Marco Mancini 004

O escritório de Ottavio Zucconelli tinha vista para o mar, luz filtrada pelas persianas desenhando linhas no chão. Permaneci de pé, de costas para a porta, mãos cruzadas atrás das costas. Alexandre e Ricardo estavam ao meu lado, discretos, atentos. Ottavio se acomodou atrás da mesa, mãos apoiadas, olhar firme.

— Marco — começou — quero ter certeza de que entende a situação. Minha filha… — pausou, olhos percorrendo a sala — tem apenas dezoito anos.

Inclinei levemente a cabeça, mantendo meu olhar fixo em Ottavio. Um gesto simples.

— Entendo — disse, com a voz calma. — Ela é a única herdeira.

Ottavio respirou fundo, pressionando os lábios.

— Marco, ela é jovem, tem vida própria. Amigos, desejos… não será fácil convencê-la.

Permaneço imóvel, dedos cruzados atrás das costas. Um leve franzir de sobrancelha indica que escuto, nada mais.

— Isso será administrado — respondi. — O que importa é a aliança. Sobrenome e herdeiro. Apenas isso.

A porta se abriu. Ela entrou, passos firmes, olhando ao redor. Me viu de costas, mãos cruzadas, postura imóvel. Não me virei. Ela só tinha minha silhueta.

— Pai! — gritou, correndo alguns passos — Por favor, não faça isso comigo! Não posso me casar com um homem que eu nem conheço!

Ottavio respirou fundo, calmo, tentando se explicar:

— Camila… sei que é difícil, mas isso é o melhor a se fazer. Um contrato entre nossas famílias será benéfico para ambas. Protege você e mantém o legado.

Ela balançou a cabeça, quase em desespero:

— Benéfico? Isso é absurdo! Eu jamais vou aceitar! Casamento arranjado é coisa de velho!

Ela se agitou, gritando e gesticulando, e eu continuei de costas, imóvel, cruzando os braços, apenas franzindo levemente a testa. Observava cada gesto dela. Ela era histérica, rebelde, nada submissa. Tive que admitir mentalmente: será trabalhoso lidar com ela. Muito trabalhoso.

— Marco não quer ver você — disse Ottavio, cauteloso. — Apenas a aliança importa.

— Não! — continuou, passos curtos, impacientes — Não vou me casar! — Sua voz tremia, cheia de raiva e medo.

Ela respirou fundo, tentando conter o choro, implorando:

— Pai, por favor, não faça isso comigo! Não posso perder minha vida assim!

Ottavio suspirou, sério, firme:

— Camila… é o melhor a se fazer. Um contrato. Um benefício para ambas as famílias. Você terá segurança, influência, e respeito.

Ela recuou, os punhos cerrados, olhando para mim de relance, mas eu continuei imóvel. Não precisei me virar. Cada palavra, cada gesto, cada explosão de raiva ou medo, registrava-se em minha mente.

Ottavio respirou fundo e, com firmeza, disse:

— Vá agora, Camila. Depois teremos uma conversa mais calma.

Ela hesitou, olhando para ele, os olhos cheios de indignação e medo, mas recuou e saiu, a porta batendo com força atrás de si.

Quando ela finalmente saiu, respirei fundo e voltei-me lentamente para a janela, braços cruzados. O silêncio do escritório voltou, pesado e estático. Pensei comigo mesmo: uma mulher rebelde, histérica, que não se curva… vai ser trabalhoso. Mas é apenas mais um cálculo, apenas mais um passo para o cumprimento do que é exigido.

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