####CAPÍTULO 03

GIO e PAUL

PAUL

O vinho desceu fácil demais, ela ria alto e gesticulava, contando como escapou da limousine, levantando o vestido no meio do estacionamento como se estivesse fugindo de um incêndio em plena festa de verão. e esse clima me contagiou.

— A cada taça que esvaziava, a tensão que a acompanhava parecia evaporar, substituída por uma euforia quase infantil, quase perigosa.

— Está quente, essa camisa está me incomodando...

Antes que eu pudesse responder, ela começou a desabotoar os botões da minha camisa, que ela vestia e o tecido escorregou por seu corpo, revelando novamente a lingerie branca que contrastava com a pele levemente corada pelo vinho.

— Aproximou-se como se estivesse perfeitamente confortável naquela situação absurda e sentou-se no meu colo, deixando-me completamente sem eixo, seus olhos brilhavam, as bochechas estavam rosadas, e o sorriso era de quem havia acabado de vencer uma guerra pessoal.

Ela inclinou-se até meu ouvido e sussurrou:

— Eu quero ser sua, já que eu ia perder a virgindade hoje, vou perder com o meu cavaleiro andante, você me salvou, é meu herói.

O beijo veio antes da minha resposta, minhas mãos encontraram sua cintura quase por instinto.

— Eu não sei se consigo te carregar no colo — murmurei, meio rindo, meio rendido, estou muito bêbado, digo rindo da pergunta dela

Ela riu contra minha boca.

— Não precisa, onde é o seu quarto? Me leva pra lá e agora.

Levei-a para meu quarto e no caminho, ela já abria os botões da minha camisa com uma urgência que misturava coragem e curiosidade.

— Você é um homem lindo, e esses teus olhos são azuis ou cinza? eles parecem prata líquida.

— Depende da emoção que eu estiver sentindo.

— E qual é a sua emoção agora?

— Fazer a vontade de uma noiva em fuga, que é muito fogosa.

A Gio riu baixo, quando a deitei na cama, caiu rindo também, os cabelos espalhando-se pelo travesseiro como um manto solto, o riso virou respiração ofegante e gemidos, e depois silêncio concentrado, ela me beijou com fome , e não havia vergonha nela, apenas decisão.

E sem pressa descontrolada, apenas entrega consciente, nos entregamos ao desejo.

— Eu fui paciente, como nunca fui antes, pois todas minhas parceiras eram experientes, mas a Gio, era um vulcão em erupção.

E o que começou como fuga tornou-se escolha, a tarde dissolveu-se em calor, vinho, descoberta e cuidado, nos amamos como se não houvesse amanhã, a luz atravessava as cortinas enquanto o mundo lá fora continuava ignorando o pequeno terremoto que acontecia aqui dentro.

— Quando o cansaço finalmente me venceu, puxei-a para junto de mim, a abracei, não querendo que ela partisse, o perfume dos cabelos dela ficou preso à minha pele enquanto eu antes de adormecer disse, fica comigo...

GIO

Eu acordei antes dele, a luz da madrugada ainda era tímida, filtrando-se pelas frestas da cortina, desenhando sombras suaves sobre o quarto.

— Paul dormia profundamente, a respiração lenta, o braço pesado repousando onde antes meu corpo estava.

Fiquei alguns segundos observando-o, ele é lindo, pena que não posso ficar, ele é meu salvador.

— O homem que, sem me conhecer, escolheu acreditar em mim, largou tudo para me ajudar.

Deslizei com cuidado para fora da cama, vestindo novamente a camisa dele, que ainda carregava o calor do corpo dele e um perfume que eu sabia que não esqueceria.

Caminhei pela sala em silêncio e peguei o telefone do apartamento, e

disquei o número que eu sabia de cor. A única pessoa que poderia me ajudar.

— Tia… preciso de sua ajuda, como está as coisas por aí?

Do outro lado, silêncio, depois, uma respiração que misturava alívio e tensão.

— Bambina… graças a Deus, onde você está?

— Não há tempo para explicar, por favor vá até meu quarto, pegue meus documentos, minhas roupas, e jóias, o dinheiro que está escondido na gaveta do guarda-roupa.

— Não deixe papai nem mamãe perceberem. Coloque tudo em uma das suas malas como se fosse seu.

— Eu trouxe duas malas, deixo minhas coisas no seu quarto e levo as suas comigo, eles não vão desconfiar.

Mas depois você vai me explicar como conseguiu fugir, teus pais fizeram um show na igreja, o noivo teve um infarto, foi levado para o hospital.

— Depois a senhora me conta tudo, vou embora com a senhora, compre minha passagem para viajar com você amanhã.

Veja se tem vaga no mesmo voo, Não fico aqui nem mais um minuto.

— Você tem certeza disso, Gio?

Olhei para o quarto, para a cama desarrumada. o vestido abandonado na sala.

— Tenho, por favor, uma roupa fora da mala, para eu vestir no aeroporto..

— E não esqueça os documentos, tia, meu passaporte está junto com o dinheiro.

— Nos encontramos no aeroporto, obrigada titia.

E desliguei.

Voltei ao quarto devagar, me aproximei da cama e observei-o por mais alguns segundos, guardando a imagem, não podia me permitir sentir mais do que já estava sentindo. Sentei-me na escrivaninha e escrevi o bilhete.

“Obrigada por me salvar do dragão, meu cavaleiro, agora a sua ex-donzela vai enfrentar o mundo sozinha. Seu papel você já cumpriu, seja feliz, a noite foi maravilhosa, nunca vou te esquecer.”

"PS: Doe meu vestido e esse anel de noivado."

Gio

Deixei o papel sobre a mesa de cabeceira,

acariciei de leve o rosto dele. Depois peguei meus saltos nas mãos, respirei fundo e saí.

Sem olhar para trás.

E foi assim que a minha liberdade começou.

PAUL

A dor de cabeça chegou antes mesmo de eu abrir os olhos. — Era como se alguém estivesse martelando dentro do meu crânio, lembrando-me de que vinho demais e decisões impulsivas nunca foram uma combinação elegante.

— Estiquei o braço instintivamente para o lado da cama, esperando encontrar pele quente, cabelo espalhado, talvez uma risada tardia, encontrei apenas um lençol frio.

Abri os olhos lentamente, a dor era latejante a luz da manhã já invadia o quarto sem pedir licença, iluminando o espaço vazio ao meu lado como uma provocação silenciosa.

— Sentei-me devagar, passando a mão pelo rosto, tentando organizar as lembranças.

O vestido jogado na sala, a camisa espalhada no chão, as gargalhadas dela ecoando pelo apartamento.

— GiO…, ela foi real.

O nome saiu baixo, quase um teste de realidade,

levantei-me e caminhei pelo quarto, depois pela sala, ainda com a cabeça pesada.

— A cobertura estava silenciosa demais, nenhum salto batendo no piso, nem a voz atrevida pedindo mais vinho.

Ou a noiva fugitiva que me ordenou celebrar sua liberdade. — Foi então que vi o bilhete sobre a mesa de cabeceira, peguei o papel, li e reli.

“Obrigada por me salvar do dragão, meu cavaleiro, agora a sua ex-donzela vai enfrentar o mundo sozinha. Seu papel você já cumpriu, seja feliz, a noite foi maravilhosa, nunca vou te esquecer.”

"PS: Doe meu vestido e esse anel de noivado."

Gio

Soltei uma risada curta, misturada com incredulidade e uma pontada estranha que eu preferi não nomear. — Ela tinha ido embora...

— Sem drama, apenas um agradecimento e a promessa de enfrentar o mundo sozinha.

Passei a mão pelos cabelos e foi nesse momento que meu telefone começou a tocar, vibrando sobre a mesa da sala como um lembrete brutal de que o mundo real continuava existindo.

Marcello.

— Carcamano, você está dormindo? — a voz dele veio alta demais para minha dor de cabeça. — São nove horas da manhã. Você ainda não apareceu na empresa.

Olhei para o relógio.

— Nove horas!

— Sim, nove, e você deve ter festejado muito, pois esqueceu a reunião de hoje.

— Foi tão bom assim o almoço e a noite?

Fechei os olhos por um segundo.

— Meu Deus… eu bebi demais ontem.

— Então foi bom mesmo.

— Você não faz ideia, foi o melhor dia da minha vida.

Ele riu do outro lado da linha.

— Vai ter que me contar tudo, mas antes disso, lembra que às dez você tem reunião para fechar a compra da vinícola?

Eu consegui desmarcar ontem porque o corretor disse que o proprietário estava ocupado com o casamento.

— Mas parece que não houve casamento nenhum, foi cancelado.

Fiquei imóvel.

— Cancelado, como assim?

— Sim, a cidade inteira está comentando, a noiva fugiu acredita?

O silêncio se instalou entre nós.

— Você está brincando comigo?!

— Não estou, dizem que foi um escândalo, o noivo ficou possesso, e teve um infarto , e você passou a tarde e a noite com uma noiva.

— Não me diga que era a mesma pessoa?

Apertei o bilhete entre os dedos.

Não poderia ser, seria coincidência demais.

Passei a noite com uma donzela desesperada, acordei com uma dor de cabeça monumental e apenas um bilhete me agradecendo por tê-la salvo do dragão.

— E agora descubro que o casamento foi cancelado.

— Marcello…

— O quê?

— Ela foi embora.

— Como assim , foi embora?

— Foi embora, sumiu, deixou apenas um bilhete dizendo que ia se salvar sozinha, me agradeceu por a ter salvo do dragão.

Do outro lado da linha houve um breve silêncio, seguido de uma risada incrédula.

— Você passa a noite com uma noiva fugitiva, perde a reunião mais importante do mês e ainda deixa ela escapar?

Bravo, Paul, realmente bravo, espero que tenha sido bom.

— Cala a boca, Marcello, e foi sim, foi a melhor noite de minha vida.

Olhei novamente para o papel.

“Eu nunca vou te esquecer.”

Engraçado.

Eu também não tinha a menor intenção de esquecer.

— Chegue aqui antes das dez — Marcello insistiu. — Se a vinícola ainda estiver à venda, você vai fechar negócio hoje, e, por favor, tente parecer um empresário respeitável, não um cavaleiro medieval de ressaca.

Desliguei.

Fiquei alguns segundos parado no meio da sala, segurando o bilhete, sentindo algo que não era apenas frustração.

Era curiosidade, era incômodo essa sensação de que aquela história não tinha terminado, apenas começava...

Eu não sabia o sobrenome dela, nem para onde tinha ido.

— Mas sabia de uma coisa: aquela mulher tinha entrado no meu carro como um furacão e saído da minha vida como um segredo.

E, de algum modo, eu tinha a estranha impressão de que aquilo ainda não era o fim.

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