O dia amanheceu cinza sobre a cidade. Entrei no escritório com a mesma postura de sempre. O céu carregado refletia minha própria indiferença; nada parecia capaz de alterar minha rotina, nem mesmo a urgência estampada no rosto do meu pai. Ricardo me seguia, silencioso, atento a cada movimento.
Alexandre já me esperava, apoiado na borda da mesa, os braços firmes sustentando parte do peso do corpo como se isso reafirmasse a autoridade que ele tanto prezava. Seus olhos estavam fixos em mim, carregados da frustração da semana anterior, mas havia algo mais: urgência. Ele queria avançar. Resolver.
—Marco — começou, a voz grave e firme — já se passou uma semana desde que falamos. Hoje precisamos definir a candidata. Um sobrenome com peso, influência real. Não há espaço para hesitação.
Mantive os olhos na janela, estudando o horizonte. Cada palavra dele parecia irrelevante, mas ouvi. Sempre ouço.
— Não pretendo me envolver emocionalmente — disse, com a calma de quem não precisa convencer ninguém. — Se vou cumprir isso, será apenas uma formalidade. Aparência, juventude, e beleza… são dispensáveis. Só quero que o sobrenome seja forte.
Alexandre respirou fundo, e o misto de resignação e desaprovação no rosto dele ficou ainda mais evidente.
— Muito bem — disse, batendo levemente a mão na mesa — Então será apenas um contrato. Que seja eficiente e discreto.
Fiz um gesto para Ricardo, que trouxe o tablet com listas de famílias influentes. Cada nome vinha acompanhado de fortuna, conexões políticas, alianças estratégicas, histórico familiar. Passei os dedos pela tela, analisando friamente. Nenhum detalhe escaparia do meu olhar crítico.
— Aqui — disse, apontando para alguns nomes — Essas famílias têm prestígio suficiente. Mas quero confirmações sobre herança e alianças futuras. Aparência e charme são irrelevantes. Reputação é tudo.
Ricardo assentiu, digitando rapidamente, organizando contatos. Sabia exatamente o que eu esperava: eficiência, nada de distrações, nada de formalidades vazias. Cada passo é calculado, cada decisão, estratégica.
— Marco — Alexandre aproximou-se, tentando reforçar a autoridade — Lembre-se: não é apenas um herdeiro. É o legado da família, a continuação do nome Mancini. Escolha com precisão.
Soltei um suspiro contido, sem desviar o olhar do tablet.
— Eu sei — respondi, frio — Encontrarei a candidata que cumpra os critérios.
O silêncio se prolongou, preenchido apenas pelo som da chuva contra os vidros. Ricardo observava, atento a qualquer nuance. Não há espaço para sentimentos aqui. Cada palavra, cada movimento, cada decisão é parte de um cálculo maior.
Por alguns segundos, refleti sobre o que aquela escolha representaria. Não havia interesse em amor, desejo ou afeição. Apenas sangue, sobrenome, poder. Qualquer detalhe mal calculado seria vulnerabilidade.
— Está decidido — concluiu meu pai. — Quero que tudo seja encaminhado com cuidado, sem exposições desnecessárias.
Voltei-me para a janela, deixando os ombros relaxarem apenas o suficiente para não parecer um gesto de rendição. O olhar permaneceu fixo na cidade, nas luzes distantes que pulsavam indiferentes lá embaixo. A decisão já estava tomada. Não havia hesitação, apenas cálculo.
Um contrato seria firmado. Assinaturas, cláusulas, termos claros — tudo do jeito que sempre funcionou. Uma aliança entre famílias poderosas começava a se desenhar, não por desejo, mas por necessidade. Era assim que impérios se mantinham de pé.