O jantar naquela noite parecia uma peça ensaiada. A sala de jantar estava impecável, a luz suave refletindo no piso polido e nos detalhes dourados da decoração. Minha mãe, como sempre, sentava-se com postura perfeita, o rosto sereno demais, como se o controle fosse seu oxigênio. Meu pai estava quieto, sério, distante, mas firme, me observando de um jeito que me deixava inquieta. Eu me sentia presa, engolindo cada mordida sem conseguir digerir nada.
— Camila, mastigue direito — disse minha mãe, com a voz suave, mas cortante. — Não se sente de qualquer jeito, menina. Tudo deve ser elegante. Cada gesto, cada palavra… Você tem que ser perfeita.
Suspirei, jogando os talheres na mesa com um leve estalo. Não aguentava mais aquela perfeição obrigatória.
— Estou cansada, mãe — murmurei, mais para mim do que para ela. — Não posso simplesmente comer e sorrir o tempo todo, como se nada estivesse acontecendo?
Ela apenas ergueu uma sobrancelha, desaprovando em silêncio, sem realmente reagir.