Mundo de ficçãoIniciar sessãoMarco
Minha casa sempre funcionou melhor do que a maioria das empresas que administro, silenciosa, organizada, previsível, ocupada apenas por pessoas que sabem exatamente onde pisar e, principalmente, onde não pisar. Dona Teresa faz parte disso há anos. — Bom dia — ouvi sua voz antes mesmo de vê-la. — A arquiteta chegou. ArquitetA. Levantei o olhar do tablet no mesmo instante, já preparado para mais um compromisso técnico encaixado na agenda, até perceber quem estava do outro lado da porta. Luna. O reconhecimento foi imediato e inconveniente. Ela não estava vestida para um evento agora, usava jeans, camisa clara, mangas dobradas, o cabelo preso de qualquer jeito, e ainda assim ocupava o espaço com facilidade, curvas naturais, postura confiante, uma beleza que não pedia atenção, mas recebia. Era o tipo de presença que desorganiza ambientes muito controlados. — Bom dia — ela disse, surpresa contida, profissional. — Bom dia — respondi, no mesmo tom. Dona Teresa aguardava instruções, discreta como sempre. — Pode deixar comigo — eu disse. — Eu acompanho a avaliação. Não era comum que eu fizesse isso, eu tinha equipes, gestores, intermediários, mas naquele momento a ideia de não estar presente me pareceu errada. — Não imaginei que fosse você — comentei, caminhando alguns passos em sua direção. — O Tomás foi econômico nas informações. Tomás sempre foi assim, direto, prático, o tipo de homem que não indicava ninguém sem absoluta certeza. Se ele dizia que Luna era discreta e competente, então ela era, e isso deveria ter sido suficiente para mim. — Imagino — ela respondeu, observando o ambiente com atenção técnica. — Também não imaginei que o cliente fosse você. Confesso que na minha cabeça você parecia… menor. Ergui uma sobrancelha. — Menor? Ela sorriu de leve, claramente tentando aliviar a tensão. — Em altura — explicou. — Sempre imagino pessoas importantes com menos centímetros e mais ego. Aquilo quase arrancou um sorriso de mim. Quase. — Prefiro acompanhar pessoalmente — disse, desviando do comentário. — É um problema específico, e não gosto de pessoas circulando aqui sem necessidade. — Sem problemas — ela respondeu. — Prometo não abrir nenhuma porta proibida nem descobrir segredos milionários antes do almoço. Ignorei o comentário, mesmo percebendo o cuidado com que foi dito. Seguimos pelo corredor enquanto eu explicava o problema estrutural, ajustes antigos, decisões feitas anos atrás, e percebi que ela ouvia de verdade, observava paredes, linhas, proporções, como se a casa estivesse se apresentando a ela. — Essa modificação aqui — ela disse, apontando para algo quase imperceptível — redistribuiu a carga. O problema deve ter começado aí. — Foi o que me disseram ontem — respondi. — Então estamos alinhados — ela disse, satisfeita. Caminhamos mais alguns metros até o corredor mais estreito. Automaticamente, diminui o passo. — Algumas áreas não fazem parte da avaliação — avisei, com calma. — Prefiro que permaneçam assim. Ela acompanhou meu olhar até a porta branca no final do corredor, simples, fechada, fora de contexto. — Entendi — respondeu. — Não preciso acessar tudo para resolver o problema, apesar de arquitetos adorarem portas misteriosas. Ignorei o comentário outra vez. — Vou precisar que fique alguns dias — continuei. — Quero isso resolvido rápido e bem feito. — Posso organizar — ela respondeu. — Desde que eu não precise usar salto o dia inteiro, porque aí o risco estrutural passa a ser comigo. Dessa vez, não consegui evitar o sorriso. Quando ela se afastou, concentrada no trabalho, percebi algo que não sentia havia muito tempo: antecipação. Não pelo problema técnico, não pela obra, mas pela presença dela, pela forma como Luna caminhava pela casa sem invadir, observando mais do que perguntando. Eu tinha assumido aquela situação não apenas porque precisava de uma arquiteta, mas porque queria entender por que aquela mulher mexia com um equilíbrio que eu mantinha intacto há anos. E isso, eu sabia, não fazia parte de nenhum plano.






