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Capítulo 3 — A Casa Onde o Silêncio Mora

Luna

Casas falam.

Não com palavras, não de forma direta, mas com escolhas, com ausências, com o que foi deixado exatamente onde estava e nunca mais tocado. Aprendi isso cedo demais, talvez por passar mais tempo observando paredes do que pessoas, e aquela casa falava baixo, quase em sussurros, mas falava o tempo todo.

Cheguei mais cedo naquela manhã, como Marco havia pedido, e o silêncio parecia ainda mais denso, como se o dia não tivesse sido autorizado a começar direito. Dona Teresa me recebeu com um sorriso contido, postura impecável, o tipo de presença que não se impõe, mas se faz notar.

— O senhor Moretti ainda não desceu — informou. — Fique à vontade.

À vontade era um conceito relativo ali dentro, mas agradeci e segui em direção à área onde trabalharia, tablet em mãos, mente focada, tentando ignorar a sensação de que aquela casa era grande demais para uma única pessoa.

Trabalhei por quase uma hora, medindo, anotando, confirmando hipóteses, até perceber algo simples e profundamente errado: a circulação não fazia sentido.

Não era um erro técnico.

Era uma escolha.

Alguns trajetos eram fluidos, naturais, usados com frequência, enquanto outros pareciam evitados, contornados, como se o próprio espaço tivesse aprendido a desviar de certos pontos. O corredor estreito surgia nisso como um desvio deliberado, um trecho que não se encaixava no resto da planta, preservado de um jeito que não combinava com abandono.

Me aproximei devagar.

A porta branca estava lá, no final do corredor, simples demais, limpa demais, fechada demais.

Parei a alguns passos de distância, respeitando os limites que Marco havia imposto, mas observando o entorno com atenção profissional. O rodapé estava impecável, limpo com frequência excessiva, e na parede ao lado, uma diferença sutil na tonalidade da tinta denunciava algo que já estivera ali, um quadro, talvez, removido e nunca substituído.

Aquilo não era descuido.

Era cuidado.

— Você encontrou algo? — a voz de Marco soou atrás de mim, baixa, firme, próxima o suficiente para que eu sentisse sua presença antes mesmo de me virar.

Virei devagar.

Ele estava sem o paletó, mangas da camisa dobradas, postura impecável, mas havia algo diferente naquele dia, um cansaço discreto no olhar, como se a casa exigisse mais dele do que de qualquer outra pessoa.

— Nada estrutural aqui — respondi, sincera. — Só estou entendendo a lógica da casa.

Ele assentiu, mas percebi a tensão leve nos ombros, a forma como seu olhar evitava o final do corredor.

— Prefiro que concentre sua atenção no problema principal — disse.

— Claro — respondi, e sorri de leve, não por ironia, mas para aliviar o peso invisível que se instalava entre nós. — Prometo não analisar filosoficamente as paredes antes do café.

O canto da boca dele se moveu, quase um sorriso, quase.

Seguimos para outra ala, e ele me explicou detalhes técnicos com uma precisão que eu não esperava, como se aquela casa fosse o único lugar onde ele realmente exercia controle absoluto.

Enquanto ele falava, percebi algo que me incomodou mais do que a porta fechada: a forma como Marco escolhia as palavras quando se referia à casa.

Nunca dizia antes de mim.

Nunca dizia minha família.

Dizia apenas na época, quando foi feito, antes das mudanças.

Como se nomear fosse perigoso.

— Vou precisar revisar algumas plantas antigas — comentei. — A versão que recebi está correta, mas claramente houve alterações importantes.

Ele hesitou por um segundo, breve demais para ser negação, longo demais para ser natural.

— Vejo o que posso providenciar — respondeu.

O silêncio se alongou, e eu fiz o que sempre faço quando fico desconfortável demais para o meu próprio bem.

Brinquei.

— Fique tranquilo — acrescentei. — Eu não sou do tipo que abre portas proibidas nem resolve mistérios sem autorização formal. No máximo tropeço neles sem querer.

Ele me encarou por um instante mais longo do que o necessário.

— Prefiro o primeiro cenário — disse.

— Eu também — respondi, sincera.

Quando Marco se afastou para atender uma ligação, fiquei sozinha outra vez, e pela primeira vez senti algo diferente ali dentro, não curiosidade, não medo, mas respeito.

Aquela porta não escondia bagunça.

Não escondia descuido.

Escondia algo que ainda doía.

E talvez fosse exatamente por isso que permanecia fechada.

Ao sair da casa naquele dia, tive certeza de duas coisas.

A primeira: eu ainda não tinha visto nada de verdade.

A segunda: mexer naquele silêncio, mesmo sem intenção, mudaria muito mais do que a estrutura daquela casa.

Inclusive a minha.

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