Mundo de ficçãoIniciar sessãoA raiva fria que me paralisava evaporou em um milésimo de segundo, dando lugar a um vulcão em erupção.
O sangue rugiu nos meus ouvidos e eu não era mais a esposa compreensiva, a investidora elegante ou a mulher gentil que todos conheciam.
Era pura fúria.
Avancei contra os dois como um animal feroz.
Minhas mãos agiram por puro instinto e comecei a pegar tudo o que vi pela frente, o notebook, um pesado cinzeiro de cristal, pastas de couro, canetas caras e joguei na direção deles com toda a força do meu corpo.
— Seus malditos! Desgraçados! — eu gritava, com minha voz rasgando a garganta enquanto os objetos voavam.
Ethan tentou se esquivar, cobrindo o rosto com os braços, mas o cinzeiro passou raspando por ele.
Mary soltou um guincho agudo, se encolhendo contra a parede.
Aproveitando a brecha e o desespero dele para puxar as calças, dei um passo à frente e desferi um chute certeiro, com toda a minha força e a ponta do meu salto agulha, bem no meio das pernas de Ethan.
Ele soltou um gemido sufocado, os olhos quase saindo das órbitas, e caiu de joelhos no chão, curvado de dor.
Mary, vendo o amante caído, entrou em pânico total.
Ela tentou se esgueirar pela lateral da mesa para correr em direção à porta, mas eu fui mais rápida.
Avancei como um raio, estiquei os braços e agarrei aquele cabelo loiro e oxigenado com tanta força que senti os fios enrolarem entre os meus dedos.
Puxei a sua cabeça para trás sem um pingo de piedade.
— Ai! Pelo amor de Deus, me solta! Ethan, me ajuda! — ela berrava, tentando segurar minhas mãos, com o rosto retorcido de dor.
— Você não vai a lugar nenhum, sua vagabunda! — berrei na cara dela, sentindo um prazer doentio em vê-la sofrer.
Antes que eu pudesse arrastá-la dali, senti duas mãos pesadas agarrarem meus braços por trás.
Ethan, ainda arfando e pálido de dor, conseguiu se levantar.
Ele me puxou com violência, quebrando o meu aperto no cabelo de Mary, e me empurrou para longe.
Cambaleei para trás, batendo com as costas contra a parede da sala.
— Chega, Milena! Para com essa merda! — Ethan esbravejou, ajeitando as roupas com as mãos trêmulas, e a voz injetada de ódio.
Apontei o dedo trêmulo para a garota, que choramingava enquanto passava a mão no couro cabeludo.
— Rua! Vá para a rua agora! Você está demitida, sua desgraçada! Suma da minha empresa antes que eu acabe com o que restou da sua cara!
Eu esperava vê-la correr humilhada, mas o que aconteceu a seguir me fez congelar.
Mary parou de chorar e lentamente, ela abaixou as mãos e olhou para mim.
E então, um sorriso cínico, cruel e vitorioso brotou em seus lábios. Ela soltou uma risadinha baixa, olhando para Ethan.
O choque me atingiu.
Olhei para o meu marido, esperando que ele a escorraçasse dali, mas Ethan também começou a rir.
Não era uma risada de nervoso; era um deboche frio, o som de quem detinha o controle absoluto.
— Não, Milena. A Mary não vai a lugar nenhum — Ethan disse, com a voz agora perfeitamente calma, gélida.
Fiquei sem ar, olhando para ele como se tivesse enlouquecido.
— Que merda você está falando, Ethan? Ficou maluco? Eu sou a dona da porra dessa empresa! Eu tenho tanto direito aqui dentro quanto você, ou você já se esqueceu de onde veio o dinheiro que salvou o seu pescoço e o seu sobrenome?
Ethan soltou uma gargalhada alta, com o som ecoando pelas paredes de vidro da sala de reuniões.
Ele caminhou calmamente até Mary, estendeu a mão e a puxou para o seu lado, entrelaçando seus dedos nos dela bem na minha frente.
Meu coração doeu tanto com aquele gesto que parecia estar sendo esmagado por uma prensa.
— Quem prova que você é dona da empresa, Milena? — ele perguntou, inclinando a cabeça com um sorriso de escárnio.
Minhas pupilas se dilataram.
Um frio violento e avassalador subiu pela minha espinha, se instalando no fundo do meu estômago.
Minhas pernas vacilaram.
— Como...? O que você quer dizer com isso? Eu investi cada centavo da minha herança aqui! Peguei dinheiro emprestado com o meu irmão! Eu sou sua sócia, o contrato...
— Você é tão ingênua, Milena. Uma tola completa — ele cortou, desdenhando com um aceno de mão. — Você realmente achava que eu ia deixar o império que construí nas mãos de uma mulher rica e mimada? Você assinava cada documento que eu colocava na sua frente sem ao menos ler. "Assina aqui, amor, é para a contabilidade". "Assina aqui, querida, é burocracia". E você, como uma pateta apaixonada, só assinava.
O choque foi tão brutal que meus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente.
A traição romântica já era dilacerante, mas descobrir que o homem por quem enfrentei minha família tinha me roubado sistematicamente era demais para suportar.
— Você não teve coragem de fazer isso... — minha voz saiu em um sussurro engasgado, com as lágrimas finalmente rolando pelo meu rosto. — Você não seria tão cafajeste...
— Ah, eu tive — ele sorriu.
Perdi a cabeça novamente.
Avancei sobre eles com os punhos cerrados, mas Ethan previu o movimento.
Ele largou a mão de Mary, agarrou meus dois pulsos no ar e me puxou para perto, colando meu corpo ao dele de forma agressiva.
Ele enterrou os olhos nos meus, expelindo seu hálito venenoso no meu rosto.
— Entenda de uma vez por todas, você não tem mais nada aqui dentro. Nem uma única ação. A Miller Corp. é completamente minha agora. Você foi apenas o banco que financiou o meu sucesso. E agora o banco faliu para mim.
Eu queria desabar, queria chorar até secar, mas forcei minhas unhas contra as palmas das mãos, engolindo o soluço.
Eu não daria a ele o gosto de me ver destruída no chão.
Ethan me soltou com um empurrão leve, limpando as mãos no terno como se estivesse sujo.
Ele se virou de costas para mim, olhando para Mary com uma ternura que ele nunca tinha demonstrado por mim nos últimos anos.
Então estendeu a mão e, delicadamente, tocou a barriga da secretária por cima do tecido do vestido.
— E tem mais uma coisa que você precisa saber antes de ir embora de vez — Ethan disse, sem desviar os olhos de Mary. — A Mary está grávida. Eu descobri recentemente que finalmente vou ser pai. O herdeiro da Miller Corp. está aqui dentro.
Aquelas palavras foram como um raio que partiu minha alma ao meio. Senti um choque elétrico percorrer meu corpo.
Grávida.
Flashbacks de todos os nossos anos de casamento inundaram minha mente.
Todas as noites chorando no banheiro, todas as cobranças humilhantes da família dele, me tratando como se eu fosse um terreno infértil e inútil.
Lembrei das dezenas de exames dolorosos que fiz, das consultas médicas, da frustração terrível de ver os testes darem negativo mês após mês.
Os médicos nunca sabiam explicar o motivo real de eu não conseguir engravidar, já que tudo parecia perfeito comigo.
Mary, vendo a minha devastação total, deu um passo à frente, encostando-se no peito de Ethan.
Ela olhou para mim com um desprezo profundo e cruel, apontando o dedo na minha direção.
— Anda, Ethan... — Mary disse, com um sorriso venenoso que me deu náuseas. — Conta logo para essa desgraçada o verdadeiro motivo de ela nunca ter conseguido engravidar de você todos esses anos.







