(Thales)
A luz piscou.
Não era a luz do teto, podre e fraca.
Era a luz dentro da minha cabeça. Cada piscada vinha acompanhada de uma nova explosão de branco e dor.
O soco no queixo, seco e preciso, fez minha cabeça girar para o lado.
Senti algo ceder no meu nariz de novo, um estalo úmido que me fez ver estrelas.
O gosto de cobre, velho e novo, encheu minha boca.
Respirar era um trabalho. O ar assobiava e rangia através do nariz entupido de sangue e cartilagem quebrada.
Tentei falar, explicar, negociar, algo, mas outro soco, dessa vez na boca do estômago, tirou todo o ar que me restava.
Eu me dobrei, tanto quanto as correntes permitiam, e cuspi um jato escuro de sangue e bile no chão de cimento sujo.
Forças, eu não tinha mais.
Eles tinham me mantido assim, nessa dança de dor metódica, por mais de duas horas.
Talvez três.
O tempo tinha virado uma massa elástica de agonia.
O pior era a lógica sádica deles, tinham me arrastado para um canto, feito uma cirurgia de merda para ti