Mundo de ficçãoIniciar sessãoGIO e PAUL
PAUL O vinho desceu fácil demais, ela ria alto e gesticulava, contando como escapou da limousine, levantando o vestido no meio do estacionamento como se estivesse fugindo de um incêndio em plena festa de verão. e esse clima me contagiou. — A cada taça que esvaziava, a tensão que a acompanhava parecia evaporar, substituída por uma euforia quase infantil, quase perigosa. — Está quente, essa camisa está me incomodando... Antes que eu pudesse responder, ela começou a desabotoar os botões da minha camisa, que ela vestia e o tecido escorregou por seu corpo, revelando novamente a lingerie branca que contrastava com a pele levemente corada pelo vinho. — Aproximou-se como se estivesse perfeitamente confortável naquela situação absurda e sentou-se no meu colo, deixando-me completamente sem eixo, seus olhos brilhavam, as bochechas estavam rosadas, e o sorriso era de quem havia acabado de vencer uma guerra pessoal. Ela inclinou-se até meu ouvido e sussurrou: — Eu quero ser sua, já que eu ia perder a virgindade hoje, vou perder com o meu cavaleiro andante, você me salvou, é meu herói. O beijo veio antes da minha resposta, minhas mãos encontraram sua cintura quase por instinto. — Eu não sei se consigo te carregar no colo — murmurei, meio rindo, meio rendido, estou muito bêbado, digo rindo da pergunta dela Ela riu contra minha boca. — Não precisa, onde é o seu quarto? Me leva pra lá e agora. Levei-a para meu quarto e no caminho, ela já abria os botões da minha camisa com uma urgência que misturava coragem e curiosidade. — Você é um homem lindo, e esses teus olhos são azuis ou cinza? eles parecem prata líquida. — Depende da emoção que eu estiver sentindo. — E qual é a sua emoção agora? — Fazer a vontade de uma noiva em fuga, que é muito fogosa. A Gio riu baixo, quando a deitei na cama, caiu rindo também, os cabelos espalhando-se pelo travesseiro como um manto solto, o riso virou respiração ofegante e gemidos, e depois silêncio concentrado, ela me beijou com fome , e não havia vergonha nela, apenas decisão. E sem pressa descontrolada, apenas entrega consciente, nos entregamos ao desejo. — Eu fui paciente, como nunca fui antes, pois todas minhas parceiras eram experientes, mas a Gio, era um vulcão em erupção. E o que começou como fuga tornou-se escolha, a tarde dissolveu-se em calor, vinho, descoberta e cuidado, nos amamos como se não houvesse amanhã, a luz atravessava as cortinas enquanto o mundo lá fora continuava ignorando o pequeno terremoto que acontecia aqui dentro. — Quando o cansaço finalmente me venceu, puxei-a para junto de mim, a abracei, não querendo que ela partisse, o perfume dos cabelos dela ficou preso à minha pele enquanto eu antes de adormecer disse, fica comigo... GIO Eu acordei antes dele, a luz da madrugada ainda era tímida, filtrando-se pelas frestas da cortina, desenhando sombras suaves sobre o quarto. — Paul dormia profundamente, a respiração lenta, o braço pesado repousando onde antes meu corpo estava. Fiquei alguns segundos observando-o, ele é lindo, pena que não posso ficar, ele é meu salvador. — O homem que, sem me conhecer, escolheu acreditar em mim, largou tudo para me ajudar. Deslizei com cuidado para fora da cama, vestindo novamente a camisa dele, que ainda carregava o calor do corpo dele e um perfume que eu sabia que não esqueceria. Caminhei pela sala em silêncio e peguei o telefone do apartamento, e disquei o número que eu sabia de cor. A única pessoa que poderia me ajudar. — Tia… preciso de sua ajuda, como está as coisas por aí? Do outro lado, silêncio, depois, uma respiração que misturava alívio e tensão. — Bambina… graças a Deus, onde você está? — Não há tempo para explicar, por favor vá até meu quarto, pegue meus documentos, minhas roupas, e jóias, o dinheiro que está escondido na gaveta do guarda-roupa. — Não deixe papai nem mamãe perceberem. Coloque tudo em uma das suas malas como se fosse seu. — Eu trouxe duas malas, deixo minhas coisas no seu quarto e levo as suas comigo, eles não vão desconfiar. Mas depois você vai me explicar como conseguiu fugir, teus pais fizeram um show na igreja, o noivo teve um infarto, foi levado para o hospital. — Depois a senhora me conta tudo, vou embora com a senhora, compre minha passagem para viajar com você amanhã. Veja se tem vaga no mesmo voo, Não fico aqui nem mais um minuto. — Você tem certeza disso, Gio? Olhei para o quarto, para a cama desarrumada. o vestido abandonado na sala. — Tenho, por favor, uma roupa fora da mala, para eu vestir no aeroporto.. — E não esqueça os documentos, tia, meu passaporte está junto com o dinheiro. — Nos encontramos no aeroporto, obrigada titia. E desliguei. Voltei ao quarto devagar, me aproximei da cama e observei-o por mais alguns segundos, guardando a imagem, não podia me permitir sentir mais do que já estava sentindo. Sentei-me na escrivaninha e escrevi o bilhete. “Obrigada por me salvar do dragão, meu cavaleiro, agora a sua ex-donzela vai enfrentar o mundo sozinha. Seu papel você já cumpriu, seja feliz, a noite foi maravilhosa, nunca vou te esquecer.” "PS: Doe meu vestido e esse anel de noivado." Gio Deixei o papel sobre a mesa de cabeceira, acariciei de leve o rosto dele. Depois peguei meus saltos nas mãos, respirei fundo e saí. Sem olhar para trás. E foi assim que a minha liberdade começou. PAUL A dor de cabeça chegou antes mesmo de eu abrir os olhos. — Era como se alguém estivesse martelando dentro do meu crânio, lembrando-me de que vinho demais e decisões impulsivas nunca foram uma combinação elegante. — Estiquei o braço instintivamente para o lado da cama, esperando encontrar pele quente, cabelo espalhado, talvez uma risada tardia, encontrei apenas um lençol frio. Abri os olhos lentamente, a dor era latejante a luz da manhã já invadia o quarto sem pedir licença, iluminando o espaço vazio ao meu lado como uma provocação silenciosa. — Sentei-me devagar, passando a mão pelo rosto, tentando organizar as lembranças. O vestido jogado na sala, a camisa espalhada no chão, as gargalhadas dela ecoando pelo apartamento. — GiO…, ela foi real. O nome saiu baixo, quase um teste de realidade, levantei-me e caminhei pelo quarto, depois pela sala, ainda com a cabeça pesada. — A cobertura estava silenciosa demais, nenhum salto batendo no piso, nem a voz atrevida pedindo mais vinho. Ou a noiva fugitiva que me ordenou celebrar sua liberdade. — Foi então que vi o bilhete sobre a mesa de cabeceira, peguei o papel, li e reli. “Obrigada por me salvar do dragão, meu cavaleiro, agora a sua ex-donzela vai enfrentar o mundo sozinha. Seu papel você já cumpriu, seja feliz, a noite foi maravilhosa, nunca vou te esquecer.” "PS: Doe meu vestido e esse anel de noivado." Gio Soltei uma risada curta, misturada com incredulidade e uma pontada estranha que eu preferi não nomear. — Ela tinha ido embora... — Sem drama, apenas um agradecimento e a promessa de enfrentar o mundo sozinha. Passei a mão pelos cabelos e foi nesse momento que meu telefone começou a tocar, vibrando sobre a mesa da sala como um lembrete brutal de que o mundo real continuava existindo. Marcello. — Carcamano, você está dormindo? — a voz dele veio alta demais para minha dor de cabeça. — São nove horas da manhã. Você ainda não apareceu na empresa. Olhei para o relógio. — Nove horas! — Sim, nove, e você deve ter festejado muito, pois esqueceu a reunião de hoje. — Foi tão bom assim o almoço e a noite? Fechei os olhos por um segundo. — Meu Deus… eu bebi demais ontem. — Então foi bom mesmo. — Você não faz ideia, foi o melhor dia da minha vida. Ele riu do outro lado da linha. — Vai ter que me contar tudo, mas antes disso, lembra que às dez você tem reunião para fechar a compra da vinícola? Eu consegui desmarcar ontem porque o corretor disse que o proprietário estava ocupado com o casamento. — Mas parece que não houve casamento nenhum, foi cancelado. Fiquei imóvel. — Cancelado, como assim? — Sim, a cidade inteira está comentando, a noiva fugiu acredita? O silêncio se instalou entre nós. — Você está brincando comigo?! — Não estou, dizem que foi um escândalo, o noivo ficou possesso, e teve um infarto , e você passou a tarde e a noite com uma noiva. — Não me diga que era a mesma pessoa? Apertei o bilhete entre os dedos. Não poderia ser, seria coincidência demais. Passei a noite com uma donzela desesperada, acordei com uma dor de cabeça monumental e apenas um bilhete me agradecendo por tê-la salvo do dragão. — E agora descubro que o casamento foi cancelado. — Marcello… — O quê? — Ela foi embora. — Como assim , foi embora? — Foi embora, sumiu, deixou apenas um bilhete dizendo que ia se salvar sozinha, me agradeceu por a ter salvo do dragão. Do outro lado da linha houve um breve silêncio, seguido de uma risada incrédula. — Você passa a noite com uma noiva fugitiva, perde a reunião mais importante do mês e ainda deixa ela escapar? Bravo, Paul, realmente bravo, espero que tenha sido bom. — Cala a boca, Marcello, e foi sim, foi a melhor noite de minha vida. Olhei novamente para o papel. “Eu nunca vou te esquecer.” Engraçado. Eu também não tinha a menor intenção de esquecer. — Chegue aqui antes das dez — Marcello insistiu. — Se a vinícola ainda estiver à venda, você vai fechar negócio hoje, e, por favor, tente parecer um empresário respeitável, não um cavaleiro medieval de ressaca. Desliguei. Fiquei alguns segundos parado no meio da sala, segurando o bilhete, sentindo algo que não era apenas frustração. Era curiosidade, era incômodo essa sensação de que aquela história não tinha terminado, apenas começava... Eu não sabia o sobrenome dela, nem para onde tinha ido. — Mas sabia de uma coisa: aquela mulher tinha entrado no meu carro como um furacão e saído da minha vida como um segredo. E, de algum modo, eu tinha a estranha impressão de que aquilo ainda não era o fim.






