Marco Mancini 003

O escritório estava silencioso. Mantive-me diante do tablet, dedos deslizando com precisão sobre a tela. Ricardo estava ao meu lado, imóvel. Alexandre apoiava-se na mesa, olhos fixos em mim, lábios comprimidos, sobrancelhas levemente franzidas. A frustração dele ainda pairava no ar, como se cada escolha minha pudesse testá-lo.

— Revisamos dezenas de perfis — disse Ricardo, baixinho. — Muitos têm influência, mas não atendem aos critérios do senhor Alexandre.

Inclinei-me sobre o tablet, deslizando, parando em alguns nomes, descartando perfis com um gesto simples da mão. Alexandre estreitou os olhos, pressionou a mandíbula, silencioso, mas perceptível. Eu não desviava o olhar. Um leve franzir de testa indicava apenas análise, nada mais.

— Quero apenas três candidatas — falei, voz calma, firme, quase medida. — As que realmente garantam o legado.

Ricardo anotava em silêncio, atento a cada gesto meu. Continuei deslizando, tocando, inclinando levemente a cabeça. Dois nomes permaneceram aceitáveis, mas não ideais. Então apareceu ela: Camila Zucconelli.

— Ela é a única herdeira de Ottavio Zucconelli — comentou Ricardo, baixinho. — Família influente, fortuna consolidada, alianças firmes. Cumpre todos os critérios.

Apoiei o queixo nas mãos, inclinando levemente a cabeça, ponderando cada detalhe em silêncio. Respirei devagar, olhos fixos no tablet. Um leve franzir de sobrancelha indicava cálculo, avaliação. Escolher mal poderia gerar consequências inesperadas. Toda decisão minha carregava risco: alianças, poder, reputação. Nada poderia ser deixado ao acaso.

— Não quero fotos — disse, firme. — Aparência não importa. Apenas o sobrenome. É isso que define o peso da família.

Ricardo hesitou por um instante, deslizando o tablet levemente em minha direção, como se mostrar a foto pudesse facilitar o processo. Mantive os olhos na tela, fixos, impassível.

— Ricardo — falei, cortante na medida exata — Não quero ver. O que importa é o sobrenome. Nada mais.

Alexandre franziu o cenho, lábios comprimidos. Cruzei os braços, mantendo os ombros levemente tensos. Cada gesto mostrava atenção e neutralidade.

Passei o dedo sobre o nome de Camila. — Dezoito anos — murmurei. Jovem demais, mas a única que cumpria todos os critérios. A idade era um detalhe que poderia ser administrado, não um obstáculo.

Ricardo anotou rapidamente. Desviei os olhos do tablet por um instante, ponderando a reação de Ottavio Zucconelli. Possíveis objeções, resistência, recusa. Cada cenário passava rapidamente pela minha mente, mas não era hora de considerar sentimentos. Apenas fatos. Nada pessoal. Apenas estratégia.

Toquei a tela, marcando Camila como escolhida. Dois perfis secundários permaneceram. Recostei-me, mãos cruzadas atrás das costas, os olhos percorrendo a cidade abaixo. Um leve arqueamento de sobrancelha indicava satisfação contida, sem revelar nada além do necessário.

— Está decidido — disse, sem desviar o olhar. — Duas aceitáveis, e a única que cumpre todos os critérios: Camila Zucconelli.

Fiz um gesto breve para Ricardo.

— Agende uma reunião com Ottavio Zucconelli — disse. — Preciso confirmar pessoalmente que ele concorda com a aliança. Sem objeções.

Ricardo inclinou a cabeça, assentindo brevemente.

Apoiei os cotovelos na mesa por um instante, olhos semicerrados, franzindo levemente a testa. A tensão era visível apenas nos gestos sutis. Cruzei os braços novamente, olhando para Alexandre. Ele permanecia em silêncio, mãos apoiadas na mesa, expressão rígida, mas atento.

O nome de Camila estava registrado. Nenhuma foto seria necessária. Apenas sobrenome e herdeiro. Cada passo calculado, cada gesto medido. O futuro da família Mancini e o destino de Camila começavam a se desenhar em silêncio, entre decisões, movimentos e olhares ponderados.

Por um instante, pensei no que viria depois: reações, discordâncias, a força das alianças. Mas isso não me afetava pessoalmente. Nada de amor, desejo ou ligação emocional. Apenas lógica, legado e estratégia. Cada movimento tinha de ser perfeito, cada decisão, irrevogável. Qualquer falha seria vulnerabilidade.

A cidade se estendia lá fora, iluminada e indiferente. A chuva continuava caindo, borrando o horizonte em cinza. O contrato seria firmado. Assinaturas, cláusulas, termos claros — tudo do jeito que sempre funcionou. Uma aliança entre famílias poderosas começava a se desenhar, não por desejo, mas por necessidade.

E, enquanto observava o mundo lá fora, percebi que, por mais que nada me dobrasse, ainda havia variáveis que não controlava. Pequenos detalhes que poderiam mudar tudo. E eu estava pronto para isso.

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