Mundo de ficçãoIniciar sessão
Luna
Eu aprendi cedo a identificar riscos estruturais. Pisos mal nivelados, vigas mal calculadas, falhas que parecem inofensivas até o momento exato em que deixam de ser. Aprendi a prever quedas antes que acontecessem, a enxergar problemas invisíveis para a maioria das pessoas, a confiar no meu olhar técnico mais do que na sorte. Ainda assim, não esperava que o primeiro sinal de perigo daquela noite fosse o meu salto escorregando em um salão lotado. O evento era grande demais, elegante demais, barulhento demais. Luzes quentes refletiam em taças de cristal, risadas ecoavam com a confiança típica de quem acredita que nada pode dar errado em ambientes caros e bem decorados. Homens de terno circulavam com passos seguros, mulheres equilibravam vestidos e saltos como se o mundo tivesse sido projetado exatamente para elas. Até deixar de ser. O chão cedeu um milímetro. Só isso. Mas foi o suficiente. Meu corpo inclinou para frente, o equilíbrio se perdeu em silêncio, e o constrangimento chegou antes da queda, rápido, certeiro, cruel. Aquela fração de segundo em que você já se imagina no chão, cercada de olhares, transformada em comentário alheio antes mesmo de tocar o piso. Eu não caí. Uma mão firme me segurou pela cintura. Grande. Segura. Quente. Por um segundo meu cérebro simplesmente desligou, porque não era todo dia que alguém segurava você como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, como se não houvesse esforço, nem hesitação, nem necessidade de exibição. — Cuidado — disse uma voz masculina, baixa, grave, absurdamente calma. Levantei o rosto no mesmo instante. Ele era alto. Muito alto. Daqueles homens que fazem você perceber a própria altura sem que precisem dizer uma palavra. Ombros largos preenchiam o terno escuro com facilidade, a postura impecável denunciava alguém acostumado a ser observado, obedecido, respeitado. O corpo era forte sem exagero, contido, elegante, como se cada movimento tivesse sido aprendido ao longo de anos de autocontrole. O rosto era bonito de um jeito sério. Maxilar marcado, barba curta por fazer, traços firmes. Os olhos, escuros e atentos, não combinavam com o ambiente de festa. Não havia dispersão ali. Ele observava tudo como quem avalia riscos. O tipo de olhar que não se perde. — Obrigada — eu disse, tentando soar normal, enquanto meu coração claramente não colaborava. — Acho que quase inaugurei um desastre público. O olhar dele desceu rápido, avaliando se eu estava bem, antes de voltar ao meu rosto. — O piso está irregular ali — respondeu, com uma tranquilidade irritante. — Não é você. Aquilo arrancou de mim um sorriso imediato. — Fico aliviada. Prefiro culpar a arquitetura, é mais profissional da minha parte. O canto da boca dele se moveu. Não chegou a ser um sorriso completo, mas eu vi. Vi também o relógio caro no pulso forte, discreto demais para quem não precisava provar nada. Poder silencioso. Daquele que não pede atenção, mas recebe. — Marco — ele disse. — Luna. Afastei-me um pouco, endireitando o corpo, ajeitando o vestido, e odiei perceber que, mesmo ereta, ainda precisava levantar o rosto para encará-lo. Um centímetro, pensei. Era só isso que faltava para alcançar o mítico um e setenta, aquela altura oficialmente considerada respeitável, apesar de eu disfarçar muito bem com saltos e uma postura confiante que enganava até a mim mesma. A diferença entre nós era gritante. Uns Vinte centímetros com certeza. O silêncio se estendeu por um segundo a mais do que o necessário. Ele me observava com atenção demais, como se estivesse registrando detalhes que eu não tinha autorizado, e aquilo me deixou estranhamente consciente do meu próprio corpo, da minha respiração, da proximidade. — Bom… — apontei vagamente para o salão. — Obrigada por evitar minha humilhação pública. — Disponha — respondeu, com uma voz controlada demais para alguém que ainda me segurava segundos antes. — E cuidado por onde pisa. Marco se afastou antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa inteligente para dizer. Não trocamos contatos. Não fizemos promessas. Não houve nada além daquela sensação incômoda de algo inacabado, como uma porta que não se fecha direito, como um assunto interrompido no meio da frase. Passei o resto da noite tentando convencer a mim mesma de que aquilo tinha sido apenas um acaso elegante. Falhei. Mais tarde, já em casa, descalça, o vestido jogado sobre a cadeira, meu telefone vibrou na mesa de cabeceira. A mensagem era da Helena, esposa do Tomás, uma amiga antiga que aparecia e desaparecia da minha vida com a mesma facilidade com que surgiam projetos improváveis. Lu, você está livre amanhã? O Tomás precisa indicar alguém de confiança para um cliente complicado. Sorri sozinha ao ler. Projetos urgentes, clientes difíceis e indicações feitas às pressas raramente terminavam bem. Ainda assim, respondi que sim, sem pensar duas vezes, sem imaginar que algumas coincidências começam muito antes de a gente perceber. E que algumas portas, quando se abrem, jamais voltam a ser apenas portas. 💌 Nota da Autora Algumas histórias nascem do desejo. Outras, do mistério. Essa nasceu do encontro entre os dois. A Porta Que o CEO Nunca Abriu é um romance sobre silêncios que pesam, portas que não foram feitas apenas para separar espaços e sentimentos que insistem em existir mesmo quando o passado pede cautela. Aqui, você vai encontrar drama, bom humor, desejo, aproximações imperfeitas e personagens que carregam mais do que mostram. Nada acontece rápido demais, mas tudo acontece com intenção. Se você gosta de histórias que aquecem, inquietam e deixam aquela sensação de “só mais um capítulo”, seja muito bem-vinda. Espero que você atravesse essa porta comigo, no seu tempo, no seu ritmo. Com carinho, Vanessa






