Mundo de ficçãoIniciar sessãoO escritório de Ottavio Zucconelli tinha vista para o mar, luz filtrada pelas persianas desenhando linhas no chão. Permaneci de pé, de costas para a porta, mãos cruzadas atrás das costas. Alexandre e Ricardo estavam ao meu lado, discretos, atentos. Ottavio se acomodou atrás da mesa, mãos apoiadas, olhar firme.
— Marco — começou — quero ter certeza de que entende a situação. Minha filha… — pausou, olhos percorrendo a sala — tem apenas dezoito anos. Inclinei levemente a cabeça, mantendo meu olhar fixo em Ottavio. Um gesto simples. — Entendo — disse, com a voz calma. — Ela é a única herdeira. Ottavio respirou fundo, pressionando os lábios. — Marco, ela é jovem, tem vida própria. Amigos, desejos… não será fácil convencê-la. Permaneço imóvel, dedos cruzados atrás das costas. Um leve franzir de sobrancelha indica que escuto, nada mais. — Isso será administrado — respondi. — O que importa é a aliança. Sobrenome e herdeiro. Apenas isso. A porta se abriu. Ela entrou, passos firmes, olhando ao redor. Me viu de costas, mãos cruzadas, postura imóvel. Não me virei. Ela só tinha minha silhueta. — Pai! — gritou, correndo alguns passos — Por favor, não faça isso comigo! Não posso me casar com um homem que eu nem conheço! Ottavio respirou fundo, calmo, tentando se explicar: — Camila… sei que é difícil, mas isso é o melhor a se fazer. Um contrato entre nossas famílias será benéfico para ambas. Protege você e mantém o legado. Ela balançou a cabeça, quase em desespero: — Benéfico? Isso é absurdo! Eu jamais vou aceitar! Casamento arranjado é coisa de velho! Ela se agitou, gritando e gesticulando, e eu continuei de costas, imóvel, cruzando os braços, apenas franzindo levemente a testa. Observava cada gesto dela. Ela era histérica, rebelde, nada submissa. Tive que admitir mentalmente: será trabalhoso lidar com ela. Muito trabalhoso. — Marco não quer ver você — disse Ottavio, cauteloso. — Apenas a aliança importa. — Não! — continuou, passos curtos, impacientes — Não vou me casar! — Sua voz tremia, cheia de raiva e medo. Ela respirou fundo, tentando conter o choro, implorando: — Pai, por favor, não faça isso comigo! Não posso perder minha vida assim! Ottavio suspirou, sério, firme: — Camila… é o melhor a se fazer. Um contrato. Um benefício para ambas as famílias. Você terá segurança, influência, e respeito. Ela recuou, os punhos cerrados, olhando para mim de relance, mas eu continuei imóvel. Não precisei me virar. Cada palavra, cada gesto, cada explosão de raiva ou medo, registrava-se em minha mente. Ottavio respirou fundo e, com firmeza, disse: — Vá agora, Camila. Depois teremos uma conversa mais calma. Ela hesitou, olhando para ele, os olhos cheios de indignação e medo, mas recuou e saiu, a porta batendo com força atrás de si. Quando ela finalmente saiu, respirei fundo e voltei-me lentamente para a janela, braços cruzados. O silêncio do escritório voltou, pesado e estático. Pensei comigo mesmo: uma mulher rebelde, histérica, que não se curva… vai ser trabalhoso. Mas é apenas mais um cálculo, apenas mais um passo para o cumprimento do que é exigido.






