Mundo de ficçãoIniciar sessãoA madrugada avançava implacável nos corredores da emergência. Charlote foi levada às pressas em uma cadeira de rodas, enquanto Nyla, encharcada e trêmula, era barrada na porta por uma enfermeira.
— Senhora, por favor, aguarde aqui fora. Não é permitida a entrada.
Nyla não conseguia desviar o olhar da porta que se fechava. Sentia-se pequena, impotente. Suas mãos, ainda marcadas pelas manchas vermelhas da alergia, agarraram o braço da enfermeira em um gesto de puro desespero. — Salve minha filha... por favor, salve a minha menina! — Sua voz era um fiapo, quebrada por soluços que ela não conseguia mais conter.
— Faremos o nosso melhor. Tente se acalmar — consolou a profissional.
Nyla apenas assentiu. A adrenalina que a sustentara na chuva começou a dissipar, deixando em seu lugar uma exaustão paralisante. Ela escorregou pela parede até se agachar no chão frio. A sensação de quase perder Charlote fora como ver o mundo desabar em um abismo sem fim — uma dor que ela só sentira uma vez antes, há seis anos, na frieza de uma sala de visitas de uma prisão.
Quando tentou se levantar, as pernas falharam, como se estivessem presas em um pântano invisível. Antes que caísse, uma mão firme amparou seu braço.
— Cuidado.
Nyla ergueu os olhos marejados. — Dr. Otto?
Era o Dr. Otto Martins, o pneumologista que tratara Charlote anos atrás. Ele sempre admirara a força de Nyla, uma mãe solo que enfrentava o mundo para proteger a pequena. — Vi a Charlote entrando agora pouco. O que aconteceu, Nyla?
— Cheguei em casa e ela estava pálida... mal conseguia respirar. Ela dizia que doía muito... — Nyla explicou, a voz trêmula.
— Não se desespere. É muito provável que seja a persistência do canal arterial, aquele problema antigo que discutimos. Eu avisei que precisávamos da cirurgia intervencionista o quanto antes. Por que continuou adiando?
Nyla baixou a cabeça, o rosto ardendo de vergonha e tristeza. — Eu... eu tive medo.
O risco. Charlote era o seu universo inteiro. Quando você deposita toda a sua razão de viver em uma única pessoa, qualquer risco parece um abismo intransponível. Além disso, havia a barreira financeira; o valor da cirurgia cardíaca era uma montanha que ela nunca conseguia escalar.
Meia hora depois, o médico da emergência trouxe notícias. Charlote já estava estabilizada no quarto. — Ela está bem por enquanto, mas o problema cardíaco congênito não pode mais esperar. Você e seu marido precisam decidir sobre a cirurgia o mais rápido possível.
Ao ouvir a menção ao "marido", a expressão de Nyla escureceu. O pai de Charlote estava em algum lugar de Ulares, em um prédio de vidro, odiando a mulher que agora lutava para salvar a vida da filha dele. Ela apenas assentiu, em silêncio.
No meio da noite, Charlote abriu os olhos na enfermaria comum. — Mamãe...
Nyla aproximou-se imediatamente, acariciando o rosto da pequena. — Você está com fome, meu amor? Quer que a mamãe compre algo?
Charlote balançou a cabeça devagar contra o travesseiro. — Mamãe, eu estou muito doente?
— O médico disse que você vai melhorar logo. Vamos tirar umas férias da escola por uns dias, o que acha?
A pequena esboçou um sorriso fraco, mas logo franziu o narizinho. — Mãe... por que você está com cheiro de álcool? Você bebeu?
Nyla sentiu uma pontada no coração. Beijou a testa da filha para disfarçar a dor. — A mamãe teve um jantar de trabalho e tomou um pouquinho de vinho, só isso. Quando você sair daqui, que tal irmos ao KFC? Frango frito e aquele purê de batatas que você adora?
Os olhos de Charlote brilharam levemente. — Eu quero muito o purê de batatas, mamãe.
Nyla sorriu, mas por dentro, ela sabia: o tempo das desculpas havia acabado. Ela teria que usar cada centavo daquele dinheiro manchado de ódio para garantir que o coração de Charlote continuasse batendo.
Mal as palavras saíram de sua boca, uma voz gentil ecoou pela porta:
— Um purê de batatas saindo agora!
Otto entrou no quarto trazendo uma sacola com comida morna.
— Charlote, você precisa se cuidar e melhorar logo. Não deixe sua mãe tão preocupada, mocinha.
Nyla começou a alimentar a filha, colher por colher. Otto , observando em silêncio, notou as manchas vermelhas que ainda persistiam no dorso da mão dela.
— Você está tendo uma reação alérgica severa, não está? — Ele estendeu um tubo de pomada. — Comprei isso para você. Use.
Nyla ficou surpresa com o gesto.
— Obrigada, doutor. Sinto que sempre acabo incomodando você quando venho ao hospital.
Ela entendia perfeitamente o que o olhar de Otto dizia, mas não podia retribuir. Nyla sentia-se presa em um pântano de dívidas e segredos; não tinha o direito de arrastar um homem bom como ele para a sua lama.
Assim que o médico saiu, Charlote olhou para a mãe com um brilho astuto nos olhos.
— Mamãe, o Tio Otto gosta de você.
Nyla esboçou um sorriso triste, tentando disfarçar o cansaço.
— Você está ficando muito precoce, pequena.
— É verdade! — Charlote insistiu, antes de baixar o tom de voz. — Mãe... você ainda pensa no papai? Do mesmo jeito que eu penso?
Os dedos de Nyla congelaram sobre a colher.
— Charlote... seu pai se foi há muitos anos, você sabe disso.
— Eu sei. Mas eu preferia que você fosse feliz, mamãe. Mesmo que encontrasse um padrasto.
Nyla abraçou a filha com força, sentindo o calor daquele pequeno corpo que era sua única razão de existir.
— A mamãe já é muito feliz só por ter você.
A pequena suspirou, aninhando-se no abraço.
— Se ao menos o papai estivesse aqui... Ele era mais bonito que o Tio Otto?
Na mente de Nyla, a imagem de Ethan surgiu instantaneamente. Aquele rosto esculpido, que mesmo em meio a uma multidão ou sob a luz fria de um tribunal, capturava toda a atenção do mundo.
— Sim — sussurrou ela. — Seu pai era muito, muito bonito.
Depois que Charlote adormeceu, Nyla sentou-se na poltrona desconfortável e verificou na bolsa. Os R$35.000,00 reais "pagos" por Ethan hoje à noite eram um alívio, mas somados às suas economias, ela só tinha pouco mais de 45.000,00 reais. A cirurgia de Charlote exigia R$100.000,00 reais. Ainda faltavam mais de R$50.000,00 reais.
O silêncio do hospital parecia rir de sua miséria. De repente, uma ironia cruel a atingiu: ela sentia gratidão por Ethan ter sido sádico. Se ele a odiasse o suficiente para oferecer outra rodada de bebidas por dinheiro, ela aceitaria sem hesitar. O que era uma reação alérgica ou uma dor no estômago comparado à chance de ver Charlote correr sem perder o fôlego?
Para Nyla, a dignidade agora era um luxo que ela não podia pagar.







