Mundo de ficçãoIniciar sessãoNa manhã seguinte, assim que soube que Charlote estava internada, Kezia não perdeu um segundo. Ela atravessou os corredores do hospital em disparada para visitar a pequena, carregando uma sacola gigante, transbordando de lanches e brinquedos.
— Ah, meu Deus! Minha pequena Charlote, você emagreceu tanto que eu mal posso acreditar! — exclamou Kezia, entrando no quarto como um furacão. — Madrinha! — a pequena gritou, com os olhos brilhando.
Desde que Charlote nasceu, Kezia a assumira como sua afilhada oficial, e o vínculo entre as duas era inquebrável. — Venha cá, dê um beijo na sua madrinha! Coitadinha, as mãozinhas dela estão todas inchadas por causa do soro!
No auge da sua empolgação, Kezia acabou apertando o rosto de Charlote com tanta força que a menina soltou um gritinho: — Madrinha! Você é entusiasmada demais! Meu rosto está doendo! — Desculpe, meu amor, desculpe! — Kezia riu, tentando se controlar. — Veja só quanta comida e quantos brinquedos eu trouxe. Você gostou?
Nyla Green, observando a montanha de presentes, interveio: — Você exagerou, Kezia. Não é uma doença grave. Não a mime tanto assim. — Crianças foram feitas para serem mimadas, não é verdade, Charlote? — rebateu a madrinha, piscando para a pequena. Charlote retribuiu o gesto com um sorriso travesso: — Madrinha, eu te amo! Beijos! — Eu também te amo! — Kezia respondeu, fazendo um coração com os dedos.
Enquanto Charlote se distraía trocando a roupa de uma nova Barbie, Kezia aproveitou para puxar Nyla para o corredor, o semblante mudando instantaneamente para algo mais sério. — Você encontrou o Ethan Brooks na boate ontem à noite?
Nyla estancou, surpresa. — Como você ficou sabendo disso? — O Ronan me contou. Ele disse que o Ethan te forçou a beber e que você teve uma crise alérgica. Ele me pediu para ver como você estava assim que eu tivesse um tempo. Aquele Ethan Brooks é um monstro! Ele sabe perfeitamente que você é alérgica a álcool e, mesmo assim, fez aquilo...
— Eu estou bem, Kezia. Já tomei o remédio — interrompeu Nyla, tentando minimizar a situação. — No fim das contas, ganhei 35 mil com aquela garrafa. Não saí no prejuízo.
Kezia franziu a testa, a raiva transparecendo em seu rosto. — Que bobagem você está dizendo! Uma reação alérgica grave pode matar, sua idiota! Eu sabia que não devia ter te indicado aquele trabalho. Se você não estivesse naquela boate, não teria cruzado com aquele sujeito de novo!
Nyla soltou um longo suspiro, encostando-se na parede fria do hospital. — Seja uma bênção ou uma maldição, o que tiver que ser, será. Se não fosse ontem, seria em outro momento. Não há como escapar do destino, não é?
Kezia olhou para ela com o coração partido: "Então, o que você pretende fazer agora? Nos últimos seis anos, antes de vocês se conhecerem..."Memórias de seis anos atrás invadiram a mente de Nyla como sombras indesejadas. Naquela época, ela trabalhava em um bar quando um cliente embriagado se excedeu e tocou sua mão. A reação de Ethan foi imediata e brutal: ele o arrastou para um beco e quebrou a mão do homem sem hesitar.
Nyla se lembrava de ter implorado, chorando e abraçando-o com força, temendo que ele matasse o sujeito ou que a vingança voltasse contra ele. Depois do incidente, Ethan a proibiu de trabalhar fora e, num acesso de possessividade, forçou-a a lavar os dedos tocados pelo bêbado repetidamente, esfregando-os até ficarem com marcas vermelhas, para depois beijá-los como se fossem as joias mais raras do mundo.
— Nyla, não deixe ninguém além de mim te tocar. Eu não suporto isso — ele dizia, imobilizando-a na cama sob um olhar de adoração e fúria.
— Ele sempre foi assim — confessou Nyla para Kezia no corredor do hospital. — Amava e odiava ao extremo. Meu maior medo era que ele descobrisse sobre a Charlote e a usasse como um peão na sua vingança contra mim.
Kezia estremeceu. — Ele é um pervertido! Realmente seria capaz de algo assim.
O celular de Kezia tocou, interrompendo o clima pesado. Era um chamado urgente da empresa: — Onde você se enfiou?! O escândalo do Ethan Brooks está no topo das buscas!
Kezia abriu as redes sociais imediatamente. O termo "Ethan Brooks e Fanny Hings estão noivos" aparecia com a etiqueta de "Explosivo". — Meu Deus! Nyla, veja isso! — exclamou Kezia, estendendo o aparelho. Nyla leu a manchete em silêncio. — Ele está noivo? Que notícia maravilhosa. Desejo toda a felicidade a ele.
Kezia a encarou, perplexa, buscando qualquer sinal de lágrima ou mágoa. — Nyla, isso não é normal. Você desafiou seu próprio pai por esse homem. E agora... nada? — É a melhor notícia possível, Kezia — Nyla sorriu de forma melancólica. — O noivado significa que ele quer seguir em frente. Talvez ele se envolva tanto com a nova noiva que se esqueça de que eu sequer existo.
Após Kezia partir para o trabalho, Nyla voltou para a enfermaria. — Mamãe, por que seus olhos estão vermelhos? — perguntou Charlote, observadora. — É o ar condicionado, querida. Está muito forte — mentiu Nyla, embora seu coração estivesse em frangalhos. A inquietação era tanta que ela chegou a quebrar uma xícara.
À noite, Nyla deixou Charlote sob os cuidados de Otto, o médico de plantão, e saiu para trabalhar na boate Fusheng. No quarto, Charlote começou a explorar a sacola de presentes da madrinha e encontrou uma revista de negócios.
Embora tivesse apenas seis anos e estivesse aprendendo os primeiros caracteres, ela reconheceu alguns. — Era... Geração... Semana... — balbuciou. Mas o que realmente chamou sua atenção foi o homem na capa. — Que tio bonito! Mais bonito que o tio Otto!
Ela apontou o dedinho para a foto de Ethan Brooks e sentenciou com a pureza das crianças: — Este seria o par perfeito para a mamãe!
Perto das nove da noite, cansada de esperar, Charlote calçou seus chinelos de patinho amarelo e saiu da enfermaria para procurar o tio Otto. Ao chegar perto do balcão, ela avistou um homem alto, de costas, falando ao celular perto da janela de vidro.
Seus olhos se arregalaram e ela quase deixou escapar um grito de surpresa. Era ele. O "tio bonitão" da revista estava bem ali, na sua frente.







