

Caminhei pelo corredor longo do andar executivo com a cabeça erguida, embora o meu peito estivesse em chamas. 

As mesmas funcionárias que tentaram me barrar no elevador agora me encaravam. 

Vi olhares de pena de algumas, sussurros rápidos de outras, e o deboche silencioso de quem sabia da traição antes de mim. 

Eu ignorei todas. 

O orgulho era a única armadura que me restava.

Entrei no meu carro e guiei pelas ruas cinzentas de Londres sem um rumo exato, os reflexos automáticos assumindo o controle enquanto a mágoa e a humilhação tentavam me sufocar. 

Andei pelas ruas de Londres sem rumo, com o vento frio batendo no meu rosto, até que minhas pernas me levaram quase por instinto ao The Blackwood, um bar subterrâneo, rústico e discreto que eu costumava frequentar anos atrás, sempre que vinha visitar a cidade antes de toda essa confusão começar. 

Era um lugar escuro, longe do circuito dos ricaços e dos fofoqueiros da alta sociedade.

Entrei, sentindo o cheiro de madeira velha e tabaco. 

O lugar estava quase vazio devido ao horário. 

Caminhei até uma mesa isolada no canto mais escuro do salão e me sentei, jogando a bolsa de grife de qualquer jeito na cadeira ao lado. 

Eu tentava manter a postura, tentava engolir a mágoa dilacerante que ameaçava me rasgar ao meio, mas minhas mãos tremiam incontrolavelmente.

Uma garçonete se aproximou de passos lentos. 

Ela me olhou de cima a baixo, avaliando meu vestido caro, minha maquiagem borrada pelo choro e meu estado deplorável. 

Havia um desgosto nítido na expressão dela, como se julgasse mais uma mulher rica afogando as mágoas antes do meio-dia.

Aquela olhada foi o estopim para a pouca paciência que me restava.

— Traga logo uma garrafa de uísque e um copo. Agora! — ordenei, com a voz ríspida, transbordando uma irritação que mal cabia em mim.

A mulher ergueu as sobrancelhas, deu de ombros e se afastou. 

Quando voltou, colocou o copo na mesa e começou a servir o líquido dourado com uma lentidão torturante. 

Eu não conseguia mais segurar o choro, os soluços começavam a pressionar meu peito, uma dor física real. 

Antes que ela terminasse de encher o primeiro dedo do copo, perdi o controle.

Avancei e puxei a garrafa diretamente das mãos dela.

Não usei o copo. 

Virei a garrafa de uísque diretamente na boca, sentindo o líquido queimar minha garganta, descendo como fogo e rasgando meu estômago. 

Dei um gole longo, desesperado, fechando os olhos enquanto o álcool forte tentava anestesiar a dor insuportável no meu peito. 

Eu só queria apagar. 

Queria esquecer o sorriso de Ethan, as palavras de Mary, a traição, o roubo, o útero vazio por culpa de uma mentira.

Bebi até sentir minha cabeça flutuar e o tempo perder o sentido. 

Quando o calor do álcool finalmente nublou meus pensamentos e a garrafa estava quase na metade, respirei fundo, sentindo um cansaço extremo e esmagador tomar conta de cada músculo do meu corpo. 

Eu precisava sair dali. Precisava de ar.

Deixei algumas notas de dinheiro amassadas em cima da mesa e me levantei. 

A tontura me atingiu imediatamente. 

Minhas pernas pareciam feitas de gelatina e o chão do bar pareceu se inclinar para o lado. Dei dois passos vacilantes em direção à saída, tonta, completamente bêbada.

Foi quando meu corpo colidiu fortemente contra um obstáculo.

Pareceu que bati contra uma parede de concreto. 

O impacto me fez dar um passo para trás e eu teria desmoronado direto no chão se duas mãos firmes, grandes e quentes não tivessem agido rápido, me segurando firmemente pelos braços.

Soltei um suspiro pesado, o cheiro de uísque se misturando ao perfume importado, amadeirado e absurdamente marcante que emanava dele. 

Olhei para cima com dificuldade, tentando focar a visão. 

O homem era incrivelmente alto, de ombros largos e uma postura imponente que emanava puro poder. 

Ele me encarava com olhos azuis intensos, fixos nos meus, com uma expressão séria e indecifrável.

— Me... me desculpe — balbuciei, tropeçando nas minhas próprias palavras e nos meus próprios pés, arrancando um sorriso bobo e ébrio dos meus lábios enquanto tentava me estabilizar. — Eu não... eu não te vi. Obrigada por não me deixar cair.

Tentei me soltar do seu aperto para continuar caminhando em direção à porta, mas a tontura me fez vacilar de novo. 

Em vez de me soltar, as mãos dele se fecharam com mais firmeza ao redor da minha cintura, colando sutilmente meu corpo ao dele para me dar suporte. 

A voz dele ecoou baixa, profunda e perigosamente firme acima da minha cabeça:

— Você não tem condições de dar dois passos sozinha, senhorita. Venha, eu vou levar você para casa.

Olhei para ele, a menção da palavra casa fazendo meu coração arder com uma agonia renovada. 

Eu não tinha mais casa. Minha casa era uma mentira. Meu lar tinha sido roubado.

— Não! — respondi rápido demais, com a voz embargada, segurando o colarinho da jaqueta dele com as minhas mãos trêmulas enquanto olhava no fundo daqueles olhos misteriosos. — Para casa não... Por favor. Me leva para qualquer outro lugar. Qualquer lugar que fique longe daqui.

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