Mundo de ficçãoIniciar sessãoPAUL
Estava estacionando a Mercedes em frente ao restaurante enquanto falava ao telefone com Marcello, que provavelmente já devia estar sentado à mesa escolhendo o vinho antes mesmo de eu desligar o motor. — Estou estacionando, me espera aí e já vai pedindo nossa comida, porque eu não quero ouvir você reclamar que eu cheguei atrasado outra vez. Ele riu do outro lado da linha e disse que eu sempre tinha uma desculpa diferente, que nenhum empresário ficava preso no trânsito da Toscana a menos que estivesse paquerando alguma italiana. — Marcello, eu trabalho, você fofoca, essa é a diferença entre nós dois — respondi, girando o volante para alinhar o carro perfeitamente entre as faixas brancas. — Eu estava prestes a desligar a chave quando a porta do passageiro foi aberta com uma violência contida, como se quem a abrisse estivesse lutando contra o próprio medo, e uma noiva, vestida da cabeça aos pés de branco, entrou no meu carro. Por alguns segundos, eu fiquei olhando para o para-brisa, achando que aquilo era uma espécie de alucinação causada pelo excesso de reuniões e pouco descanso. — Paul? — Marcello chamou do outro lado da linha. — O que aconteceu? — Depois eu falo contigo, eu tenho agora que resolver algo urgente — respondi, sem tirar os olhos da mulher ao meu lado, e desliguei o telefone. Ela respirava com dificuldade, o peito subindo e descendo rápido demais, os olhos verdes arregalados como se tivesse atravessado um incêndio. — Me leve embora daqui agora — disse ela, em italiano, com a voz firme apesar do desespero evidente. — Eu estou falando sério, se você não me levar embora daqui, eu me mato. Eu pisquei duas vezes, apenas para ter certeza de que estava acordado. — Desculpe, mas o quê? — perguntei, virando o corpo na direção dela. — Mas quem é você, o que está fazendo aqui? Ela segurou a saia do vestido como se ainda estivesse pronta para correr. — Eu sou uma noiva desesperada que foi vendida pelo próprio pai e que resolveu fugir, e se você não me tirar daqui agora, antes que percebam que eu saí do carro, até o final do dia eu vou me matar. Antes que eu pudesse reagir, ela enfiou a mão dentro do corpete do vestido e tirou um pequeno comprimido envolto em papel. — Sabe o que é isso? — perguntou, erguendo-o diante de mim. — Não faço a menor ideia. — Eu comprei, faz meses deixe guardado escondido, e se eu não conseguisse fugir, eu tomaria isso antes de entrar naquela igreja, se você não me levar embora agora, eu tomo. — Eu passei a mão pelo rosto, tentando organizar aquela cena absurda que tinha invadido o meu almoço. A praça estava tranquila, turistas caminhando despreocupados, os sinos da igreja tocando como se anunciasse romance e tradição, e dentro do meu carro havia uma mulher vestida de noiva ameaçando suicídio. — Olha, eu só queria almoçar — murmurei, quase para mim mesmo. — E agora estou aqui sendo convocado para salvar uma donzela em perigo. Ela virou o rosto rapidamente na minha direção, ofendida e indignada ao mesmo tempo. — Foi perigo, sim, e sou donzela mesmo, se isso lhe interessa. Eu não consegui evitar um meio sorriso, apesar da gravidade da situação. — Está bem, donzela, guarde isso aí e coloque o cinto, porque eu não tenho a menor intenção de ver alguém morrer dentro do meu carro e muito menos ser culpado pela morte de uma noiva em pleno centro histórico. Ela hesitou apenas um segundo antes de obedecer, guardando o comprimido novamente no corpete com um gesto decidido. — Se você está mentindo, eu vou descobrir — acrescentei, engatando a marcha. — E, se isso for algum tipo de brincadeira, eu juro que te deixo na primeira esquina. — Não é brincadeira — respondeu, encarando-me com uma firmeza que contrastava com o tremor leve de suas mãos. — Meu pai me vendeu por dois milhões de euros para um homem que poderia ser meu pai, e eu não vou entrar naquela igreja nem que seja a última coisa que eu faça. Eu olhei pelo retrovisor e vi movimentação perto da limousine branca estacionada mais adiante, homens gesticulando, alguém apontando para os lados. — Ótimo — murmurei, acelerando o carro. — Então vamos sair daqui antes que alguém perceba que o cavaleiro sequestrou a noiva. Ela respirou fundo quando dobramos a esquina, e só então percebi que meu coração também estava acelerado. — Eu tinha acordado naquela manhã com a intenção de discutir negócios e degustar vinho. Em vez disso, estava fugindo da igreja com uma noiva desconhecida ao meu lado. — E, pela primeira vez em muito tempo, eu não fazia ideia de como aquela história terminaria, mas uma coisa era certa: meu almoço tinha sido oficialmente arruinado. Para piorar a situação — porque sempre pode piorar — assim que liguei o carro e comecei a me afastar da igreja, ela levou as mãos ao arranjo preso em seu cabelo e, com um movimento decidido, arrancou os grampos como se estivesse se libertando de algemas invisíveis. O penteado estruturado desmoronou, e uma cascata de cabelos castanhos caiu sobre os ombros e desceu até abaixo da cintura, espessa, brilhante, absolutamente indecente para alguém que acabara de ameaçar suicídio dentro do meu carro. — Continua dirigindo que eu vou tirar essa coisa incomoda — ela disse, já erguendo a saia do vestido com uma naturalidade que me fez apertar o volante com mais força. — Tirar o quê, exatamente? — perguntei, mantendo os olhos na estrada por puro instinto de autopreservação. — Essa anágua, porque isso vai me atrapalhar. Antes que eu pudesse formular qualquer comentário, ela puxou algo volumoso debaixo do vestido, levantando a saia sem o menor constrangimento, e retirou a anágua com uma determinação prática que me deixou momentaneamente sem palavras. — Quando ela terminou, ficou apenas de cinta-liga rendada branca, calcinha delicada, meias finas e salto alto igualmente branco, como se tivesse saído de um desfile que eu definitivamente não havia sido convidado a assistir. Eu pigarreei. — A senhorita, costuma fazer esse tipo de transformação no banco de carros de desconhecidos ou hoje é uma exceção especial? Ela baixou a saia novamente com elegância calculada e respondeu: — Hoje é uma fuga histórica, então eu estou improvisando, desespero faz isso. Agora sim, ficou menos armado, deixa eu tirar esse corpete aqui também, porque eu não vou ficar parecendo uma noiva fugitiva em pleno verão. — Você tem noção de que estamos na Toscana, em pleno verão, e que eu estou dirigindo uma sauna ambulante com uma espiã improvisada ao meu lado? — Prefiro parecer uma espiã suando do que ser capturada pela minha família — ela retrucou, estendendo a mão. — Você tem um óculos escuro aí para me emprestar? — Tenho, aí no porta luvas, tem um gosto também. Ela virou-se para trás, pegou o casaco e vestiu por cima da estrutura branca ainda volumosa, ajeitando-o como se estivesse se preparando para uma missão secreta. — Pronto, agora se alguém olhar, vai pensar que sou uma turista exagerada, não uma noiva em fuga, balancei a cabeça, sem entender. — Para onde você está me levando mesmo? — ela perguntou, cruzando as pernas com naturalidade perturbadora. — Para o meu apartamento, é onde posso colocar uma donzela em perigo. — Ótimo, e por favor, quando nós chegarmos lá, eu quero abrir uma garrafa de vinho para comemorar, e você vai comemorar comigo. — Eu ia resolver um negócio importante agora. — Então liga para a pessoa com quem você estava falando e diz que está socorrendo uma donzela desesperada e que você resolve o resto amanhã, porque hoje você vai me socorrer. Eu ri sem conseguir entender de onde saiu esse furacão, em forma de mulher. — Você nem me conhece e já está organizando a minha agenda? Ela estendeu a mão com solenidade teatral. — Prazer, eu sou Gioconda, mas pode me chamar de Gio. E você é o Paul, não é? Ouvi que o seu amigo chamou esse nome no telefone. Aliás, você fala italiano muito bem, mas tem sotaque. — Eu estou aqui a negócios , mas agora salvando você — respondi, tentando manter o mínimo de compostura. — E você tem casa aqui? — Tenho. — Posso passar essa noite na sua casa? Prometo que amanhã você não vai mais me ver, vou embora. Eu olhei para ela, depois para a estrada, depois novamente para ela, ainda vestida parcialmente de noiva, parcialmente de espionagem improvisada. — Eu tenho opção? — Nenhuma. — Então pode, mas por favor, me deixe ao menos avisar meu amigo que eu não vou almoçar com ele. — E pede para ele mandar o almoço para o apartamento quando a gente chegar, porque eu estou com fome. Já que você não almoçou e eu também não, vamos almoçar juntos e comemorar a minha fuga espetacular. Eu peguei o telefone novamente e suspirei. — Marcello, mude os planos, mande a comida para o meu apartamento, aconteceu um imprevisto, e por favor não me pergunte nada agora. — O que você aprontou agora, Paul? — Estou salvando uma noiva, desesperada em fuga. Houve silêncio do outro lado da linha. — Claro que está — ele respondeu por fim. — Eu sabia que você não vinha para a Toscana apenas por negócios. — Desliguei antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa e olhei para a mulher ao meu lado, que agora ajeitava o cabelo solto como se estivesse se preparando para uma festa. Eu só queria almoçar, sossegado com um amigo... Em vez disso, estava fugindo com uma noiva vestida de lingerie sob um vestido desmontado, prometendo vinho, almoço e abrigo. — E, contra qualquer lógica empresarial que eu conhecesse, eu estava começando a achar aquilo perigosamente interessante.






