Mundo de ficçãoIniciar sessãoPAUL
— Para onde você está me levando? — ela perguntou, cruzando as pernas com naturalidade perturbadora. — Para o meu apartamento. — Ótimo, e quando chegarmos lá, eu quero abrir uma garrafa de vinho para comemorar, com você minha liberdade. Você estava estacionado para quê? — Eu ia resolver um negócio importante agora. — Então liga para a pessoa com quem você estava falando e diz que está socorrendo uma donzela desesperada e que você resolve o resto amanhã, porque hoje você vai me socorrer. Eu ri sem conseguir entender de onde veio esse furacão? — Você nem me conhece e já está organizando a minha agenda? Ela estendeu a mão com solenidade teatral. — Prazer, eu sou Gioconda, mas pode me chamar de Gio, e você é o Paul, ouvi o seu amigo falar quando entrei no seu carro. Aliás, você fala italiano muito bem, mas tem sotaque. — Eu estou aqui a negócios, e sou meio italiano.— respondi, tentando manter o mínimo de compostura. — E você tem casa aqui? — Tenho um apartamento. — Posso passar essa noite na sua casa hoje? Amanhã eu vou embora e você não vai mais me ver, só me ajuda hoje, por favor? Eu olhei para ela, depois para a estrada, depois novamente para ela, vestida de noiva e perguntei... — Eu tenho alguma opção? — Nenhuma. — Então por que me perguntou? Pode ficar sim, por favor, me deixe ao menos avisar meu amigo que eu não vou almoçar com ele. — E pede para ele mandar o almoço para o apartamento quando a gente chegar, porque eu estou com fome. Já que você não almoçou e eu também não, vamos almoçar juntos e comemorar a minha fuga espetacular. Eu peguei o telefone novamente e suspirei. — Marcello, mude os planos, manda a comida para o meu apartamento por favor ? Não pergunte nada agora, sou posso te dizer que é uma emergência. — O que você aprontou, Paul? — Estou salvando uma noiva, desesperada que no momento que estacionei o carro, ela invadiu meu carro. Houve silêncio do outro lado da linha. — Claro que está — ele respondeu por fim. — Eu sabia que você não vinha para a Toscana apenas por negócios. Desliguei antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa e olhei para a mulher ao meu lado, que agora ajeitava o cabelo solto como se estivesse se preparando para uma festa. —Eu só queria fazer esse almoço de negócios, mas em vez disso, estou fugindo com uma noiva vestida de lingerie sob um vestido desmontado, prometendo vinho, almoço e abrigo. E, contra qualquer lógica empresarial que eu conhecesse, eu estava começando a achar aquilo perigosamente interessante e excitante. — Eu entrei pelo acesso do subsolo do prédio, um dos mais discretos e sofisticados da região, daqueles que não precisam de fachada ostentosa porque o luxo está justamente na ausência de exposição. — O portão automático se fechou atrás de nós, e eu conduzi o carro até a vaga reservada da cobertura. — Você não estava brincando quando disse que tinha apartamento aqui — ela comentou, olhando ao redor enquanto saíamos do carro. — Estaciona no subsolo, pega o elevador privativo e sai direto na cobertura… você tem dinheiro, hein? — Trabalho bastante — respondi, tentando manter o tom neutro enquanto ela ajeitava o casaco sobre o vestido desmontado. Entramos no elevador privativo, que subiu direto até o último andar. Quando as portas se abriram para a minha cobertura, com vista para as colinas da Toscana e janelas amplas deixando entrar a luz dourada da tarde, ela parou no meio da sala. — Uau… que bom que não precisei entrar pela portaria principal, pelo menos não passei vexame. — Não passou vexame, só foi provavelmente filmada — eu disse, fechando a porta atrás de nós. Ela virou-se para mim, indignada. — Mas eu estava de óculos e chapéu, ninguém vai saber que sou eu, aliás, posso levar seu casaco, seu chapéu e seus óculos quando eu sair amanhã de manhã? Não se preocupe, eu não sou ladra, se quiser, eu deixo meu anel de noivado aqui como garantia. — Dizem que custou milhões, embora eu nunca tenha me interessado pelo valor. — Você tem algo mais leve para eu vestir? Esse vestido está me dando agonia. Entreguei uma camisa branca de algodão, ela já estava abrindo o zíper do vestido sem o menor constrangimento. — O tecido pesado deslizou pelo corpo e caiu no chão da sala como um símbolo descartado. Ela tirou os sapatos, retirou as meias com calma e ficou apenas de cinta-liga, calcinha rendada branca e sutiã estruturado, a pele levemente marcada pelo corpete. Eu parei, surpreso em ver aquela linda mulher, desesperada, semi-nua na minha frente. Ela percebeu. — O que você está olhando? — Você ficou só de lingerie na minha frente, o mínimo que posso fazer é admirar — respondi, cruzando os braços para conter um sorriso. — E o que você está admirando exatamente? — Seu corpo, e curvas, você é linda. Ela levantou as sobrancelhas, divertida. — Va bene, va bene, agora para de me olhar, e nossa comida já deve estar chegando? Como se tivesse sido convocada pela própria cena, a campainha tocou poucos minutos depois. — Chegou — eu disse. — Então vamos comer, onde fica a cozinha? Mostrei-lhe o caminho, e ela entrou como se já morasse ali, descalça, usando apenas minha camisa parcialmente abotoada, deixando as pernas expostas sob o tecido. Ela abriu as embalagens com naturalidade e começou a arrumar a mesa. — Senta aí, vamos conversar e beber, ru quero tomar um porre hoje para comemorar a minha fuga espetacular. Servi o vinho, e a Gio ergueu a taça. — À minha liberdade,. — À sua coragem — acrescentei. Ela se aproximou de mim sem aviso e me beijou. Não foi um beijo tímido, foi decidido, quente, surpreendentemente firme para alguém que acabara de fugir da própria cerimônia. Eu correspondi instintivamente, e quando nos afastamos, ela sorriu. — Uau, você beija bem. — Vamos comer, senão eu vou acabar sendo a sobremesa, porque do jeito que você está me olhando, parece que já quer pular etapas. — Para uma noiva desesperada, você está muito confiante. Ela riu. — Você tem seu celular aí? — Tenho. Ela disse o nome do homem com quem deveria ter se casado. — Procura aí. Mostrei a foto, um homem baixo, corpulento, expressão pesada, sorriso ensaiado demais. Ela cruzou os braços. — Olha para quem meu pai me vendeu. Eu não consegui evitar a gargalhada. — Agora eu entendo completamente o seu desespero. Quando se afastou, apontou para os pratos. — Vamos comer, porque se continuarmos assim, você vai virar minha sobremesa antes da hora. — Eu me sentei, rindo, mas consciente de que aquela comédia tinha uma intensidade perigosa escondida sob o riso.






