Mundo ficciónIniciar sesiónA tontura rodopiava na minha mente, e cada passo para fora daquele bar parecia um desafio contra a gravidade.
Sabia que não conseguia me manter em pé sozinha.
Minhas pernas eram puro estopim vacilante, e a única coisa que me impedia de desabar no asfalto frio de Londres eram aqueles braços fortes me sustentando.
Eu piscava com força, mordendo o lábio inferior numa tentativa desesperada de segurar as lágrimas que queimavam para sair.
Não queria chorar na frente de um estranho.
O homem me guiou com uma firmeza impressionante até um hotel ali perto do bar.
Era um estabelecimento simples, longe do luxo cinco estrelas a que eu estava acostumada, mas discretamente acolhedor.
Ele resolveu tudo na recepção em silêncio e logo estávamos subindo pelo elevador.
Ao entrarmos no quarto, ele me conduziu até a beira da cama grande e me soltou devagar, dando um passo para trás.
— Você está segura aqui — ele disse, com aquela voz grave, estendendo a mão para deixar o cartão magnético sobre a cômoda. — Descanse.
Ao vê-lo se virar para sair, um pânico infantil e avassalador me atingiu.
A solidão daquele quarto parecia um eco do vazio que Ethan tinha deixado no meu peito.
Dei um passo rápido à frente, ignorando o quarto girando, e segurei o braço dele.
— Por favor... não vai embora — pedi, com minha voz saindo mais pastosa e embargada do que eu gostaria.
Ele parou, olhando de soslaio para a minha mão no seu braço, e franziu o cenho. Seus olhos azuis eram duas pedras de gelo me avaliando.
— Eu pago cinco mil dólares para você — disparei, desesperada por qualquer migalha de companhia humana que me distanciasse dos meus próprios pensamentos. — Fica aqui. Bebe comigo.
O seu silêncio foi pesado.
Ele soltou o braço do meu aperto com delicadeza, mas sem recuar.
— Eu não posso fazer isso. Você está bêbada demais e não deveria beber mais nada hoje.
— Dez mil! — dobrei a aposta, sentindo uma lágrima teimosa escapar e riscar minha bochecha. — Eu pago dez mil dólares... mas, por favor, eu só preciso de alguém para beber comigo agora. Eu acabei de... acabei de descobrir que fui traída da pior forma possível. Meu mundo acabou lá fora.
Ele me encarou por longos segundos.
E o brilho frio dos seus olhos azuis pareceu suavizar por um milésimo de segundo. Ele soltou um suspiro pesado, daqueles que carregam o peso do mundo, e ajeitou a postura.
— Tudo bem — cedeu, com a voz baixa.
Um alívio trêmulo me invadiu.
Caminhamos até o pequeno balcão do frigobar que havia no quarto.
Para a minha sorte, havia algumas miniaturas de bebidas e uma garrafa de uísque lacrada.
Ele se sentou em uma poltrona um pouco afastada, mantendo uma distância respeitosa, quase profissional.
Aproximei e servi uma dose generosa no copo dele e, em seguida, enchi o meu.
Sentei na cadeira oposta, segurando o copo com as duas mãos para não deixar o líquido transbordar com o meu tremor.
Olhei para o rosto dele, tentando decifrar as linhas marcantes do seu maxilar.
— De onde você é? — perguntei, curiosa.
— Prefiro não falar sobre mim — ele respondeu prontamente, antes de levar o copo aos lábios e tomar um gole preciso.
Eu suspirei, imitando o gesto e sentindo o uísque queimar o que ainda restava da minha sobriedade.
Olhei para ele com um sorriso triste.
— Você é muito misterioso... Um completo enigma.
Eu continuei falando.
Na verdade, a bebida me fez desatar a nós.
Eu falei sobre como Londres costumava ser bonita, sobre como as pessoas podiam ser cruéis, despejando palavras sem nexo enquanto ele apenas bebia e me escutava, mantendo-se sério, como uma estátua de mármore esculpida.
Mas a bebida não perdoa ninguém.
Depois de alguns copos, notei quando o efeito do álcool começou a atingi-lo também.
O seu olhar ficou ligeiramente mais enevoado e a postura antes impecável relaxou um pouco.
Ele olhou para o fundo do próprio copo e soltou uma frase que parecia ter vindo do lugar mais escuro da sua alma.
— Eu não mereço ser feliz.
Parei de falar imediatamente, piscando, tentando processar o peso daquelas palavras.
— Por que você diz isso? O que fez? — perguntei, me inclinando para frente.
Ele não respondeu.
Apenas desviou o olhar, se fechando novamente no seu casulo de mistério.
Suspirei, sentindo uma pontada de empatia por aquela dor que parecia tão profunda quanto a minha.
Levantei com a garrafa para servir mais uma dose para ele, mas a tontura me traiu. Meu pé prendeu no tapete e eu esbarrei fortemente contra o seu corpo.
O uísque do meu copo virou direto no peito dele, encharcando a sua camisa..
— Meu Deus, desculpa! Que droga, eu sou uma desastrada — exclamei, tentando limpar o tecido com as mãos, mas só piorando a mancha.
Ele praguejou baixinho, se levantando da poltrona.
Sem a menor cerimônia, ele começou a abrir os botões da camisa com os dedos ágeis, tirando a peça molhada e a jogando de lado.
Eu paralisei.
O copo escorregou dos meus dedos, caindo no carpete, mas eu nem me importei.
Meus olhos se arregalaram diante do que surgiu à minha frente.
O corpo dele era magnificamente malhado, musculoso na medida certa, sem exageros deformados.
Um tanquinho perfeitamente definido se desenhava no seu abdômen, mas o que realmente roubou o meu fôlego foi a enorme tatuagem em seu peito.
Era a cabeça de um lobo selvagem, detalhada, imponente, que parecia rugir a partir do centro do seu esterno.
Deixando toda a minha compostura de lado, dei um passo à frente, completamente hipnotizada.
Estendi a mão trêmula e foquei na tatuagem.
Olhei bem no fundo daqueles olhos azuis magnéticos e toquei o desenho, sentindo a textura da sua pele quente e os pelos que desciam num desenho em "V" perfeito em direção à sua cintura.
— Por que um lobo? — sussurrei.
No mesmo instante, a sua mão grande envolveu o meu pulso.
Achei que fosse me afastar, ou me dar uma bronca.
Mas ele não me puxou.
Apenas manteve minha mão ali, pressionada contra o calor do seu peito ardente, sentindo os batimentos acelerados do seu coração.
— É o que me representa — ele respondeu, com a voz mais rouca. — Um lobo solitário.
Sorri, uma mistura de embriaguez e uma súbita eletricidade que começou a faiscar entre nós.
Deslizei meus dedos livremente pelo peito dele, apreciando a rigidez dos seus músculos, a textura daquela pele que parecia um refúgio proibido.
Olhei para cima, lutando para focar minha visão diretamente nos seus olhos azuis, que agora queimavam com uma intensidade perigosa.
— Você quer esquecer a dor por um momento? — perguntei, com a voz falhando e o meu corpo clamando por qualquer anestesia que me fizesse esquecer o inferno que vivi poucas horas atrás.
Ele travou o maxilar, com os olhos fixos nos meus lábios.
— Nós dois estamos bêbados, senhorita... Isso não é certo.
Um riso amargo e audacioso escapou da minha garganta.
— Nada nessa vida é certo. Absolutamente nada, lobo solitário.
Antes que ele pudesse despejar mais algum argumento lógico, fiquei na ponta dos pés.
Enlacei meus braços ao redor do seu pescoço e o beijei. No início, foi um toque de lábios trêmulo, mas a barreira cedeu num estalo.
O lobo solitário despertou.
Senti as mãos dele, possessivas e brutais, envolverem a minha cintura com força, suspendendo-me levemente do chão enquanto ele me puxava contra o seu corpo nu.
O beijo se aprofundou, se tornando urgente, faminto, uma colisão de duas almas quebradas buscando a salvação na escuridão daquele quarto.
Ele interrompeu o beijo por apenas um milésimo de segundo, com a respiração vindo em jatos quentes contra a minha boca.
Suas mãos apertaram minha cintura com ainda mais força.
Sua voz veio rouca, grave e carregada de uma promessa da qual eu não teria como escapar:
— Você tem certeza disso?







